O guarda-chuva e o "mensalão"

Pronto; aconteceu novamente: perdi meu guarda-chuva. Era velhinho. Até era o suplente, pois o titular (que não era tão melhor assim), já tinha sido perdido nas primeiras chuvas do ano. Eu, como todas as torcidas de todos os times, sou useiro e vezeiro na prática de perder guarda-chuva. Aliás, entre as pessoas que conheço todo mundo já perdeu o seu, pelo menos uma vez. O grande mistério é: para onde vão os guarda-chuvas perdidos? Não sei de ninguém que tenha achado pelo menos um, mesmo que danificado, mas que desse para ser usado em uma emergência. Não valem os que estão irremediavelmente quebrados, escangalhados, com tecido rasgado, com mais de uma haste quebradas, sem condições de uso. Sinceramente, acho que as fábricas e os vendedores de guarda-chuva e de sombrinhas devem contratar uma legião de pessoas para surrupiar os nossos protetores de precipitação pluviométrica.  

É complicado. Às vezes penso até que o destino é contra os guarda-chuvas e todas as coisas que com eles se relacionam, menos, é claro, aqueles que os fabricam e os vendem. Lembram-se do Banco Nacional, que até patrocinava o Ayrton Sena e que o tinha como símbolo? Pois é, quebrou. Tem um canal de televisão (da TV paga) que, de vez em quando, usa nos intervalos de seus filmes uma chamada em que as pessoas usam guarda-chuvas e com eles fazem a sua logomarca. Reparem bem, nessas ocasiões só passam filmes reprisados. Tenho um amigo que se recusa a usá-los. Diz que dá azar e que, se ninguém os abrisse, não choveria. É uma teoria meio esdrúxula. De vez em quando me vejo quase acreditando nela mas, como não sou supersticioso, deixo o assunto pra lá e volto ao mundo real e vejo esse instrumento como uma boa invenção, que protege os seres humanos.

Ah, se algum inventor descobrisse um instrumento do qual nós brasileiros estamos necessitando, e muito: protetores contra maus hábitos. Contra aqueles amigos extremamente chatos, maçantes, que vivem nos incomodando com suas conversas insossas e sem sabor, a solução estaria à mão, era só abrir o guarda-chato. Quando alguém viesse tomar um livro emprestado, pronto, é só abrir um guarda-velhaco - sim, porque todo bom tomador de livro emprestado é um bom velhaco. Haveria outras situações em que esses instrumentes seriam bastante úteis. Se a sogra amasse fazer uma visita, se abriria um guarda-sogra (esse exemplo é para os outros, pois a minha é uma doce de criatura). Se o seu vizinho estivesse ouvindo música muito alta, haveria uma solução, era só abrir o guarda-barulho e tudo ficaria normal. Se alguém estivesse costurando o trânsito ou andando devagar pela esquerda, se houvesse um engarrafamento, a solução estava à mão: era só fazer uso do guarda-idiota. Seria uma bela vida.

Só há algo que eu acho que não poderia ser evitado com um instrumento desse: a desonestidade de certos políticos. Eles são tão práticos e habilidosos em suas artes que não há ciência nenhuma que os consegue vencer. O Roberto Jéfferson serve-nos de exemplo. Dá tropa de choque do Collor se transformou em um dos mais ativos pilares de sustentação do governo Lula. Mas há outros e mais perigosos. São aqueles que vivem nos subterrâneos do poder, tipo Delúbio Soares, o todo-poderoso tesoureiro do PT, que reina no mundo obscuro das arrecadações e distribuições de verbas. Como se proteger de deputados e senadores que recebem "mensalão" de trinta mil reais e gratificação anual de um milhão? Nem milagre. Talvez nem rezando para Deus e para todos os santos.

 

 

TOMISLAV R. FEMENICK

(www.tomislav.com.br)

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