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Entrevista

Enquanto durar almoço na mesa

LÍRIA NOGUEIRA ALVINO
Escritora –
antonialiria@uol.com.br

O dilema começa sempre às quintas-feiras.  É o dia em que o almoço da família é planejado.  Quintas e sábados, que é o dia que o pessoal confirma.

Chegou a hora de sempre.  Domingo meio-dia.

- Passa o frango, por favor.

Passaram.

O frango foi posto no lugar central da mesa, por cima da toalha branca de domingo. Abaixo dele estavam anos e anos de pura agonia familiar, era a toalha de sempre.  Ela sim, era a absoluta daquela casa.  Por cima dela passaram os batizados dos filhos, os crismas - que todos eram católicos de dar gosto, a formatura, uma não se formou porque Jesus levou ainda pequenininha, e os casamentos.  Então ela ficou velhinha, usada, sofrida igual o rosto da mãe da casa.  E começaram a usá-la para almoço mesmo, aos domingos.  Um evento simples considerando sua vida inteira de glamour familiar.

A mãe, essa não podia escolher dia para usar e usavam todo dia.  

Porém, o almoço do domingo, agora passava todas as vezes por cima da toalha branca de renda.  

Neste dia havia um convidado mais que especial, um grande garrafão de suco de manga com pedras flutuantes e transparentes de gelo denso, que a mãe botara ao lado do frango, talvez num lance de combinação artística, quase arquiteta, quase estudada.

Então todos chegaram, os filhos com suas mulheres, às filhas com seus maridos, os netos com seus brinquedos e os brinquedos sozinhos mesmo.  Fizeram à algazarra de sempre na porta da casa, entraram.  A mãe como sempre na cozinha quente, arejada, mas quente, de amor, de devoção e a ela se juntaram as filhas e as noras, as netas não, que eram pequenas ainda.  Cozinha é coisa de mulher, os homens ficam na sala, conversando sobre política, sobre encanações, bueiros, filiações partidárias e sobre a vitória do Baraúnas sobre o Vasco, do Rio de Janeiro.  

Na cozinha também caía um assunto entre uma mexida de panela e outra, assuntos fervidos para combinar com o ponto da comida, assuntos de bucho, assuntos de bulida e assuntos de traições, das outras - delas não, que nenhuma era disso.  Todas conversavam e faziam qualquer atividade, ou descascavam cebolas, ou picavam tomates, ou lavavam pratos ou enxugavam.

Servido o almoço todas as mulheres se encaminhavam para a sala de jantar, que se chama sala de jantar, mas serve para tudo, inclusive para almoço, cada uma com um prato de alimentação.  Colocaram tudo na mesa e chamaram cada uma seus respectivos maridos para degustar o servido.  

Eles, que estavam conversando e bebericando seus aperitivos, levantaram-se achando qualquer coisa de desconfortável em ter eles mesmo de ingerir a própria comida.  Estava sendo mais divertido ficar ali na sala conversando.

Ao chegar no lugar do destino esperavam por eles, o frango, a farofa, o arroz, e o feijão não, que a mãe já cozinha feijão todo dia e domingo não é dia de botar feijão no fogo.

Cada mulher botou primeiro o almoço de seu esposo, depois o almocinho dos filhos para depois botar o próprio, que seria comido corrido, às pressas porque o menino maior da cunhada derrubou o menor, filho da outra cunhada, por cima de um monte de pedras que estavam no quintal.  Foi choro.  Entreolharam-se furiosas uma com a outra e ficou nisso mesmo porque com a casa cheia de gente e com tanto prato para lavar não dava tempo nem para brigar senão iam sair dali de noite.

Enquanto tudo, os maridos, pai e irmãos almoçavam calmamente querendo mais gelo no suco, aquele de manga.

As mulheres se revezavam no oferecimento do guardanapo, do suco, do frango e de tudo que ainda se dispunha sobre a mesa, repetindo sempre "quer mais isto, quer mais aquilo? Está bom, sirva mais", com a mão direita quase sempre ocupada com o colherão já posto com mais uma porção do alimento oferecido.  Era tão exaustivo aquele almoço...  E como os homens se aproveitavam dele.

A cunhada que não quisesse ou que não seguisse rumo à cozinha na retirada dos pratos era preguiçosa, e, não querendo essa alcunha as mulheres da família se apressavam em tomar esse direcionamento.  Rapidamente para não perderam tempo.  Elas teriam ainda os pratos para lavar, a mesa para tirar, a sala para varrer, porque caem restos de comida no chão, sabe?  Os meninos para limpar, os pratos para enxugar e guardar, alguém ficaria com o fogão e as panelas que era a pior parte.

Enquanto isso, depois da água bebida ao final da sobremesa, depois até de alguns vastos arrotos de apreciação e de má-educação, os homens levantam-se da mesa e caminham em busca dos mesmos lugares que estavam ocupando antes de irem almoçar - as poltronas da sala.

Desavergonhadamente, sem nem se lembrarem do trabalho de suas mulheres...

Bairrismo e cena musical

Pablo Capistrano
Escritor, professor de Filosofia -
pcapistrano@hotmail.com

No Orkut tem uma comunidade interessante chamada Rock Alternativo Natal, na qual 354 membros (atualmente) discutem questões relativas a produção musical contemporânea. Surgiu na lista a informação que o Paulo André, produtor do Abril Pro Rock (festival tradicional de Recife) teria dito numa entrevista à revista Outra Coisa, o seguinte: "A grande diferença entre o APR e o MADA, que é um grande festival nordestino e um dos grandes do Brasil, ao lado do Porão, é que eles não têm a produção musical local como há aqui. O APR privilegiou a cena local, e mostrou que ela não era fogo de palha. Esta produção continuou existindo. E vai continuar por muito tempo mais." Levando em consideração que o sujeito tenha realmente dito isso (não li a revista por isso não posso testemunhar as palavras dele, nem entender seu contexto), cabem algumas reflexões interessantes.

Quando meu pai me explicava algumas sutilezas técnicas acerca dos distúrbios mentais (assunto com o qual ele lida há mais de trina anos) me alertava para o fato de que existe uma distinção conceitual básica entre a alucinação e o delírio. A alucinação diz respeito ao aspecto mais perceptual da consciência. Parece estar relacionado com o modo como os sentidos trabalham e como o sujeito percebe o mundo. Ver o que não existe, ouvir vozes, assustar-se com a imagem de animais ou presenciar fenômenos perceptivos que não fazer parte da realidade intersubjetiva. O delírio, por sua vez, tem relações com uma alteração no conteúdo do pensamento. O sujeito começa a pensar que, por exemplo, o vizinho está falando mal dele para a esposa, ou que o chefe de sua repartição está querendo matá-lo. Ele encontra indícios e percebe sinais e todos os locais. Na prática, deve ser difícil indentificar onde começa a alucinação e termina o delírio, ou vice e versa. Para um psiquiatra treinado isso deve ser mais fácil. O fato é que, entre a alucinação e o delírio, não parece fazer sentido afirmar que não há produção musical "local" em nosso estado (o que significa isso? O que é o local?). O RN já mostrou que tem uma cena pulsante, com uma grande quantidade de bandas produzindo seus discos, fazendo shows, festivais e correndo atrás de espaço nas rádios para tocar suas músicas. Se isso não indicar a existência de uma produção musical por aqui, eu não sei o que pode indicar. Na verdade, acredito que o referido produtor não deve estar delirando ou sofrendo de alucinações, o que me parece é que ele está usando a velha forma de desqualificar a concorrência. O problema é quando nós, do lado de cá, nessa alucinação coletiva de não enxergar o próprio umbigo e sempre invejar o umbigo alheio, acabamos por elevar a categoria de lei o delírio do outro.

Ailton Medeiros, essa semana no jornal JH primeira edição, atestou, analisando uma matéria do jornal O Globo, que o bairrismo não é uma prática exclusiva de terras potiguares como aparece a alguns à primeira vista. Que panelas e privilégios grupais ressoam em diversas cozinhas Brasil a fora. Aliás parece que sofremos de uma alucinação esquisita que nos faz enxergar coisas que não existem em outros estados e deixar de ver aquilo que existe no nosso. Não gosto do bairrismo, porque instiga dicotomias artificiais como a "dos de dentro" e a "dos de fora". Mas parece que a discussão sobre esse tópico está, infelizmente, sendo a cada dia mais necessária por essas praias. Acho que um primeiro caminho é subverter as categorias de local, regional, nacional. O público dessa terra, mal-acostumado com alguns delírios alheio, precisa ainda aprender que a idéia do "local" é uma das muitas mitologias geográficas que o subcolonialismo cultural andou criando para confinar o talento do outro na umidade de suas próprias cozinhas. A questão é saber qual alucinação é a mais útil, ou então aprender de uma vez por todas a cultivar a lucidez.

O país da "enrolation"

CLÓVIS ROSSI
Articulista da Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Não sei se o brasileiro é o melhor do Brasil, mas que os publicitários brasileiros são craques em retratar a alma profunda da pátria, lá isso são.

Exemplo mais recente: a propaganda de uma cerveja em que o rapaz encosta no balcão, uma loira se aproxima e fala com ele em inglês. O rapaz cobra do cérebro: "Inglês!". Os neurônios se agitam até que um deles dá a solução: é só pedir a cerveja tal que o resto é "enrolation".

É ou não é o Brasil, o país da "enrolation"? Que pode tomar várias formas: gambiarra, "gato", "por fora", "com nota ou sem nota?". Noutro dia, descobri a mais recente "enrolation": fui comprar auricular para o celular. O rapaz que atendeu perguntou: "Original ou genérico?".

É a forma "enrolation" de não precisar dizer pirateado.

Tem "enrolation" sofisticada. Sonegação no país da "enrolation" toma duas formas: a velha conhecida (no mundo todo), pela qual o sujeito simplesmente não paga; mas tem também a chamada "elisão fiscal", uma baita "enrolation" pela qual a empresa (em geral são empresas) faz "engenharia fiscal" (outro nome para "enrolation") e acaba pagando bem menos do que deveria pagar se se aplicasse o princípio básico segundo o qual paga mais (impostos) quem mais ganha.

No fundo, a "enrolation" é a mais recente versão para "levar vantagem em tudo", outro propaganda célebre de uns 20 anos atrás ou pouco mais. O tempo passa, mudam os governos, mas não muda a "enrolation" (deles e de uma fatia ponderável da sociedade, não sejamos complacentes).

Brasileiro pratica "enrolation" não apenas com o inglês, que é de fato mais difícil de aprender. Até no espanhol o falso malandro acha que pedindo uma "Cueca-Cuela" já é candidato a uma vaga na Real Academia Española.

E assim vamos vivendo, enrolando a nós mesmos.

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