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Garimpo no sebo
Por
MARCOS FERREIRA
Embora o nome ‘sebo’ ainda não soe muito bem junto aos ditames e preceitos do marketing, o comércio de livros, discos e revistas usados sobrevive ao tempo e ao preconceito. Fugindo à concisão do dicionário Aurélio, que define esse tipo de comércio apenas como ‘Livraria onde se vendem livros usados’, o sebo é também ponto de convergência da intelectualidade e cultura de seu meio.
Acomodado numa estreita mas longa sala da rua Augusto Severo, próximo ao Colégio Sagrado Coração de Maria, no Centro, o sebo Arte e Cultura, de propriedade do livreiro Francisco Canindé, revela-se hoje como um dos melhores e mais concorridos desta cidade. Entre livros, CDs, discos de vinil e uma grande variedade de revistas, o sebo conta com um acervo que ultrapassa os cinco mil volumes.
Segundo o proprietário da casa, as pessoas estão a cada dia mais se atraindo pelo ambiente do sebo, principalmente no que se refere às personalidades que formam o círculo literário e artístico da cidade. Embora ainda considere essa rotatividade muito pequena, Francisco Canindé, ou simplesmente Canindé, como é mais conhecido por todos que freqüentam o setor, vê com otimismo essa aproximação.
Devido aos preços exorbitantes do material escolar repassado aos pais e alunos pelas livrarias, o sebo surge como grande alternativa de economia. São livros com cerca de quarenta, cinqüenta e até noventa por cento abaixo da tabela apresentada pelas livrarias. Além da economia na hora de adquirir esse material, os livros didáticos do sebo quase sempre expõem um estado de conservação muito bom.
“Ainda não vivemos uma situação muito favorável, mas essa área de trabalho já foi muito mais difícil. Isso hoje é bem menos, mas as pessoas viam com muito preconceito o fato de se adquirir certa coisa em sebo, ainda mais se tratando de livros didáticos. Hoje, porém, quem busca esse tipo de material procura primeiro aqui. Caso não tenhamos, aí é que procuram as livrarias convencionais”, explica o sebista.
SEBO ITINERANTE
Há mais de dez anos nesse ramo de compra e venda de livros, Canindé nos revela que iniciou sua atividade de autônomo com o que ele chama de sebo itinerante. De posse de alguns exemplares de obras específicas e de duas mochilas grandes, uma para as costas e a outra virada para o peito, ele visitava um número selecionado de clientes levando obras previamente encomendadas por muita gente da cidade.
“De início, o sebo surgiu na minha concepção como itinerante. Foi quando adquiri os primeiros volumes e me lancei na estrada com duas pesadas mochilas de livros oferecendo às pessoas. Conheci muita gente e fui construindo uma clientela mais seleta e fiel. Então eu tinha pessoas como doutor Xavier, doutor Joel, José Wellington e Paulo Linhares que eram meus clientes mais constantes”, relembra.
Natural da cidade de Caraúbas-RN e formado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Francisco Canindé nos conta que foram vários os locais onde ele trabalhou com o sebo. Um dos pontos mais movimentados, segundo ele, foi no Centro de Convivência da Uern, onde montou durante algum tempo a sua banca de livros, discos e revistas usados.
Livros e edições raras são encontrados no sebo
Além da opção de economia e intercâmbio cultural, outro detalhe que leva inúmeras pessoas a visitarem um sebo é aquilo que algumas pessoas chamam de ‘garimpo literário’, a procura por obras e autores que geralmente só são encontrados nas prateleiras e escaninhos do sebo. Dependendo da importância do autor e da raridade da edição, o livro pode até custar mais caro do que um lançamento qualquer.
É em busca dessas obras e autores que muito colecionador e leitores outros se dedicam durante horas ao trabalho de garimpo pelos sebos. Canindé nos apresenta algumas de suas ‘peças’ mais raras, ele que está sempre viajando para outros centros para com o propósito de renovar e o seu acervo atender a pedidos e encomendas de clientes mais freqüentes em seu ambiente de trabalho com a cultura.
“Temos aqui algumas obras importantes e muito procuradas como é caso de O Príncipe, de Maquiavel; Contrato Social, de Rousseau; romances da literatura universal como Guerra e Paz, Crime e Castigo, e obras raras como Os Protocolos de Sales de Sião, um livro raro que é como se fosse um plano dos judeus para conquistar o mundo, coisa que alguns atribuem aos nazistas e aos comunistas de Stalin”, diz.
Serviço
SEBO ARTE E CULTURA
Rua Augusto Severo, s/n,
Centro – Telefone: 9975-6807
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Mossoró-RN, domingo, 6 de abril de 2003