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Educação
sim, trabalho não
Virgílio
tinha 12 anos, e dividia sua infância entre
idas esporádicas à escola e o trabalho nas
ruas do Paranoá, onde morava, e do Plano
Piloto, em Brasília. Lavava e vigiava carros,
engraxava sapatos. Jorge tinha 11 anos,
também vivia no Paranoá, e enfrentava a
mesma vida de trabalho precoce, de abolição
incompleta.
Cristiane
tinha 13 anos. Todas as manhãs, barriga
vazia e pés descalços, andava 5 km até a
escola onde cursava a 6ª série. Escola que
não freqüentava o ano todo, pois trabalhava
em épocas de colheita, ajudando a mãe bóia-fria.
Mara tinha 14 anos e cursava a 8ª série.
No ano seguinte abandonaria os estudos para
assumir as tarefas domésticas de sua casa
e o cuidado dos irmãos mais novos.
Eram crianças,
e tinham todas as chances de um futuro comprometido.
Poderiam estar entre os mais de 5 milhões
de brasileiros entre 5 e 17 anos que trabalham,
vítimas da indiferença e da tolerância com
que a sociedade trata o trabalho infantil.
Esse quadro
precisa mudar. É preciso deixar claro que
o trabalho precoce afasta a criança da escola,
dificulta seu aprendizado, prejudica seu
desenvolvimento. Que crianças que vivem
uma infância de trabalho, insegurança e
exploração não se tornarão adultos sadios,
responsáveis, "de caráter", e
que o trabalho só é positivo quando
acontece a partir da idade mínima, e combinado
com lazer, segurança e educação.
Crianças
que deixam a escola para trabalhar deixam
de receber formação fundamental para sua
futura inserção no mercado de trabalho,
ficando condenadas à miséria e ao desemprego.
A baixa escolaridade perpetua a pobreza.Para
quebrar esse círculo vicioso, é preciso
garantir que as crianças pobres estudem.
O programa
Bolsa-Escola parte de uma ótica simples:
se as crianças são pobres e precisam trabalhar,
a solução é pagar suas famílias para que
mantenham seus filhos na escola. Além de
garantir permanência na escola, ela combate
o trabalho infantil, pois os pais rapidamente
percebem que o cansaço e as jornadas de
trabalho que se chocam com o horário escolar
têm impacto devastador na aprendizagem de
seus filhos.
As quatro
crianças citadas acima receberam Bolsa-Escola
e escaparam da condenação à baixa escolaridade
e à pobreza. São exceções, mas seus exemplos
deveriam ser a regra. Virgílio cursa o 4°
semestre de Segurança da Informação e é
Gerente de Tecnologia de uma empresa de
informática. Jorge terminou os estudos,
aprendeu Inglês, foi o primeiro entre 10
mil candidatos em um concurso público e
é Comissário de Bordo em jatos da FAB que
levam nossos ministros em viagens oficiais.
Mara estudou informática, é secretária e
estuda Pedagogia da UEG. Cristiane está
concluindo o ensino médio e se prepara para
o vestibular na faculdade de Direito da
UEG.
O próximo
dia 12 é o Dia Mundial contra o Trabalho
Infantil. O Brasil pode ser um exemplo para
o mundo se universalizar a Bolsa-Escola,
acompanhando com rigor a freqüência escolar
dos beneficiários. Para financiar esse programa,
poderia trocar uma pequena parte de sua
dívida interna pública por investimentos
em educação básica. A dívida dos estados
e municípios com a União chega a R$ 290
bilhões. Se a União perdoasse 5% dessa quantia,
na condição de que o dinheiro fosse gasto
para aumentar o valor da Bolsa-Escola e
o salário dos professores e para a compra
de equipamentos, haveria recursos suficientes
para um salto de qualidade na educação de
nossas crianças e adolescentes. E o Brasil
pagaria uma dívida social com milhões de
crianças vítimas do trabalho precoce.
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