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Malícia juvenil

Regiane Alves

Às vésperas de completar 25 anos, Regiane Alves não se importa de interpretar mais uma adolescente na tevê. Depois da descolada Letícia, de “Desejos de Mulher”, que vivia às voltas com o primeiro amor e com os conflitos próprios da idade que não é a dela, a atriz dá vida a outra personagem de 17 anos: a egoísta Dóris, de “Mulheres Apaixonadas”. Longe de se preocupar em ficar rotulada como eterna garotinha, o que ela quer mesmo é aproveitar a fase enquanto puder. “Acho que só tenho a ganhar com o rostinho de menina. Quando tiver 30 anos, começo a viver as mulheres de 25”, calcula, com um sorriso maroto. A tranqüilidade é fruto de uma carreira rica em tipos bem distintos, como a introspectiva e heróica Rosália, de “A Muralha”, em 2000, e a insuportável Clara, de “Laços de Família”, em 2001.

A chatice de Clara, aliás, fez a atriz pensar duas vezes antes de encarar um novo papel “do Mal”. A repercussão da mimada personagem junto ao público foi tão negativa que Regiane chegou a recusar uma vilã em “A Padroeira”. As gravações começavam pouco mais de um mês depois do final da trama de Manoel Carlos. “Ia passar dois anos sendo ‘a chata’. Achei que era tempo de esperar um pouco”, justifica a atriz.

Mas ficou tão orgulhosa de ouvir do autor que Dóris tinha sido escrita especialmente para ela que superou a resistência a um novo papel de “chata”. Ela sabe que o egoísmo da personagem vai despertar a ira do público. Afinal, Dóris maltrata os avós - interpretados por Carmem Silva e Oswaldo Louzada -, fazendo de tudo para expulsá-los de casa e alcançar seu maior desejo: um quarto só seu. Mas a atriz prefere encarar o trabalho pelo lado positivo. “Ela é o instrumento do Maneco na campanha da terceira idade. Meu objetivo é conscientizar as pessoas para um sério problema do país”, valoriza, citando estatísticas que colocam em torno dos 15 mil o número de idosos vítimas de maus-tratos em casa no Brasil.

Apesar da postura consciente, Regiane tenta entender as razões de Dóris. Durante toda a adolescência, quando ainda morava em Santo André, onde nasceu, a atriz dividiu um quarto com o irmão e também sonhava com um espaço só seu. “O quarto é o mundo do adolescente”, exagera. Além disso, ela imagina que deve ser difícil conviver com pessoas idosas em casa. “Já é difícil conviver com os pais, com marido... Os idosos têm os hábitos deles, precisam ter seu espaço e exigem cuidado”, compara.

Foi nas próprias observações que Regiane se inspirou para compor a personagem. Além do relato de amigas da adolescência que conviviam com os avós em casa, ela lembra sua própria relação com pessoas mais velhas. “Sempre me identifiquei muito com a terceira idade. Acho que tenho uma cabeça mais velha”, arrisca, num tom de brincadeira. Preocupada com a falta de material de pesquisa para o trabalho numa trama tão atual, ela própria acaba se corrigindo quando afirma que a melhor pesquisa é “viver a própria vida”.

Vivendo como uma legítima carioca nos últimos três anos, Regiane já se sente capaz de interpretar uma “garota do Leblon”. A atriz estranhou o Rio nos primeiros momentos. Era sua estréia na Globo e Rosália, de “A Muralha”, tinha uma forte carga dramática. Além disso, a atriz não conhecia ninguém na cidade e estranhava ver as pessoas de biquíni por todos os lados - “até na fila do banco!”, destaca, ainda surpresa. Hoje, no entanto, ela não consegue deixar de dar suas pedaladas no calçadão da Barra da Tijuca ou um mergulho no mar depois do trabalho. “Já posso até enganar um pouco como uma carioca da gema”, acredita.

Enquanto curte os primeiros momentos da trama de Manoel Carlos, Regiane aguarda com ansiedade o lançamento de “Onde Anda Você?”, de Sérgio Rezende, que deve acontecer em setembro. Apesar de ser seu segundo trabalho no cinema, o longa tem cara de estréia, já que “O Dono do Mar”, de Odorico Mendes, ainda não entrou em exibição. “Acho que vou sair carregada da sessão, de tão nervosa. Este filme pode ser um marco na minha carreira”, entrega, com jeito de menina, num misto de confiança e expectativa.

Tempo ao tempo

Lidar com a exposição do próprio corpo nunca foi uma tarefa fácil para Regiane Alves. No começo da carreira, ela confessa, chegou a pedir para não fazer cenas de nu e até para não aparecer de calcinha e sutiã frente às câmaras. O pudor é atribuído à criação em São Paulo, que ela considera bem diferente do Rio de Janeiro. “No Rio, as pessoas curtem um corpo malhado, bonito. Os paulistas cultivam mais elegância”, opina.

A timidez excessiva, no entanto, foi embora com o passar dos anos. Hoje, Regiane já admite protagonizar cenas mais sensuais. Tanto que no filme “Onde Anda Você?” fez sua estréia com o nu. E chegou a se surpreender com a própria reação. “Foi tão tranqüilo que pensei: ‘Nossa, como cresci!’. Acho que faz parte de um processo de aceitação”, argumenta a atriz, que fez um ensaio sensual para a revista “Vip” no ano passado. Em “Mulheres Apaixonadas”, ela já recebeu cenas em que Dóris percorre toda a casa só de calcinha e sutiã. “Chega uma hora em que o ator tem de perder este preconceito, este pudor. Nesta novela mesmo, todo mundo aparece tomando banho!”, avalia, bem-humorada.

Mas a atriz é categórica ao avisar que foge da gratuidade. Explorar o lado sensual só estará em seus planos se dentro de um contexto apropriado. “Não sou o tipo de atriz que precisa banalizar o corpo. Tenho mais a oferecer”, sentencia. Ela sabe que vai chegar o momento de incorporar “a gostosa”. Enquanto isso, no entanto, diverte-se com as garotinhas que lhe dão para interpretar. “Ainda não enjoei da adolescência”, justifica.

Instantâneas

# Regiane Alves já estreou como protagonista. Ao fazer um teste para “Fascinação”, do SBT, em 1998, a atriz se surpreendeu ao ganhar o papel da sofrida Ana Clara.

# Regiane Alves chegou a fazer três testes para a protagonista de “Presença de Anita”, que acabou ficando com a iniciante Mel Lisboa. “Assistindo à minissérie, percebi que poderia ter arruinado a minha carreira. Não estava preparada para me expor tanto”, avalia.

# Contracenar com Glória Pires foi a grande realização de Regiane Alves em “Desejos de Mulher”, onde ela viveu a filha da atriz. “Ela é uma deusa”, derrama-se.

# Regiane Alves foi reprovada num teste para “Malhação”, logo depois de concluir a Oficina de Atores da Globo, em 1997.

# Antes de se firmar na Globo, Regiane Alves passou também pela Band, onde participou do “remake” de “Meu Pé de Laranja Lima”, em 1999.

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Mossoró-RN, domingo, 9 de março de 2003