Mossoró-RN, domingo 4 de junho de 2006

A questão de Grossos

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Achamada "Questão de Grossos" foi uma disputa territorial entre os estados do Rio Grande do Norte e Ceará pela incorporação da região compreendida hoje pelos municípios de Grossos e Tibau. Foi um dos casos mais rumorosos que abalou o Norte do Brasil no começo do século passado.

No século XVIII, a economia do Rio Grande do Norte tinha por base apenas a agricultura e a indústria pastoril. O Oeste potiguar, principalmente Mossoró, era grande fornecedor de gado para a Província de Pernambuco, tanto gado de corte como de tração para os engenhos. A boiada era tangida com grande dificuldade, chegando sempre ao seu destino menor e mais magra, o que causava prejuízos para os fazendeiros. Para evitar essas perdas, resolveram que ao invés de fornecer gado vivo, passariam a charquear a carne, como já era feito no Ceará, pois dessa forma a carne podia sem enviada para grandes distâncias sem prejuízo da qualidade. Assim foram instaladas oficinas de charqueamento em Mossoró e Açu. A medida causou, no entanto, descontentamento tanto da parte do Ceará quanto de Pernambuco. Os cearenses não gostaram da concorrência das charqueadas mossoroenses e os pernambucanos reclamavam da falta de boi para tração dos engenhos.  Medidas foram tomadas para acabar com as charqueadas do Rio Grande do Norte, inclusive fechando os portos de Açu e de Mossoró. As carnes secas só poderiam ser fabricadas no Ceará, conforme determinações reais.

Mas para charquear a carne, o Ceará precisava do sal que era produzido no Rio Grande do Norte. A Câmara de Aracati sugeriu então  estender seus limites, penetrando em território potiguar. O pedido foi indeferido, com a ressalva de que as vilas limítrofes deveriam concordar com tal medida, caso contrário a reivindicação seria levada para a decisão real. Caso as vilas limítrofes nada obstassem, seria realizada a demarcação. Aquirás (Ceará) e Açu (RN) protestaram. Contrariando o que ficou determinado, o ouvidor substituto, Manoel Leocárdio Rademarker, mandou dar posse dos terrenos em litígio à vila de Aracati, ignorando os protestos. Estava criado o problema.

O território limítrofe continuou sem ser demarcado. O Ceará, porém, não desistiu. Em 1894, volta ao assunto, impetrando uma ação no Supremo Tribunal, alegando "conflito de jurisdição", que se transformou posteriormente em "ação de limites".

A 13 de julho de 1901, a Assembléia Estadual do Ceará elevou Grossos à condição de Vila, em uma área pertencente ao Rio Grande do Norte: Tibau. Grossos etc. Em seguira, o presidente do Ceará, Pedro Augusto Borges, sancionou aquela resolução. Começava então uma longa batalha com o Rio Grande do Norte lutando pela posse do lugar.  O desenrolar da questão levava a um conflito armado entre as duas Províncias. Para evitar o agravamento da crise, a questão foi levada para uma decisão, através do arbitramento, sendo o resultado favorável, na primeira fase, ao Ceará.

O presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho, recorreu da decisão e convidou Rui Barbosa, grande jurista e, na época, senador da República, para defender o RN. Com a brilhante defesa de Rui Barbosa, o Rio Grande do Norte venceu a questão em 17 de julho de 1920, assumindo definitivamente os direitos sobre o território de Grossos. Esse território foi anexado ao município de Areia Branca. No dia 11 de dezembro de 1953, através da Lei nº 1.025, Grossos, juntamente com o distrito de Tibau, foi emancipado, desmembrou-se de Areia Branca.

Com a resolução do problema, eram definidos os limites entre o Rio Grande do Norte e Ceará.

 

Bolsilivro

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Moça, você tem bolsilivro?

- Bolsi o quê?

- Bolsilivro. Um livrinho pequeno que cabe no bolso. De faroeste.

- ?

A conversa não progredia... Acabou que a atendente da banca de revistas me encaminhou para uma sessão onde só encontrei títulos românticos. Bárbara, Bianca, Júlia, Sabrina; as capas das novelas desfilavam diante dos meus olhos com estórias melosas de amor. Digo isso com conhecimento de causa. Quando garoto, fiz uma pequena incursão pelos romances de Bárbara Cartland das minhas irmãs. O gosto pela leitura justificava este deslize - na falta do que ler pegava o que havia ao alcance da mão.

Mas o que eu queria era um bolsilivro, de faroeste; do tipo que povoavam minha infância de heróis do gatilho. Não tinha. O máximo que encontrei foram as revistas em quadrinhos do gênero: Tex e Zagor. Estes personagens sobrevivem ao tempo; continuam com a pontaria certeira e, com certeza, milhões de leitores pelo mundo. Mas eles já foram mais populares; no meu tempo de menino, todo menino lia.

Na turma era um dos poucos a preferir os bolsilivros, e tinha meus motivos. Não suportava a infalibilidade dos heróis das revistas. Começava a história e já sabia que eles iam sobreviver no final - os tiros sempre pegavam de raspão. Nos bolsilivros os mocinhos também levavam a melhor, mas não era sempre. Vez por outra aparecia algum autor para infringir a regra. Além disso, os mocinhos tinham as mocinhas para quem voltar depois dos duelos; de cabelos ruivos, olhos claros, cintura fina e saia rodada - era só imaginar e conferir na próxima sessão dominical do único cinema da cidade.

Havia também a questão do custo-benefício. As revistas representavam um investimento e tanto para quem tinha como únicas fontes de renda as gorjetas pelo trabalho de tirar goteiras nos telhados de cumeeira alta dos vizinhos e as aulas particulares para crianças da rua. Custavam mais caro que os bolsilivros e eram consumidas em poucos minutos. E ainda tinha que raramente a história começava e terminava em um único número.

Tornei-me tão viciado na leitura de bolsilivros que bastava juntar um pouco de dinheiro e corria para a banca. Comprava quatro de uma vez, consumia tudo num único dia e corria de novo, dessa vez para a banca de usados. De troca em troca, sempre perdendo para o esperto comerciante, terminava a semana com apenas um bolsilivro, sem capa... Preferia assim a colecioná-los.

Páginas em papel jornal, capas coloridas com mocinhos em poses corajosas - as mais comuns mostravam um duelo, no momento certo em que o bandido era atingido por uma bala certeira. Podia ser no peito, entre os olhos ou na mão que empunhava a arma. Existia disso: os fatais, os cruéis e os que apenas desarmavam para prender.

A leitura aguçava a imaginação e a vida ganhava passagens de faroeste:

Pingo do meio-dia. A quadra, onde os meninos precisavam driblar a tirania de um jardineiro para correr atrás da bola, estava deserta. Atrás do gol o garoto franzino acha um par de sandálias japonesas. Caminhando na direção dele um rapaz pede para ver as sandálias. O garoto dá uma, ele quer a outra.

- Eu que achei, se é para alguém ficar com as sandálias, sou eu!

E ele mesmo fica surpreso com o tom de coragem na voz.  

- Me dê a sandália, moleque!

A ameaça na voz quase adulta. Mais ainda pela espingarda de chumbo na mão - costumava atirar em passarinhos e lagartixas na margem do rio seco que cortava a cidade.

O impasse dura alguns segundos, mas parece eterno, como os duelos dos bangue-bangues. O garoto toma coragem, joga o chinelo no emaranhado de galhos de um espinheiro alto, de onde não sairia tão fácil, e mete o pé na bunda. Naquele velho oeste, que não era tão velho nem tão oeste assim, a expressão explica uma corrida impetuosa, para longe daquele que agora era homem e perigoso. E, como os mocinhos do velho oeste, o garoto corre em ziguezague. Era o último recurso de alguém desarmado diante do famigerado bandido, tentando um ataque de forma traiçoeira. Ele atira... O mocinho sente, ou imagina sentir, o vento da bala passando entre suas pernas finas e ligeiras. Não se volta para ver se o bandido tenta recarregar a arma e só pára quando da segurança de um canteiro baixo. À espreita percebe o inimigo desistir do confronto e de como tenta, sem sucesso, vencer o velho espinheiro.

Kid Marcos escapou de mais uma emboscada. Só sentiu não ter uma arma para duelar com o facínora e, ao dar cabo dele, soprar a fumaça do cano, montar no cavalo, dar uma passadinha no saloon - a bodega da esquina -, tomar uma Coca-Cola, sair arrotando o gás pelo nariz - no tempo em que Coca-Cola tinha gás -, sorrir para a mocinha de cabelo ruivo, olhos claros e cintura fina e tomar o caminho de casa.

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