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Músico de estilo abstrato

Cristiano Rojas
Da Redação

Para entender um pouco a revolução musical ocorrida na vida e na música do instrumentista mossoroense Márcio Rangel é preciso retroceder até meados da última década.

Conhecido antigo dos amantes do pop e rock do início da década de 1990, o músico começou a tocar e cantar na noite quando tinha apenas 16 anos. Experimentou vários estilos.

Sob a influência do rock brasileiro, ele formou com amigos a banda Garotos de Porão, alusão ao punk do Ratos de Porão, que tinha à frente o músico João Gordo. Depois, montou a Banda Neurose. A guitarra, na época, era sua companheira inseparável.

“Eu comecei a tocar só guitarra, não tocava violão elétrico nessa época, mas já tinha interesse em outros estilos musicais”, conta o instrumentista. A primeira virada veio com a montagem da banda de metal Mistery Play.

Posteriormente, novas incursões levaram Márcio Rangel a enveredar pelo mundo do blues, música clássica e outros congêneres. Quando apareceu recentemente com o novo projeto musical produzido na Itália, não causou nenhuma surpresa.

VIRADA – A oportunidade de mudar de estilo, contudo, só veio quando ele resolveu passar um tempo em Minas Gerais. “Fui para tocar mesmo, porque já conhecia um compositor de lá, que é neto de um dos primeiros cineastas do Brasil.”

Márcio Rangel fala do compositor mineiro e multiinstrumentista Gilberto Malta, neto de Mauro Peixoto, uma das maiores referências do cinema brasileiro em todos os tempos, com quem passou a se apresentar na noite em Belo Horizonte. Isso em 1999.

“Gilberto Malta faz música brasileira, faz Bossa Nova, fusão de coisas, tem idéias modernas “, descreve. Ao lado do amigo músico, gravou um CD. A partir dessa experiência, Márcio Rangel resolveu alçar vôos.

O cenário escolhido para as novas incursões foi a bela região italiana da Toscana. Na cidade de Siena, entre belas paisagens naturais com castelos medievais e construções renascentistas, Márcio Rangel tem se dedicado integralmente a fazer música.

Quanto ao seu estilo musical, Márcio Rangel descreve como sendo “um estilo que tem todos em um”. Uma fusão de tudo aquilo que ele já tocou um dia. É possível identificar pegadas de rock em algumas de suas músicas.

Música brasileira para gringo ouvir

Não foram fáceis os primeiros meses do músico na Itália. Com pouco dinheiro e apenas o passaporte de turista, teve logo que trabalhar. “Quando cheguei lá comecei a arranjar uns empregos escondido, por que não podia, né? “, conta ele.

Fez limpeza, faxina. Passou uns oito meses fazendo uns bicos dessa forma. “Comecei a perceber que aquilo não era o que eu queria. Só em ganhar a grana e depois ficar em casa, não queria aquilo”.

Através de uns contatos começou a tocar em hotéis onde tinham turistas. A experiência foi bastante válida. Algumas horas por semana tocando eram suficientes para lhe assegurar uma grana.

“Fiz um repertório de música brasileira e ficava tocando pra esse pessoal lá e fazendo contatos. Fui conhecendo mais gente, conhecendo o pessoal, os bares e então comecei a fazer shows”.

Estilo caiu no exigente gosto do europeu

“Quando terminei a gravação botei pra ver se o pessoal gostava, então chegava o turista escutava e comprava logo. Aí eu vi que a musica não era de má qualidade”, conta Márcio Rangel.

O som do violinista logo caiu no exigente gosto do europeu. “Tinha um CD de um violinista flamenco, peguei o endereço da gravadora dele e liguei dizendo ‘olha, vocês aí pegam novos talentos para gravar um CD?’,

Depois de uma semana, o produtor da gravadora Azurra Music chamou Márcio Rangel e disse para ele que queria fazer o CD, pois havia gostado muito da música que havia escutado. Não demorou muito para que o CD com onze faixas estivesse pronto.

DISTRIBUIÇÃO – A distribuição de O Som das Palavras saiu em dezembro do ano passado com uma tiragem de 10 mil cópias. A expectativa é que uma nova compilação seja produzida em breve.

Como na gramática italiana a escrita do nome Márcio, como a gente lê no Brasil, significa podre, o músico se viu quase que obrigado a fazer uma pequena alteração para não soar mal.

“Entrei num consenso com a gravadora Azzurra para adotar o “ç”, que é usada na Itália em nome próprio, de acordo com o antigo latim, ao invés de alterar para ‘s’ ou manter a mesma forma de escrita.

Técnica de dedilhamento chamou atenção

Quando gravou o primeiro CD de MPB instrumental, Márcio Rangel já fazia shows na noite. Havia tocado em Florença, Milão, Roma e nas redondezas da cidade de Siena, onde reside.

“Foi quando eu pensei que poderia fazer um CD. Como já tinha algumas composições que vinha fazendo, resolvi então gravar num estúdio um CD demo como experiência, com quatro músicas”, diz ele.

ESTILO – Márcio conta que não esperava que fosse dar tão certo como deu. Canhoto, com um estilo inconfundível de tocar as cordas do violão elétrico ao contrário, mas sem inverter a seqüência das cordas, tem atraído a atenção de platéias e músicos interessados em sua técnica de dedilhamento.

“Quando eu faço os solos com o polegar e o indicador o som vem mais forte, naturalmente, porque são os dedos que têm força. Mas, quando eu faço baixo com o dedo médio, o som vem mais aveludado. Então é a característica sonora, do timbre.

Ele diz que essa é uma característica também para sua música na Itália, por que ninguém toca lá dessa forma. Isso tem chamado muito a atenção dos músicos em geral e de todo mundo.

Som com hora certa para ser tocado

É nas ruínas do castelo de Monteriggioni, datado do ano de 1.200, que Márcio Rangel busca inspiração para compor suas músicas. As fotos do CD Som das Palavras foram produzidas dentro dos muros do castelo, nos jardins, nas ruínas dele.

Nesse cenário medieval é que surgiram inovações musicais, como a sétima faixa do CD, uma espécie de jazz sambando, uma mistura de várias influências, onde é possível identificar ainda pegada de rock e blues. Uma autêntica fusão de estilos.

FAIXAS – Nas outras faixas é possível perceber as influencias clássicas também. A regravação de Wave, de Antônio Carlos Jobim, mostra toda a versatilidade que é a música de Márcio Rangel.

Primo rolo é uma bossa nova com melodia clássica com influencias da melodia européia. Uma melodia com batida de bossa nova com a melodia européia de musica clássica. É a única música também com titulo italiano.

O CD é especialmente indicado para momentos de inspiração. E porque não dizer, introspecção. São 11 faixas repletas de melodias. As influências absorvidas ao longo da carreira dão a Márcio Rangel o aval para arriscar em vôos tão singulares.

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Mossoró-RN, domingo, 9 de março de 2003