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Falta de preparo de professores exclui alunos com deficiência

SAYONARA AMORIM
Da Redação

Apesar da Constituição Federal garantir, através de lei, o acesso de alunos especiais em escolas normais, as dificuldades de aceitação e casos de discriminação ainda são muito freqüentes nas instituições de ensino. Os casos de exclusão a pessoas portadoras de deficiência promovidos pela própria sociedade é uma realidade que não se pode contestar, mas, quando isso acontece dentro da sala de aula, passa a ser crime.

Um possível caso de discriminação pode ter ocorrido com o estudante Marcos Alves de Souza, 24, portador de deficiência auditiva, na Escola Municipal Raimunda Nogueira do Couto, há cerca de uma semana. De acordo com o aluno, a sua dificuldade de entender o conteúdo repassado diariamente o faz insistir nas explicações e ressalta que a insistência contribuiu para que a sua professora, que identificou pelo nome de Natália e os colegas de classe, o “taxassem” de burro.

Marcos está cursando o 2º nível do Ensino de Jovens e Adultos no turno noturno e diz estar completamente desestimulado a voltar a estudar. “Eu faço as perguntas à professora e ela se irrita porque eu não entendo a matéria e, por último, ela me mandou ir para casa e foi o que fiz e não voltei mais para a escola”, detalha.

A mãe de Marcos, Ivone de Jesus Alves Fonseca, diz que o filho chegou chorando em casa por que tinha sido chamado de burro. “Ele chegou em casa muito triste e chorou muito ao me contar tudo que havia acontecido. Ele me disse que a professora não tem paciência e que mandou ele voltar para casa”, relata.

Ivone explica que procurou a direção da escola para tentar solucionar o problema, mas não conseguiu falar com a diretora que estava ausente. Acrescenta que na ocasião foi atendida pela supervisora do turno identificada por Laureci, que a tratou com descaso. “Eu falava e era como se não estivesse dizendo nada porque ela sequer olhava para mim. Quando eu lembrei a ela que existia uma lei que garantia o acesso de alunos como o meu filho nas escolas normais e que a escola devia contar com professores preparados para atender a pessoas com deficiência, ela disse que desconhecia esta lei”, detalha.

SAIDA – A mãe de Marcos adianta que não viu outra solução a não ser denunciar a escola por discriminação para conseguir que a lei fosse respeitada e o filho pudesse voltar a estudar. Segundo Ivone, Marcos sempre gostou de estudar e sempre enfrentou problemas de exclusão nas escolas. “Esta não é a primeira escola de rejeita Marcos como aluno por ele ser deficiente, já enfrentamos outras recusas”, diz.

Marcos, apesar de deficiente auditivo trabalha como operário durante o dia e estuda à noite. Antes, estudava na Escola Estadual Vingt Rosado, situada no conjunto de mesmo nome. De acordo com Ivone, na escola anterior, Marcos não enfrentava problemas, ressaltando que a professora anterior tinha preparação para atuar com alunos especiais e o desenvolvimento dele estava indo bem. “Nesta escola em que está agora, não quer mais nem freqüentar as aulas”, declara.

Direção da escola explica denúncia de discriminação

Em contato com a reportagem de O Mossoroense, a diretora da Escola Municipal Raimunda Nogueira do Couto, Maria Augusta Maia Marques, explicou que o caso que envolve o aluno Marcos Alves, portador de deficiência auditiva, que está acusando a professora Natália de discriminação, não passa de um mal-entendido.

De acordo com Maria Augusta, o aluno jamais foi destratado pela professora ou por qualquer membro da escola. Ressalta que o que houve foi uma discussão entre Marcos e outro aluno da turma. Acrescenta, ainda, que foi apurar o caso e todos os alunos da turma negaram qualquer tipo de discriminação devido à deficiência de Marcos.

Quanto à escola estar preparada para receber alunos especiais, Augusta explica que está previsto um programa de treinamento para os profissionais que atuam na educação para atuarem com alunos portadores de deficiência. Diz também que no início da semana a direção da escola manterá contato com os pais de Marcos com o objetivo de fazê-lo voltar a assistir as aulas. “O papel da escola é exatamente evitar a evasão e é o que estamos fazendo”, declara.

Professores devem se adequar para receber alunos especiais

A Lei 7.853, de 1989 prevê como conduta criminosa a recusa de alunos especiais pelas escolas normais. E a Constituição Federal garante o direito à educação, sem discriminações, e ainda o apoio educacional especializado para portadores de deficiência. A Lei 7.853, que saiu um ano depois da Constituição, estabelece vários direitos de acesso e prevê que é crime a recusa, por parte da escola, de matricular um portador de deficiência ou cancelar a presença de uma criança já matriculada.

Nos casos de deficiência auditiva (surdez), as recusas também são enormes e há uma incidência alta de analfabetismo entre a população surda. O que ocorre na maioria dos casos é que quando o surdo vai para a escola, não recebe tratamento adequado porque geralmente não há intérprete de língua de sinais e a instituição não trabalha com estímulo visual e não dispõe de uma assessoria de fonoaudiologia.

Faz pouco tempo que a idéia de inclusão conseguiu chegar às escolas efetivamente e chegou de uma forma muito deturpada, porque se pensou que a inclusão fosse um problema apenas do deficiente na escola. Na verdade, a inclusão é um problema de deficiência da escola, de forma que ela recusa alunos que têm condições de aproveitar o ensino. A questão da preparação não é o mais grave.

As escolas usam como argumento a não-preparação para receber alunos com deficiência. Mas é  importante lembrar que só se prepara alguém para fazer alguma coisa vivendo uma situação. Não é possível se preparar para receber um cego. É preciso primeiro recebê-lo, conhecê-lo, trabalhar com ele, para identificar suas necessidades.

Não é possível o professor se preparar para trabalhar no ensino médio com jovens, porque esse jovem não existe, ele é ideal e existe uma realidade, que é a pessoa. Temos que nos preparar para trabalhar com pessoas, com suas características, peculiaridades e diferenças, exigindo do sistema, das políticas públicas, que cubram as necessidades do professor, do aluno e do local de estudos.

SISTEMA – O que ocorre é a locação de um professor de educação especial para fazer este serviço na escola, quando a escola deveria se preparar e preparar seus professores para enfrentar diferentes realidades. Mas a realidade das escolas, hoje, é idealizar o aluno, o comportamento do aluno, o professor para trabalhar com o aluno, a classe social do aluno. Trabalha-se em cima de um sujeito que não existe, de um grupo homogêneo. A realidade tem que ser encarada, e não mascarada por todo esse idealismo que os professores têm na cabeça.

Todo professor, como qualquer profissional, topa com a diferença e, diante dela, tem que buscar seus recursos. Se a escola adota uma cadeira especial para deficiente físico, isso é encarado como discriminação. A partir da compreensão de que a pessoa tem liberdade de escolher aonde quer estudar, onde quer sentar, se quer ser tratada como especial ou não, isso faz a maior diferença, porque quem tem que se definir diante das opções que a LDB oferece é o aluno ou, no máximo, os seus responsáveis, e não a escola.

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Mossoró-RN, domingo, 6 de abril de 2003