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Despedida de palhaços: "Chaves" e Arrelia

Por: Fabio Riemenschneider

O adeus do "Chaves"!!

Recentemente o SBT decidiu não renovar mais o contrato para a exibição do programa mexicano "Chaves". Após vinte anos não existe mais interesse da emissora em exibi-lo, seja por questões financeiras, de audiência ou qualidade, sendo que a última nunca fez parte das preocupações da emissora.

O que mais chamou a atenção foram os protestos contra tal decisão. De um momento para outro, "Chaves" deixou de ser brega e "trash" para ser reconhecido como "cult". O que houve com "Chaves"? Por que não conhecíamos estes fãs? Qual o motivo para eles se esconderem?

A simples menção a seu nome era acompanhada por risadas maliciosas e pouco condescendentes. "Chaves" era um dos símbolos máximos de uma emissora que se dedica ao entretenimento popular, e, portanto, sem qualidade.

Apesar disto sempre gostei do programa, por sua ingenuidade, suas histórias inocentes, e pelos personagens caricatos que garantiam certeza de risada fácil e um bom passatempo. Aliás, esta era uma das funções básicas do programa; fazer o tempo passar enquanto outra atração não se iniciava. Neste sentido, o programa também era desvalorizado dentro da emissora, e tratado como um produto de segunda linha.

Apesar de tudo, sempre dava audiência, e por isto se mantinha nos mais variados horários, e, portanto, era assistido por diferentes segmentos da população. Ninguém ligava a TV para assistir ao "Chaves",  também ninguém desligava quando estava "zapeando" ou "de passagem". Pelo menos foi assim comigo.

Outro capítulo à parte são suas peculiaridades técnicas: cenários pobres e malfeitos, atores e atrizes de recursos dramáticos limitados, caracterização pobre dos personagens (nada me tira da cabeça, que as bochechas do Kiko eram feitas de algodão), adultos (em alguns casos idosos) fazendo papel de crianças; mas principalmente a dublagem.

        No Brasil temos longa tradição de dubladores-artistas (Lima 'Manda-Chuva' Duarte é um bom exemplo), mas no caso de "Chaves" as coisas são diferentes: tudo é muito malfeito. Tive a oportunidade de assistir o programa em sua língua original; achei engraçado, mas não tinha metade do charme do que assistimos por aqui. Aqui a falta de expressão das falas somada ao descompasso entre os movimentos labiais e o som torna nosso "Chaves" muito mais engraçado que o original.

Não estou questionando o trabalho de dublagem, ao contrário, talvez ele tenha sido feito desta forma para ser coerente com a proposta tosca e malfeita do programa e isto o torna insuperável. Uma autêntica obra-prima "trash".

As histórias do menor abandonado que vive numa barrica de uma vila pobre trazem à tona algo que foi perdido com o processo de urbanização em nosso país. Em nossas grandes cidades a figura do menor abandonado é associada ao delinqüente, à violência e ao perigo, e nossa produção televisa/cinematográfica acompanhou tal associação (embora recentemente o seriado "Cidade dos homens" tenha discutido com seriedade e sensibilidade o problema do menor). "Chaves", ao contrário, é incorporado ao cotidiano dos moradores da vila e lá brinca, sonha, sofre, apanha e bate como qualquer criança. Ele continua sendo uma criança e jamais é visto como um perigo.

Suas histórias se resumem a acompanhar o dia-a-dia deste menino pobre. O fato de o personagem principal ser interpretado por um senhor sexagenário aumenta a sensação de desacerto do seriado. Este descompasso é que dá personalidade ao programa e faz de sua simplicidade uma lição.

Lição que tem sido esquecida em nossos programas de TV, e que fez, por exemplo, que o "Sítio do Pica-Pau Amarelo" se tornasse apenas mais uma novela.

Não é possível comentar o final de "Chaves" sem lembrar do Palhaço Arrelia, morto recentemente. Os dois têm muito em comum, já que fizeram da TV um meio de celebrar a ingenuidade, a simplicidade e o aspecto circense de suas vidas. Desta forma ambos fizeram parte da história de algumas gerações.

Arrelia - Como vai? como vai? Como vai? Muito bem! Muito bem! Muito bem!

No dia 23 de maio passado morreu o Palhaço Arrelia. Palhaço com letra maiúscula que divertiu várias gerações no decorrer de sua longa vida (faleceu aos 99 anos). Sua história confunde-se com a de minha experiência de circo, algo tão distante de nós hoje. Lembro que após ver seu programa na TV, decidi do alto dos meus cinco anos, que era hora de ir ao circo. Após tomar tal decisão, comuniquei-a a meus pais, que viabilizaram-na imediatamente.

A tradição circense de sua família é longa e nos remete à França, mais precisamente à região de Grenole no final do século XIX.

Seu avô, Ferdinando Seysse (nobre do condado de Seysse!!)  apaixonou-se pela vida circense, e mais ainda pela bela filha do dono do circo e bailarina eqüestre. Abandonou seu título e acompanhou o circo. Nascido na Itália, um dos filhos do casal, Júlio tornou-se palhaço e com o circo veio para o Brasil. O circo se instalou onde hoje funciona o Fórum de São Paulo.

Aqui criou com um irmão o Circo Seysse que viajou por todo o país. No dia 31 de dezembro de 1905 o circo estava em Jaguariaíva (PR), e foi lá que nasceu Waldemar. Sua vida circense começou cedo, mas somente aos 17 anos começou a ser palhaço. Aos 22 adotou o apelido de infância e assim surgiu o Palhaço Arrelia.

 Apesar de ter se formado em Direito, nunca se registrou na OAB. Dizia que como advogado seria um palhaço. Melhor ser palhaço. Assim seguiu a vida que as pessoas de minha geração puderam acompanhar, ainda que por pouco tempo na TV (o programa saiu do ar em 1974). Salve Arrelia, que nada tinha de irritante aos olhos de quem o acompanhava como palhaço.

Com ele, para mim, nasceu e morreu a magia do circo.

SOBRE O AUTOR: É coordenador dessa coluna, Prof. da Universidade do Estado do RN, doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, pesquisador COMPLEXUS/PUC-SP e do SUBJECTUM

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