Mossoró-RN, domingo 9 de março de 2008

Mulheres mossoroenses

Geraldo Maia
gmaia@bol.com.br

Nesta semana a coluna presta uma homenagem à mulher mossoroense através de dona Celina Guimarães Viana. Não apenas por ter sido ela a primeira mulher em toda a América Latina a obter o direito de voto, mas principalmente pela educadora que ela foi. Celina Guimarães foi uma mulher de personalidade forte, uma guerreira, de feitos que podemos di-zer que estavam muito além do seu tempo. E é através dessa personagem que queremos homenagear todas as guerreiras, de ontem e de hoje, nativas ou não dessa terra, mas que por ela brigaram e contribuíram para o seu crescimento.

Celina de Amorim Guimarães nasceu em Natal/RN, a 15 de novembro de 1890. Era filha de José Eustáquio de Amorim Guimarães e Eliza de Amorim Guimarães.

Estudou na Escola Normal de Natal, onde concluiu o curso de formação de professores. E foi nessa mesma escola que conheceu aquele que seria o seu companheiro por toda a vida: Elyseu de Oliveira Viana, um jovem estudante vindo de Pirpirituba/PB, com quem se casou em dezembro de 1911.

Em janeiro de 1912 foi designada para ensinar a cadeira de Ensino Misto Infantil do Grupo Escolar Tomás Araújo, em Acari, juntamente com o seu marido, onde permaneceram até 1913.

E foi assim que a 13 de janeiro de 1914, atendendo convite do Dr. Manuel Dantas, então diretor de Instrução Pública do Estado, foi transferida para Mossoró, onde assumiu a cadeira infantil do Grupo Escolar 30 de Setembro.

Dona Celina era uma mulher muito dinâmica, inteligente e assídua no trabalho. Essas qualidades fizeram com que ela fosse merecedora de elogio individual registrado no relatório elaborado em setembro de 1914 pelo Inspetor de Ensino, professor Anfilóquio Câmara, e inscrito no Livro de Registro Profissional.

Quanto à questão do primeiro voto feminino, vale salientar que não foi D. Celina a primeira mulher a requerer a sua inclusão no alistamento eleitoral. Quem o fez foi a professora Júlia Alves Barbosa, que era catedrática da Escola Normal de Natal, em 24 de novembro de 1927. "Teve, todavia, deferimento retardado pelo juiz Manuel Xavier da Cunha Montenegro, da 1ª Vara da capital, dada à condição de solteira da requerente, somente despachado e publicado pelo Diário Oficial do Estado em data de 1º de dezembro". Dessa forma, coube a D. Celina o pioneirismo.

Mas o fato é que em 25 de novembro de 1927, há exatos 81 anos, era concedido pela primeira vez na América do Sul, o direito de voto a uma mulher. A  Lei de nº 660, de 25 de outubro de 1927, sancionada pelo governador José Augusto Bezerra de Medeiros  regulamentando o Serviço Eleitoral no Estado do Rio Grande do Norte, estabelecia  não mais haver "distinção de sexo"  para o exercício do sufrágio eleitoral e condições de elegibilidade. O projeto que alterava a lei ordinária foi de autoria do deputado mossoroense Adauto Câmara, que o apresentou na Assembléia Legislativa com aprovação unânime. E foi com base nessa Lei que a 25 de novembro do mesmo ano, a professora Celina Guimarães Viana requereu sua inclusão no alistamento eleitoral. Seu requerimento preencheu todas as exigências da Lei e nesse mesmo dia, verificados os documentos que o acompanhavam, exarou o juiz Israel Ferreira Nunes, então juiz eleitoral de Mossoró, em substituição ao Dr. Eufrásio de Oliveira, seu jurídico despacho, mandando incluir o nome da requerente na lista geral de eleitores deste município. Coube, portanto, a D. Celina Guimarães Viana a condição de primeira eleitora não só deste Estado como do país e de toda América Latina.

Como educadora, uma de suas primeiras providências ao chegar a Mossoró foi abolir o uso da palmatória na sua sala de aula, ferramenta muito usada na época e temida por todos os alunos. Dizia ela que batendo se domava, não se educava. Domar era para animais; criança precisava de educação. Foi ela responsável por traduzir e ensinar a regra de futebol para os jovens de Mossoró, até então um esporte desconhecido para eles. Quando da realização das eleições estaduais de 1928, lançou um manifesto a todas as mulheres, para que comparecessem às urnas e fizessem valer o seu direito de voto. Em 1928, várias mulheres já tinham conseguido inscrição no cadastro eleitoral. E muitos outros feitos dignos de registro em relatos mais longos.

É por tudo isso que homenageamos todas as mulheres de Mossoró através dessa guerreira que se chamou Celina Guimarães Viana.

 

Grama de inteligente

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Grama Esmeralda... Pronto! Taí um troço que virou mania nos planos de governo de dez entre dez administradores; tão importante quanto os próprios equipamentos públicos que ajudam a embelezar as cidades. Quem pode planta, e sempre tem planos de ampliar o plantio, afinal qual o morador que não quer abrir a porta de casa e dar de cara com aquele gramadinho padronizado e bonito? Agrada aos olhos e recheia as urnas. Fosse um gênero alimentício e boa parte dos problemas de desnutrição das populações carentes estariam resolvidos.

Até alguns anos atrás, confesso, nem sabia do que se tratava. Lembro da grama Tostão, lá na Caicó da minha infância; uma redondinha e pouco resistente, bonitinha, mas ordinária - não dava nem para jogar bola. Sempre atacada pelo mato que Seu Cícero, o jardineiro da praça da Liberdade, passava as manhãs a arrancar pacientemente. Antes dela o que existia era um pouco nobre capim nativo, bom para mascar nas horas incontáveis destinadas à infinita tarefa de jogar conversa fora, mas que, diante da falta de cuidados, apenas para isso se prestava.

Salvo engano, a Esmeralda nos foi apresentada há alguns anos, quando do ajardinamento dos canteiros e praças de Mossoró. Já devia existir nos jardins das casas das famílias mais abastadas, mas acho que a popularização do nome só veio depois que o vegetal passou a ser cultivado em larga escala nas ruas; um procedimento logo copiado em outras paragens. Consta que é a gramínea recordista de vendas em todo o país.

Também não tem coisa mais fácil: é só comprar as placas, jogar sobre o terreno limpo e o gramado estará pronto praticamente no final do plantio. Mais um pouco e já vai ficando adensada o suficiente para ser chamada de tapete verde. Está presente até nos campos de futebol.

De tão popular e cobiçada a Esmeralda chega mesmo a ser objeto de furto. Um amigo meu, que mora para os lados da Zona Norte da capital, contou-me uma história curiosa sobre o ajardinamento de um canteiro nas proximidades da ponte de Igapó. Botaram a dita-cuja e o difícil foi manter as placas no lugar, já que, no dia seguinte ao cultivo, os canteiros já apareciam banguelas - alguém estava cuidando de embelezar o jardim de casa.

Passei por lá outro dia e pude perceber que os furtos não eram o único empecilho para a consolidação do projeto urbanístico. O gramado amarelado denuncia que o principal problema deve ser mesmo a falta de água. Acho que estão esperando pelas chuvas, pois nunca vi um carrinho-pipa que fosse no trecho; o que também seria uma temeridade: caminhão parado no canteiro é sinônimo de engarrafamento numa cidade como Natal. Aí nem os ecologistas e simpatizantes agüentam os minutos a mais, perdidos no trânsito.

Por este motivo é que a prefeitura já perfurou e continua perfurando poços artesianos em vários canteiros centrais, num esforço danado para manter a grama e as plantas ornamentais não apenas vivas, mas viçosas, para agradar aos moradores e encher os olhos dos turistas.

O chato é que o sol não ajuda e parece brilhar com uma intensidade nunca antes vista. Mesmo na cidade que se intitula "a noiva do sol" a radiação solar anda assustando; já passou dos 13 em janeiro e se aproxima do índice máximo, 16 - o índice zero é registrado à meia-noite. Nesses níveis de radiação o ser humano, de acordo com os especialistas, precisa de apenas quatro minutos de exposição ao sol para ficar bronzeado. E não é necessário exagerar muito para sofrer as conseqüências de um câncer de pele. Acho que falta alguém estudar os efeitos dessas mudanças climáticas sobre os vegetais. Na grama parece que dá uma sede danada.

Mandam a todo momento que a gente economize água, mas não é o que vemos nas espaçosas ruas da capital potiguar. Já na entrada principal da cidade os jardineiros podem ser vistos um atrás do outro despejando água límpida em grande quantidade sobre os canteiros centrais da BR-101. Perde-se uma batalha a cada dia. O solo arenoso bebe tudo; as plantas e, principalmente, a grama estão sempre meio murchas, com cara de quero mais. Aonde as mangueiras não chegam a situação fica ainda mais complicada.

Fico imaginando os condomínios luxuosos que estão sendo construídos no litoral norte do Estado. A promessa é de que, num curto espaço de tempo, tenhamos quatro campos de golfe para desfrute dos turistas europeus, que teriam aqui sua segunda residência. Não faço a mínima idéia do tamanho de um campo de golfe, mas imagino que o aqüífero Barreiras, maior responsável pelo abastecimento da região, não deve resistir muito tempo. Até porque não seriam apenas os campos de golfe; está provado que, quanto mais desenvolvidas, mais as pessoas consomem água potável.

E em Mossoró, onde a gramínea com nome de pedra preciosa exige pelo menos quatro aguações por dia? Já que a região não tem um lençol freático tão generoso como o do litoral leste, tome carro-pipa! E, lá ou cá, até onde vai esta guerra contra as condições do tempo? Será que vale a pena tanto esforço para manter um vegetal de origem japonesa em nossos canteiros e praças? Prefiro uma solução caseira: Grama de Burro.

Cynodon dactylon, da família das Poaceae, brasileira como nós e presente do litoral ao sertão. Uma aguação superficial por dia já é suficiente para mantê-la verdinha - sem contar que ainda tem características de forragem para os animais. Uma espécie nativa adaptada às condições tropicais, mas desprezada pelos nativos. Qualquer coisa bota uma plaquinha em cada canteiro com o nome científico para dar um ar de nobreza. Seremos chiques e ecologicamente corretos; teremos canteiros, praças e até campos de golfe com Grama de Burro... Só falta usar a inteligência.

 

Ah! o beijo de amor

Gilbamar de Oliveira
gilbamarbezerra@ig.com.br 

O beijo tem o maravilhoso condão de acender cada uma das deliciosas luzes que somente o coração conhece em todos os seus mais profundos recantos na mente e no corpo humano. À guisa de uma onda de calor que percorre os milhões de células no organismo dos enamorados, provocando o maravilhoso calor responsável pelo bem estar agradável, ele vai palmilhando os pontos sensíveis e eriçando os vasos capilares, causando gostoso frenesi. O beijo abre as comportas das sensações e desperta, de maneira automática, deixando de prontidão até mesmo os mais incógnitos e invisíveis dos átomos que compõem o conjunto orgânico da vida, o desejo quase incontrolável, o querer expresso no brilho do olhar e no afago das mãos. Tudo mesmo, de verdade, acorda em transe indizível na fisiologia dos seres quando os lábios se tocam com suavidade, a princípio, depois cheios de avidez, e se fundem num beijo ardente capaz de proporcionar aos corpos uma sonhadora viagem além-tudo, uma aguda ternura e a dialética só compreensíveis pelos dois naquele instante de pura magia e gostosa singeleza. Parecenos assistir a desconcertante contudo ca-denciado bailado acompanhando a música tocada pelos corações em alta pulsação, no preciso instante do beijo. O maestro do precioso momento é apenas a emoção com todos os seus meandros, que direciona os sentidos em estado de alerta para o único e precípuo objetivo de fazer daquele ato um oceano de prazer para o casal.

Beijar alguém é a prova mais inequívoca de gostar dessa pessoa, de sentir-se bem ao seu lado, de querer demonstrar o carinho especial que somente os beijos, em determinadas situações, podem oferecer de maneira concreta. O beijo dado na boca é, realmente, sinônimo de algo mais no relacionamento a dois, do encantamento, da intensa alegria que se quer dedicar à pessoa amada. Quem beija ama ou, no mínimo, pensa amar, isso evidentemente não se traduz como um mero gesto sem importância, algo aleatório ou à moda contemporânea em que o beijo tornou-se, para muitos, uma perfídia, um toque desprovido de sentimento. Os que enveredam pelo ultra modernismo de beijar qualquer um(a) nas baladas da vida, mesmo a quem é totalmente desconhecido, não o fazem movidos pelo romantismo nem por esse anelar estar sempre com a mulher amada, essa vontade que dá e não passa jamais de passear de mãos dadas por aí, sem qualquer rumo, mas são levados pela onda da busca insensata do nada, circulando pelas veredas da própria orgia poderíamos até mesmo afirmar. Refiro-me como parêntesis a essa perspectiva de vanguarda simplesmente porque nestas mal traçadas linhas eu tento fazer reflexão sobre o verdadeiro ato de beijar sob o ímpeto do amor, a seu incontrolável impulso, do gostar como nunca, do desejar estar ao lado de quem realmente amamos. E, nesse aspecto, o beijo, sem nenhuma dúvida, se torna quase como uma cerimônia solene, uma linda e complexa cumplicidade entre os que se amam, porém invisível a quantos não conhecem nem conseguem definir seus olhares, gestos e atos, todos inerentes apenas e tão-somente a ambos. Porque sou pelo beijo de amor, seja ele somente fraternal ou tenha aquele algo mais como entre os enamorados. Beijar não deveria, nunca, tornar-se mero comportamento sem qualquer graça, um simples tocar sem sentir, incongruente juntar de lábios sem a força motriz do amor. Todavia, considerando que o viver é um passatempo cheio de inúmeras possibilidades, melhor beijar, ainda que desprovido de sentimento, do que esbofetear alguém. Que não seja, pelo menos isso, um beijo de Judas.

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