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Dialética
da inveja
“A inveja
é o mais dissimulado dos sentimentos humanos,
não só por ser o mais desprezível, mas porque
se compõe, em essência, de um conflito insolúvel
entre a aversão a si mesmo e o anseio de
autovalorização, de tal modo que a alma,
dividida, fala para fora com a voz do orgulho
e para dentro com a do desprezo, não logrando
jamais aquela unidade de intenção e de tom
que evidencia a sinceridade.
“Que eu
saiba, o único invejoso assumido da literatura
universal é O Sobrinho de Rameau, de Diderot,
personagem caricato demais para ser real.
Mesmo O Homem do Subterrâneo de Dostoiévski
só se exprime no papel porque acredita que
não será lido. A gente confessa ódio, humilhação,
medo, ciúme, tristeza, cobiça. Inveja, nunca.
A inveja admitida se anularia no ato, transmutando-se
em competição franca ou em desistência resignada.
A inveja é o único sentimento que se alimenta
de sua própria ocultação.
“O homem
torna-se invejoso quando desiste intimamente
dos bens que cobiçava, por acreditar, em
segredo, que não os merece. O que lhe dói
não é a falta dos bens, mas do mérito. Daí
sua compulsão de depreciar esses bens, de
destrui-los ou de substitui-los por simulacros
miseráveis, fingindo julgá-los mais valiosos
que os originais. É precisamente nas dissimulações
que a inveja se revela da maneira mais clara.
As formas
de dissimulação são muitas, mas a inveja
essencial, primordial, tem por objeto os
bens espirituais, porque são mais abstratos
e impalpáveis, mais aptos a despertar no
invejoso aquele sentimento de exclusão irremediável
que faz dele, em vida, um condenado do inferno.
Riqueza material e poder mundano nunca são
tão distantes, tão incompreensíveis, quanto
a amizade de Abel com Deus, que leva Caim
ao desespero, ou o misterioso dom do gênio
criador, que humilha as inteligências medíocres
mesmo quando bem sucedidas social e economicamente.
Por trás da inveja vulgar há sempre inveja
espiritual.
Mas a inveja
espiritual muda de motivo conforme os tempos.
A época moderna, explica Lionel Trilling
em Beyond Culture (1964), "é a primeira
em que muitos homens aspiram a altas realizações
nas artes e, na sua frustração, formam uma
classe despossuída, um proletariado do espírito."
Para novos
motivos, novas dissimulações. O "proletariado
do espírito" é, como já observava Otto
Maria Carpeaux (A Cinza do Purgatório, 1943),
a classe revolucionária por excelência.
Desde a Revolução Francesa, os movimentos
ideológicos de massa sempre recrutaram o
grosso de seus líderes da multidão dos semi-intelectuais
ressentidos. Afastados do trabalho manual
pela instrução que receberam, separados
da realização nas letras e nas artes pela
sua mediocridade endêmica, que lhes restava?
A revolta. Mas uma revolta em nome da inépcia
se autodesmoralizaria no ato. O único que
a confessou, com candura suicida, foi justamente
o "sobrinho de Rameau". Como que
advertidos por essa cruel caricatura, os
demais notaram que era preciso a camuflagem
de um pretexto nobre. Para isso serviram
os pobres e oprimidos. A facilidade com
que todo revolucionário derrama lágrimas
de piedade por eles enquanto luta contra
o establishment, passando a oprimi-los tão
logo sobe ao poder, só se explica pelo fato
de que não era o sofrimento material deles
que o comovia, mas apenas o seu próprio
sofrimento psíquico. O direito dos pobres
é a poção alucinógena com que o intelectual
ativista se inebria de ilusões quanto aos
motivos da sua conduta. E é o próprio drama
interior da inveja espiritual que dá ao
seu discurso aquela hipnótica intensidade
emocional que W. B. Yeats notava nos apóstolos
do pior (v. "The Second Coming"
e "The Leaders of the Crowd" em
Michael Robartes and The Dancer, 1921).
Nenhum sentimento autêntico se expressa
com furor comparável ao da encenação histérica.
Por ironia,
o que deu origem ao grand guignol das revoluções
modernas não foi a exclusão, mas a inclusão:
foi quando as portas das atividades culturais
superiores se abriram para as massas de
classe média e pobre que, fatalmente, o
número de frustrados das letras se multiplicou
por milhões.
A "rebelião
das massas" a que se referia José Ortega
y Gasset (La Rebelión de las Masas, 1928)
consistia precisamente nisso: não na ascensão
dos pobres à cultura superior, mas na concomitante
impossibilidade de democratizar o gênio.
A inveja resultante gerava ódio aos próprios
bens recém-conquistados, que pareciam tanto
mais inacessíveis às almas quanto mais democratizados
no mundo: daí o clamor geral contra a "cultura
de elite", justamente no momento em
que ela já não era privilégio da elite.
Ortega,
de maneira tão injusta quanto compreensível,
foi por isso acusado de elitista. Mas Eric
Hoffer, operário elevado por mérito próprio
ao nível de grande intelectual, também escreveu
páginas penetrantes sobre a psicologia dos
ativistas, "pseudo-intelectuais tagarelas
e cheios de pose... Vivendo vidas estéreis
e inúteis, não possuem autoconfiança e auto-respeito,
e anseiam pela ilusão de peso e importância."
(The Ordeal of Change, 1952).
Por isso,
leitores, não estranhem quando virem, na
liderança dos "movimentos sociais",
cidadãos de classe média e alta diplomados
pelas universidades mais caras, como é o
caso aliás do próprio sr. João Pedro Stédile,
economista da PUC-RS. Se esses movimentos
fossem autenticamente de pobres, eles se
contentariam com o atendimento de suas reivindicações
nominais: um pedaço de terra, uma casa,
ferramentas de trabalho. Mas o vazio no
coração do intelectual ativista, o buraco
negro da inveja espiritual, é tão profundo
quanto o abismo do inferno. Nem o mundo
inteiro pode preenchê-lo. Por isso a demanda
razoável dos bens mais simples da vida,
esperança inicial da massa dos liderados,
acaba sempre se ampliando, por iniciativa
dos líderes, na exigência louca de uma transformação
total da realidade, de uma mutação revolucionária
do mundo. E, no caos da revolução, as esperanças
dos pobres acabam sempre sacrificadas à
glória dos intelectuais ativistas.
Olavo
de Carvalho Folha de S.Paulo, 26
de agosto de 2003
BASTIDORES
Peço
desculpas a você, caro leitor, por ter de
publicar um artigo neste espaço. É que problemas
particulares me impediram de ficar até o
final da edição do dia passado. Amanhã retornaremos
ao normal, se Deus quiser. A deputada
Larissa Rosado (PSB) acompanha a governadora
Wilma de Faria (PSB) durante todo o dia
de hoje na instalação do Governo nas Cidades,
no município de João Câmara. Davi de
Medeiros Leite, um dos melhores nomes que
conheço, será com toda justiça efetivado
como sócio efetivo do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Norte. Vai
se juntar a outras cabeças pensantes desta
Mossoró velha de guerra. Desde ontem
começou em Fortaleza a Topmóvel, maior feira
do segmento de móveis do Brasil. Mossoró
está representada pela empresa Cadeiras
Escossesa. Para quem está na capital alencaria
fica a dica para se prestigiar quem é da
nossa terra. A expectativa em Brasília
é de que o deputado Roberto Jefferson vá
agora denunciar gente do seu próprio partido,
o PTB.
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