ATUALIZADO AOS DOMINGOS

Nós morremos

"Nascemos de um só modo,
de muitos morremos".
SÊNECA

Morremos. Não sei exatamente quando nem como tudo aconteceu. Tenho certeza apenas de que perecemos consumidos a partir dos ossos por um mal secreto e traiçoeiro. Houve sinais, mas não nos importamos com os alertas dados aos nossos corpos e almas. Calamo-nos e no silêncio onde as defesas humanas se enfraquecem, longe de médicos e curandeiros, a moléstia passou à fase terminal e a terceira parca, Átropos, irmã de Cloto e Láquesis, cortou o fio de nossas vidas.

Estou no inferno e aqui, diferentemente do que dizem, faz um frio dos diabos, aquele frio úmido que ataca as articulações, favorecendo a manifestação da poliartrite congênita. No entanto, a dor nos punhos, nos cotovelos e nos joelhos nem se compara ao estardalhaço do tinhoso em meu juízo. O juízo dói e pesa muito mais do que juntas e tendões apodrecidos. É como diz aquela alma atormentada em Dante: "Não há mágoa mais atroz do que na desgraça recordar as alegrias".

Felizmente há livros, milhares deles, coletâneas e coletâneas de conhecimento proibido amontoadas desde o pecado original em prateleiras pálidas e sujas. Os tratados sobre ética encabeçam a lista dos best-sellers. A música é legal. No instante, criaturas do pecado e do fogo escutam "O ciúme", de Caetano na voz de Caetano: "...Tanta gente canta, tanta gente cala,/ tantas almas esticadas no curtume./ Sobre toda estrada, sobre toda sala,/ paira, monstruosa, a sombra do ciúme".

Desconheço o paradeiro da outra parte. Disseram-me criaturas do Limbo que a alma-gêmea dos anos terrenos habita o Paraíso onde moram santos, anjos, arcanjos, querubins e outras invenções celestes. Se estiver realmente por lá, que passe bem. O amor deve a ela a compensação da felicidade eterna. Da última vez em que nos vimos, encontrávamos no leito de morte, cada qual do seu lado consumindo-se na falsidade dos diagnósticos, sem força para as palavras de salvação.

Palavras são navalhas se as forjarmos com o aço da desconfiança na fornalha da mentira.  Navalhas cortam dilacerando a carne. E matam. Nós morremos, mesmo sabendo que antídoto para navalha é palavra. Devíamos tê-lo ingerido nos primeiros sinais, mas negligenciamos as disposições orgânicas. A ex-amada ganhou paz eterna, amém! Eu prossigo no Vale das Sombras, partindo corações na madrugada, embriagando-me do chumbo vulgar que servem nas filiais do inferno.

 

CID AUGUSTO
E-MAIL: cid@digizap.com.br

Integra a equipe de O Mossoroense

 

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