Mossoroenses fazem última homenagem a João de Deus

Bruno Barreto
Da Redação

Ontem à noite centenas de católicos se dirigiram à Catedral de Santa Luzia para participar da missa, rezada pelo ex-bispo de Mossoró D. José Freire, em homenagem ao papa João Paulo II, que morreu ontem, às 16h37, horário de Brasília. Estiveram presentes 9 padres de variadas paróquias da cidade e vários seminaristas. A celebração não foi dirigida pelo atual bispo de Mossoró, D. Mariano Manzana, porque o sacerdote estava em viagem a Umarizal.

Apesar de não haver lágrimas, boa parte das pessoas presentes à missa estava visivelmente emocionada, como era o caso da dona de casa Erileide Batista. "É muito triste para todos nós perdemos uma pessoa como o papa", lamenta.

Entre os padres presentes o sentimento era o mesmo, a tristeza só não era maior porque o estado de saúde do Sumo Pontífice vinha sendo bastante divulgado nas últimas semanas, por causa disso a sua morte já era esperada. "De certa maneira já esperávamos porque o Santo Padre tinha uma vida bastante sofrida, mas ele cumpriu a sua missão e muito bem, deixando como marca principal a liberdade dos povos", recorda padre Sátiro Cavalcante.

O vigário geral de Mossoró, Padre Flávio Augusto, também analisou a passagem de João Paulo II. "Temos visto a páscoa do papa com um misto de tristeza, pela perda, e agradecimento a Deus pelo pastor que ele foi para todos nós, tudo isso acreditando na certeza de sua ressurreição", conclui.

Toda essa comoção pelo papa João Paulo II não era para menos, ele foi um dos líderes da Igreja Católica mais populares da história, conheceu várias culturas, viajou o mundo inteiro visitando 125 países, em 104 viagens oficiais internacionais, buscando sempre uma aproximação das religiões em torno da fé, sem priorizar a atuação política e condenando aqueles que matam em nome de Deus. "Para mim foi um dos pontificados mais significativos da história por tudo que ele fez ao redor do mundo", confirma o ex-bispo de Mossoró, D. José Freire.

Nenhum outro papa realizou tantos encontros: foram mais de 18 milhões de peregrinos a participarem de uma de suas audiências que ao todo chegaram a 1.160, realizou 982 encontros oficiais com chefes de Estado, graças a isso a sua popularidade sempre esteve em alta entre os fiéis. "Ele foi muito bom sempre preocupado com as coisas de Deus", afirma a fiel Maria José de Souza.

A saúde de João Paulo II piorou rapidamente a partir do início deste ano. O papa passou por duas cirurgias em dois meses, na última quarta-feira o Vaticano anunciou que o papa estava se alimentando por meio de um tubo nasal para ajudá-lo a se recuperar de uma recente cirurgia na garganta. Horas antes desse anúncio, o papa, pela segunda vez em quatro dias tentou, mas não conseguiu falar em público, fazendo com que surgissem mais boatos sobre a deterioração de seu estado de saúde.

A internação anterior ocorreu em 24 de fevereiro, quando o Pontífice foi submetido a uma traqueostomia (abertura de orifício na traquéia para possibilitar a respiração), na ocasião  ele ficou internado por 18 dias.

Em 23 de fevereiro, um dia antes de voltar ao hospital, o papa realizou sua audiência por meio de equipamentos de videoconferência, e falou aos peregrinos de seu estúdio particular, por causa do frio e da chuva que caiu em Roma.

No início daquele mesmo mês, o papa havia passado dez dias no hospital Gemelli por sofrer uma inflamação da laringe e da traquéia; ficou internado por dez dias.

O pontificado de João Paulo II durou 26 anos - o terceiro mais longo da história. Neste período, proclamou 482 santos, mais do que todos os predecessores nos últimos 500 anos.

Padre Flávio faz anúncio oficial

O padre Flávio Augusto Forte de Melo, vigário-geral da diocese de Mossoró, teve a dura missão de anunciar ontem à tarde, nos microfones da Rádio Rural, o falecimento do papa João Paulo II, ocorrido às 16h30, no Vaticano. O anúncio inicialmente seria feito pelo bispo dom Mariano Manzana, mas devido a uma viagem sua a Umarizal, a missão acabou delegada a padre Flávio, que o fez bastante emocionado. Veja o que ele disse:

"Queridos irmãos e irmãs da diocese de Santa Luzia de Mossoró, nós, em nome de dom Mariano Manzana, em nome da diocese, queríamos comunicar que às 16h30 foi anunciado pelo Vaticano que veio a óbito o Santo Padre. Nós queremos pedir a toda a diocese que clame em oração a partir deste momento agradecendo a Deus pelo grande testemunho que o Santo Padre deu até o último instante de sua vida íntima. Fez sua páscoa definitiva e estamos nós convocados agora a nos unir como Igreja, pertencente à diocese de Santa Luzia, a fazer com que esse momento seja especial para todos nós, mostrarmos a nossa gratidão ao pai pelo testemunho e pelo exemplo de vida. Quero convidar a todos para daqui a pouco na Catedral de Santa Luzia, em Mossoró, às 19h30, irmos todos celebrar a eucaristia conforme determinou o nosso bispo, para esta primeira missa para agradecer a Deus a vida do Santo Padre".

NOTA - Depois do pronunciamento nos microfones da Rádio Rural, padre Flávio assinou nota, em nome do bispo dom Mariano Manzana, a respeito da morte de João Paulo II. O teor é o seguinte:

"A diocese de Santa Luzia de Mossoró, ao tomar conhecimento oficial do falecimento do Santo Padre, o papa João Paulo II, por volta das 16h30 deste sábado, Oitava da Páscoa do Senhor, se une aos cristãos do mundo inteiro em oração ao Deus da vida e da paz. Ao celebrarmos a vigília da Divina Misericórdia, movidos pelo sentimento filial que nos une ao Santo Padre, convocamos todos os irmãos para juntos elevarmos a Deus nossa oração durante estes dias em que estaremos reunidos em torno da Eucaristia, velando pelo Sumo Pontífice, que por 26 anos foi pastor e guia da nossa Igreja".

Dom Mariano Manzana, bispo diocesano (assinada por Padre Flávio)

Governadora lembra o caráter missionário e a visita do papa ao Rio Grande do Norte

Tão logo recebeu a notícia do falecimento do papa João Paulo II, a governadora Wilma de Faria lançou nota oficial lamentando o fato ocorrido. Wilma lembrou da sua passagem pelo Rio Grande do Norte, em 1991, quando na época era prefeita de Natal.

"Ele foi um grande missionário. Pregou o evangelho na prática, percorrendo o mundo, sem medo, respeitando ideologias, praticando a paz. Quebrou as regras do papado tradicional, não fazendo do Vaticano o seu gabinete. Seu lugar foi o mundo. Sua missão, a palavra de Deus".

Em 1991, Wilma de Faria era prefeita de Natal quando o papa esteve na cidade. "Guardo dele a figura de um homem terno, de um missionário. Sua imagem era iluminada".

Arcebispo de Natal diz que João Paulo II foi um líder

Da Tribuna do Norte

Os sinos da antiga Catedral de Natal ecoaram no final da tarde de ontem. Era o anúncio concreto, para o natalense, de que a maior autoridade da Igreja Católica havia morrido. "Esse é um momento de tristeza. Não tristeza de desespero, mas de saudade pelo homem que ele foi, pelo missionário, pelo líder", comentou o arcebispo metropolitano de Natal, dom Matias Patrício.

Ele afirmou que esse é o momento de se voltar para os céus e pedir a Deus o repouso eterno para o papa João Paulo II. "Precisamos pedir também pelo novo papa para que ele continue o trabalho iniciado por João Paulo II."

Dom Matias Patrício ressaltou ainda o trabalho missionário realizado pelo papa. "Esse foi o papa que mais viajou pelo mundo, ele fez muitas missões e foi o grande missionário", completou o arcebispo metropolitano de Natal.

Hoje, às 19h15, dom Matias celebrará uma missa, na Catedral, pelo papa João Paulo II. "Não é uma regra, mas pelo clima de afetividade, todas as missas de hoje (sábado) e de amanhã serão celebradas pelo papa João Paulo II", comentou.

A última vez que dom Matias esteve com o papa João Paulo II foi em junho, quando recebeu o "palio", uma insígnia entregue pelo papa ao arcebispo, sempre no dia de São Pedro. "Levarei do papa uma grande imagem de homem da Igreja. Fica a lição do grande trabalho dele pela Igreja. Mesmo nos seus últimos dias ele continuou trabalhando e, mesmo doente, ainda concelebrou (na última sexta-feira) a Eucaristia."

Dom Matias acompanhou a notícia da morte do papa pela televisão. E também pela TV assistirá as celebrações do sepultamento do papa.

O arcebispo de Natal evitou comentar sobre o novo papa. "Isso está nas mãos de Deus. Sei que virá um papa que dará continuidade a Igreja. Quem virá será bem acolhido e tenho certeza como dará conta do recado", completou.

No momento que foi anunciada a morte do papa João Paulo II, na Igreja de Bom Jesus das Dores acontecia uma missa. Muitos fiéis foram pegos de surpresa com a informação passada pelo celebrante. A partir daquele momento, as preces ganharam um fervor maior na direção da maior autoridade da Igreja Católica.

Lula decreta luto oficial de 7 dias

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), decretou ontem luto oficial de sete dias em todo o País devido à morte do papa João Paulo II, ocorrida na tarde passada. O presidente brasileiro deverá comparecer ao velório do Pontífice, segundo disseram funcionários do Palácio do Planalto.

Em mensagem divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o presidente lembrou que o Brasil é "o maior país católico do mundo". Leia a íntegra do texto:

"A morte do papa João Paulo II entristece profundamente o povo brasileiro, que tinha pelo Santo Padre grande afeto. Suas três visitas ao Brasil serão sempre recordadas com viva emoção. A canção 'João de Deus', entoada espontaneamente pelo povo brasileiro, expressou esta relação de carinho e respeito.

Até o final da vida, João Paulo II conduziu sua missão com energia e lucidez. O sofrimento que não escondia, nos últimos anos, jamais alterou sua determinação.

Em 26 anos de peregrinação às mais diferentes regiões do planeta, o papa criou uma obra rica e multifacetada, reforçando a esperança de um mundo de justiça e liberdade. Sua liderança espiritual espelhou-se na luta incansável em prol da dignidade da pessoa humana; na busca do diálogo entre culturas e religiões; na posição corajosa em favor da paz e do direito; e no grande empenho em eliminar a marginalização social e econômica de indivíduos e nações. Maior país católico do mundo, onde convivem harmonicamente pessoas de variadas crenças, o Brasil se sente compungido pela perda de um dos homens que, como poucos, influiu, de forma marcante e positiva, no curso da História Contemporânea".

Evangélicos se solidarizam com católicos

A comunidade evangélica presta sua solidariedade aos católicos com a morte do papa João Paulo II. Os pastores Martim Alves, da Assembléia de Deus de Mossoró, e Marcos Limeira, da Primeira Igreja Batista, falaram a este jornal sobre o momento que vive a Igreja Católica.

"Ele (o papa) faz parte da história da humanidade e tem uma importância enorme para o mundo católico romano", disse o pastor Martim. Ele falou ainda que os católicos devem estar preparados para esta perda, pois, como trata-se de um ser humano comum, o Sumo Pontífice também está sujeito à morte.

O pastor Marcos Lima, da 1ª Igreja Batista de Mossoró, também falou sobre a morte como parte da vida, algo a ser enfrentado por todos, e comentou o significado deste instante. "Este é um momento muito difícil, em especial para a Igreja Católica, que, ao que tudo indica, está ficando sem seu líder maior, do ponto de vista institucional", disse o pastor Batista.

Os dois falaram que as igrejas evangélicas lembram rotineiramente do papa, mas de forma indireta, nas suas orações. "Nós, como evangélicos, oramos pelas autoridades, sejam elas civis ou eclesiásticas. Independentemente de sua ideologia ou crença, nós pedimos a benção de Deus para elas", disse o pastor Martim.

Segundo ele, os evangélicos oram tanto pelos católicos, como pelos muçulmanos, budistas e adeptos de outras religiões, "porque todos são carentes da bênção de Deus".

Os pastores deixaram suas mensagens aos católicos, pedindo a estes que entrem em clima de oração pelo destino não só da Igreja Católica, mas de si mesmos. "Que os católicos se voltem para a leitura da Bíblia Sagrada e descubram o plano de Deus para sua vida", convocou o pastor Martim.

O pastor Marcos Limeira comentou ainda a boa relação que as igrejas cristãs têm tido neste início de século e manifestou sua vontade de que isso continue com a posse do próximo papa. "Espero que haja uma convivência harmônica como tem havido nesses anos", comentou.

Espíritas se solidarizam com católicos em momento de dor

A comoção em torno do calvário do papa João Paulo II não se limitou apenas aos católicos. Os espíritas de Mossoró estão se solidarizando também com a comunidade católica que sofre com a notícia de sua morte.

Os espíritas procuram ter uma relação mais aberta com as outras religiões e compartilharam com os católicos a agonia do papa. "Como nós sempre nos relacionamos com naturalidade com as outras religiões vemos o papa como o dirigente de um outro credo muito importante. Estamos comovidos com a sua situação, mas a transição da vida material para a espiritual pela qual ele passou é normal, mesmo assim nos unimos à comunidade católica nas preces", diz.

O coordenador do Movimento Espírita de Mossoró, José Couto, afirma que o papa já cumpriu a sua missão na terra e espera que o seu sucessor dê continuidade a suas ações. "O papa foi um grande homem que cumpriu o seu papel como dirigente religioso e é muito importante que seu sucessor possa dar continuidade ao seu trabalho que colocou a Igreja em um bom patamar de elevação".

Israel e palestinos se unem em luto pelo papa

Israelenses e palestinos se uniram no luto ontem pela morte do papa João Paulo II, que peregrinou pela região com um discurso de paz, num contraste com a violência e belicismo que dominaram nos últimos anos.

O ministro israelense das Relações Exteriores, Silvan Shalom, afirmou que a morte do papa foi "uma grande perda para toda a humanidade" e mencionou a contribuição histórica do pontífice para melhorar as relações entre a Igreja Católica e o povo judeu e o estado.

"Israel, o povo judeu e o mundo inteiro perderam hoje um grande campeão da reconciliação e fraternidade", afirmou o ministro, por meio de um comunicado.

O presidente palestino Mahmoud Abbas descreveu João Paulo II como "um grande religioso que devotou sua vida a defender os valores da paz, liberdade, justiça e igualdade para todas as raças e religiões, bem como a luta de nosso povo pela independência".

O ministro palestino das Relações Exteriores, Nasser al-Kidwa, disse que o papa fez "uma visita extremamente importante para a Terra Santa, que contribuiu para uma atmosfera diferente, aumentando a esperança entre o nosso povo".

Aos 79 anos e afligido por doenças, o papa embarcou numa peregrinação de 7 dias para Israel, os territórios palestinos e a Jordânia em março de 2000. Foi uma oportunidade para encontrar líderes israelenses e palestinos e pedir a inimigos de longa data para conseguir uma "justa paz" no Oriente Médio.

Durante o papado de João Paulo, o Vaticano e Israel trocaram embaixadores pela primeira vez, marcando uma mudança histórica na atitude da Santa Sé em direção ao estado judeu.

Muçulmanos em Roma oram pelo papa João Paulo II

Muçulmanos também participam das orações para o papa João Paulo II, em Roma. Alguns o consideram um homem de paz, outros um defensor da tolerância religiosa.

O ex-embaixador italiano que converteu-se ao Islamismo e tornou-se representante da Liga Mundial Islâmica, Mario Scialoja, disse à rede de TV RAI que os muçulmanos devem lembrar-se de como o papa apelou ao mundo para que o terrorismo e o islã fossem diferenciados, na época do ataque às torres gêmeas de 11 de setembro de 2001.

"Sentimos muito pelo papa, e muitos de nós vão orar por ele como indivíduos, mas não haverá preces coletivas.

É uma escolha política. Nós não tivemos este tipo de oração nem quando (Iasser) Arafat (ex-presidente da ANP) morreu (em novembro de 2004)", disse Scialoja, em uma mesquita localizada em Roma.

Velório e funeral podem durar até nove dias

CIDADE DO VATICANO - Os funerais do papa João Paulo II, que morreu ontem no Vaticano, devem durar nove dias consecutivos, e seu corpo será sepultado entre o quarto e o sexto dia após a morte, salvo algum motivo excepcional, segundo as disposições definidas pelo próprio Santo Padre na Constituição Apostólica de 1996.

O documento estabelece com precisão todo o procedimento que deverá ser seguido à risca para as exéquias e para a escolha de seu sucessor. Assim que o camerlengo da Igreja Católica constata a morte do Pontífice e anuncia a notícia ao povo de Roma, os cardeais devem fixar o dia, hora e modalidades do transporte do corpo do papa à Basílica do Vaticano para ser exposto "à homenagem dos fiéis".

O camerlengo assume então de forma interina o cargo do papa, até a eleição de um sucessor. Ele também é encarregado de convocar o primeiro conclave, a reunião de cardeais para escolher o novo Pontífice.

Delegações dos governos do mundo inteiro assistem tradicionalmente à missa fúnebre realizada pelos cardeais e presidida pelo decano do Sacro Colégio.

O conclave deve começar dentro de um prazo de duas semanas depois da morte do papa. De acordo com a última reforma, os cardeais eleitores não morarão mais no palácio apostólico - como acontecia no passado - mas num hotel localizado dentro do Vaticano.

João Paulo II foi o responsável pela construção deste alojamento, Domus Sanctae Marthae (a Casa Santa Marta), a poucos metros da Basílica de São Pedro.

Os purpurados devem se reunir regularmente na Capela Sistina para votar, a um ritmo de duas vezes por dia. Desde as primeiras reuniões, ou "consultas" prévias ao conclave, os cardeais devem ler - se ele existir - o testamento ou os documentos deixados pelo Pontífice morto. Além disso, eles devem quebrar o anel apostólico e o selo de chumbo com os quais foram enviadas as Cartas Apostólicas durante seu pontificado.

Os cardeais também têm de tomar medidas práticas, como aprovar um orçamento de gastos corriqueiros até a eleição do sucessor. Geralmente, também é pago um prêmio aos funcionários do Vaticano e são postos à venda selos e medalhas especiais com o símbolo do conclave, um guarda-sol litúrgico.

Os cardeais também devem encarregar dois eclesiásticos "exemplares" de pronunciar ante os grandes eleitores os problemas mais aparentes da Igreja e as características que deveria ter o novo Pontífice. Às vezes, estas meditações se transformam em verdadeiros retratos do futuro papa.

De acordo com a tradição, nem sempre respeitada, o papa deve ser enterrado na Basílica do Vaticano, perto do túmulo de São Pedro, o que João Paulo II confirmou em sua Constituição Apostólica "Universi dominici gregis" de 1996.

Entretanto, os cardeais só vão tomar uma decisão depois de lerem o testamento do Sumo Pontífice, que, segundo seus compatriotas, desejava ser enterrado no jazigo de sua família, em Wadowice, perto de Cracóvia.

Nenhum registro fotográfico ou sonoro dos últimos momentos de João Paulo II ficará para a História, a não ser que o cardeal decano decida pelo contrário. "Quando o Sumo Pontífice está morrendo, ou depois de sua morte, diz a Constituição que ninguém tem o direito de tirar fotografias dele, nem gravar suas palavras para divulgá-las depois".

Porta-voz revela como foi a última hora de vida do papa

Uma intensa corrente de oração acompanhou a última hora de vida do papa João Paulo II, segundo revelou o porta-voz do Vaticano e amigo particular do Pontífice, Joaquín Navarro-Valls. Uma última missa foi celebrada no quarto do Pontífice minutos antes de sua morte, por auxiliares próximos.

"Por volta das 20h (15h em Brasília), foi realizada uma missa em seu quarto, celebrada pelos monsenhores Stanislao Mietek e Stanislaw Rylko, além do cardeal Marian Jaworski", revelou Navarro-Valls.

Na missa, o papa teria recebido novamente a "unção dos enfermos" (antes conhecida como extrema-unção), segundo informações da mídia italiana.

Saiba quais são os rituais da morte do papa

A morte do papa João Paulo II, ocorrida ontem, deu início a uma série de ritos, baseados na tradição ou normas aprovadas pelos papas ao longo dos séculos. O primeiro foi certificar a morte do Pontífice. O cardeal camerlengo, que atualmente é o espanhol Eduardo Martínez Somalo, foi o encarregado de verificar que o papa morreu e de retirar de seu dedo o "Anel do Pescador", símbolo do poder pontifício, que é o sinal de que o reinado terminou.

Certificação da morte do papa

Nos primeiros séculos, para saber se o papa estava morrendo, o médico se aproximava de seus lábios uma vela acesa. Se a chama se movimentasse significava que ele ainda tinha um hálito de vida. A operação era realizada várias vezes até que a chama permanecesse imóvel.

Atualmente, as técnicas mudaram, e o falecimento é determinado com os métodos comuns. Uma vez que o médico confirma o falecimento do papa, o prefeito da casa pontifícia anuncia oficialmente a morte: O papa morreu. Todos os presentes se ajoelham e começam os primeiros responsos.

Depois, por ordem hierárquica as pessoas se aproximam do corpo e beijam a mão do Pontífice.

Velório

Imediatamente começa o velamento pelos cônegos penitenciários. São acendidos quatro círios aos pés da cama e é posto um acéter com água benta e um outro recipiente com água benta junto ao leito mortuário para os responsos dos visitantes.

Chegada do camerlengo

O cardeal camerlengo, que se veste de violeta (cor de luto) e que é durante a sede vacante a mais alta autoridade da Igreja, entra no quarto escoltado por um destacamento da Guarda Suíça com alabardas, símbolo da nova autoridade, para assegurar-se oficialmente da morte do Pontífice.

Retirada do lenço que cobre o rosto

Na presença do mestre de cerimônia e dos prelados da casa pontifícia, o camerlengo se aproxima da cama, retira o lenço que cobre o rosto do papa e inclinando-se em direção ao corpo chama três vezes o papa por seu nome de nascimento.

O Martelo de Prata

Depois bate no seu rosto com um pequeno martelo de prata e cabo de marfim. Após verificar que o papa está morto, diz: "vere papa mortuus est" (realmente o Papa morreu).

Amassar o anel do pescador

Em seguida, o camerlengo retira do dedo o Anel do Pescador, símbolo do poder pontifício. Este é o sinal de que o "reinado" terminou. O anel será amassado junto com o selo de chumbo do papa diante dos cardeais. Isso é para evitar qualquer eventual falsificação de documentos papais.

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Imediatamente depois, o camerlengo informará ao cardeal vigário de Roma que o bispo de Roma morreu. O cardeal vigário, neste caso Camillo Ruini, o comunicará ao povo de Roma.

Lavra a ata da morte

Depois o notário da Câmara Apostólica lavra a ata da morte e os sinos de São Pedro tocam, anunciando ao mundo e a Roma a morte do papa.

Embalsamadores

Em seguida, o corpo do papa é entregue aos embalsamadores. A não ser que o papa tenha estipulado o contrário, o procedimento exige que suas vísceras sejam extraídas, que são depositadas em urnas que a serem conservadas na cripta subterrânea da igreja de São Vicente e São Anastácio, em frente à Fonte de Trevi, em Roma.

Fotografias proibidas

A norma vaticana proíbe que se fotografe o papa morto ou suas palavras sejam gravadas. O camerlengo dará permissão para que sejam feitas fotos oficiais, mas desde que ele esteja vestido com o hábito pontifício.

Mudança para a Capela Sistina

Uma vez embalsamado, o papa é revestido com sotaina branca e a mitra e é levado à Capela Sistina escoltado por prelados com círios e cardeais. É posto sob o Juízo Final, onde os fiéis lhe prestarão o último tributo.

À noite, uma vez fechado o Portão de Bronze, o cadáver do papa é entregue aos cônegos de São Pedro que o vestirão com o hábito pontifício.

Mudança para a Basílica de São Pedro

No dia seguinte, o papa é levado para a Basílica de São Pedro, onde é posto num catafalco, diante do altar da confissão. Ali permanecerá três dias antes das exéquias, que desde a morte de Paulo VI e João Paulo I é realizada na praça de São Pedro, na presença de presidentes e reis de todo o mundo.

Exéquias

O papa é levado até o local numa solene procissão liderada pelo cardeal decano e o camerlengo, enquanto os coros entoam: "Libera me, Domine, de morte aeterna (livra-me, Senhor, da morte eterna).

Triplo ataúde e enterro

O corpo do papa é posto num féretro de cipreste forrado de veludo carmesim e encaixado em outro de chumbo de quatro milímetros de espessura, por sua vez encaixado em outro de madeira de olmo envernizada.

Um prelado lê os fatos mais importantes de seu pontificado e no final introduz o pergaminho num tubo de cobre que é posto no féretro junto com um saquinho de veludo com moedas e medalhas de seu pontificado.

Depois os garçons selam a caixa de cipreste e a de chumbo e colocam a de olmo. Sobre esta última colocam um simples crucifixo e uma Bíblia aberta.

O féretro costuma pesar 500 quilos e é levado no final da cerimônia em um carro fúnebre até o Altar da Confissão, onde é descido até a cripta vaticana, onde permanecerá até que haja um caixão definitivo.

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