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Trancoso.net
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
"Aconteceu com
um amigo de um amigo meu". Quem nunca ou-viu
esta frase? Normalmente ela ilustra uma história pouco
verdadeira que queremos contar. Se bem que pouca verdade
é uma mentira inteira; então, refazendo: uma história
com ingredientes absurdos e que se apóia tão somente
no relato do amigo do amigo meu, que você não conhece
e que eu não vou ter como encontrar para confirmar o
que lhe conto. Tudo em muito parecido com o que se convencionou
chamar de História de Trancoso; his-toricamente, um
escritor por-tuguês que, na Idade Média, passou para
o papel as nar-rativas orais que corriam Espanha e Portugal
e que iam sempre muito além da rea-lidade dos fatos.
Não escuto uma história
de Trancoso faz tempo, mas ainda conto - se bem que,
apenas as mais leves - para os meus filhos. Desse jeito
as narrativas já não fazem o mesmo efeito que faziam
na minha infância. Os mais antigos vão lembrar do tempo
em que o medo fazia parte da educação.
Sem nenhum remorso
os mais velhos diziam para não fazer isso ou aquilo
senão o bicho pegava. E contavam histórias mirabolantes
que a imaginação dos pequenos não conhecia até aquele
momento, mas que iam marcá-los daquela data em diante:
o medo de assombrações, papa-figo, lobisomem...
A história mais emblemática
para mim era a da rasga-mortalha.
Em Caicó, morávamos
a poucos metros da Igreja Matriz de Santana, em cujas
torres as aves de hábitos noturnos faziam seus ninhos.
Rezava a crendice popular que se uma rasga-mortalha
cantasse sobre uma casa, no dia seguinte alguém da família
morreria. Quando escutávamos os primeiros granados dos
bichos grudávamos os olhos no céu. Vê-los, brancos e
agourentos, causava arrepios. Não raro íamos para casa
mais cedo, incluir nas orações que precediam o "bença
pai, bença mãe", um pedido a Deus para fazer a
rasga-mortalha voar longe do nosso telhado. Pior que
quando alguém morria nas proximidades havia sempre um
adulto para dizer. - Por isso que eu ouvi uma rasga-mortalha
cantando ontem à noite na direção da casa do defunto!
Claro que o medo aumentava.
Quando alguns rapazes
mataram uma rasga-mortalha na praça do bairro o medo
virou pavor. Naquela noite não houve menino que não
levasse uma "carreira". Se um de nós tivesse
tido a coragem de chegar perto do pássaro morto ia descobrir
que ele era apenas um tipo de coruja maior que as outras.
Mas também que não aparecia um único adulto para dizer
que os bichos voavam sobre os telhados em busca de ratos,
sua presa preferida.
Sem a inocência, e
muito menos a graça de antigamente, vemos o surgimento
de uma nova safra de seguidores de Trancoso, via Internet.
Quem não tem, todos os dias, a caixa de e-mails invadida
por mensagens absurdas? Deleta e lá vêm elas de novo.
Uma das mais insistentes
fala de uma lei que beneficiaria todas as pessoas que
tiveram seus documentos roubados. "As autoridades
não querem reconhecer nossos direitos. Vamos divulgar,
gente! Um amigo meu conseguiu tirar a segunda via de
todos os documentos de graça porque havia sido roubado.
Ele só precisou prestar queixa do crime."
Como tudo nesse meio
a história não se sustenta. Quando alguém fosse renovar,
por exemplo, a carteira de motorista, bastava prestar
queixa de roubo à polícia para economizar quase cem
reais. Quem ia provar que ele estava mentindo? Mesmo
assim, a julgar pela lista de endereços, muita gente
acredita e repassa a história adiante.
E as mensagens que
apelam para o sentimentalismo dos internautas? Fico
irritado com quem repassa e rogo uma praga para os autores.
Como se a desgraça sozinha não fosse o bastante eles
expõem o sofrimento de seres humanos em fotos impactantes.
Cada mensagem enviada vai render centavos que vão ajudar
no tratamento dos doentes. Pergunto-me, o que é que
se ganha com isso?
Nem as mensagens mais
inocentes me agradam. Acabei de romper uma novena para
Madre Tereza que começou no dia 10 de janeiro de 2005.
Não me custou nada rezar a Ave Maria, mas não me ocorreu
o nome de doze pessoas para quem enviar a novena sem
me sentir um idiota.
Para quem está na minha
lista de endereços; se acredita na minha amizade é melhor
não pedir de volta a mensagem que exige uma resposta
como prova desta amizade.
Na íntegra a última
da Trancoso.net:
A empresa Ericsson
está distribuindo gratuitamente "lap tops"
com o objetivo de se equilibrar com a Nokia, que está
fazendo o mesmo.
A Ericsson deseja assim
aumentar sua popularidade. Por esse motivo, está distribuindo
gratuitamente o novo Lap Top WAP. Tudo o que é preciso
fazer é enviar uma cópia deste e-mail para 8 (oito)
conhecidos. Dentro de 2 (duas) semanas você receberá
um Ericsson T18. Se a mensagem for enviada para 20 (vinte)
ou mais pessoas, você poderá receber um Ericsson R320.
Importante! É preciso enviar uma cópia do e-mail para
Anna.swelung@ericsson.com.
Não é trote. Funciona.
Boa Sorte!!!
Não mandei a mensagem
para Anna.swelung e continuo martelando o teclado do
meu computador popular - a verba curta não me permite
uma atualização. Mas ainda não vi nenhuma das pessoas
da lista que segue o e-mail, de computador portátil
novo; deve ser uma questão de tempo. Mas, por mais que
o tempo passe, a geração tecnológica deveria prestar
atenção na mensagem incutida numa frase tão antiga quanto
comum no sertão nordestino: "quando a esmola é
grande, o cego desconfia".
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