Mossoró-RN, domingo 6 de agosto de 2006

Apontamentos para a história do comércio de Mossoró

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Com a chegada dos navios da Cia. Pernambucana de Navegação Costeira em 1857, fazendo de Mossoró ponto de escala regular das suas embarcações, a cidade se abre para novos comerciantes, tornan-do-se, já no período de 1857 a 1877, uma próspera praça de negócio, assumindo a condição de "empório comercial".  A situação privilegiada da cidade, eqüidistante de duas capitais, Natal e Fortaleza, ao mesmo tempo que dividia o litoral do sertão, contribuía para essa condição. No período citado, Mossoró aparecia como o "lugar privilegiado", sentado na área de transição entre a economia do litoral representada principalmente pelo sal e o peixe e a economia do sertão representada pela pecuária, o algodão e principalmente as peles de animais. Mossoró tornava-se assim o lugar de troca, recebendo mercadorias de outras praças do país e do exterior e embarcando pelo seu porto, o porto de Areia Branca que na época pertencia a Mossoró, a produção regional que se destinava aos mercados nacionais e internacionais. Esse crescimento comercial serviu de chamariz para os grandes comerciantes, que viam em Mossoró o lugar ideal para desenvolverem  os seus negócios. E os estrangeiros chegaram!

Vindos principalmente da Europa, quase sempre procuravam Recife, uma cidade de alto comércio, onde dominava um espírito de cosmopolitismo generalizado. Lá chegando, faziam contatos com negociantes e firmas de toda espécie.  E nesses intercâmbios de negócios, descobriam o nome de Mossoró, uma praça para muitos deles ignoradas, mas um forte centro de atividades mercantis.  

Assim se deu com  Johan Ulrich Graff, um empresário suíço, rico e cheio de idéias progressistas que aportou em Mossoró para instalar uma poderosa firma comercial de importação e exportação de produtos regionais. Era a Casa Graff, fundada em 1868, com instalações próprias em prédios construídos em um grande terreno que fora comprados a Souza Nogueira pela elevada quantia de 500$000 (quinhentos mil réis).  Para se avaliar o que significava esse valor para a época, basta dizer que o orçamento votado pela Câmara Municipal para o ano de 1867 não passava de 251$000 (duzentos e cinqüenta e um mil réis).

No dia 5 de dezembro de 1872 chegou a Mossoró o alemão William Dreffren, "vindo no vapor costeiro de Pernambuco, com destino a estabelecer nesta cidade  uma casa de compra dos diferentes gêneros do país", como nos informa o  jornal "O Mossoroense" datado de 8 de dezembro de 1872. Dreffren era "um tipo expansivo, curioso, vermelhaço, suarento como um barril de cerveja de Hamburgo", no dizer de Raimundo Nonato. Era a "William Dreffren", uma casa de compra de algodão, couro e finalmente de todo e qualquer gênero e produto do país.

Outro grande comerciante estrangeiro que se estabeleceu em Mossoró nessa época foi o francês H. Léger.  O Armazém do Francês, como era chamado, anunciava em "O Mossoroense": "H. Léger, negociante, importador da praça de Pernambuco, avisa ao respeitável público, com especialidade aos srs. Sertanejos, que acaba de abrir nesta cidade um estabelecimento de secos e molhados sob a firma de Léger & Cia., onde muito bem se pode servir as pessoas que quiserem prevenir de fazenda e molhados, garantindo-lhes não só um preço inteiramente razoável como também sinceridade".

Nos requerimentos dirigidos à Câmara Municipal com pedidos para manter portas abertas das casas comerciais, encontramos muitos outros estrangeiros, como se segue: Henry Admas & Cia. (francesa), Teles Finizola (italiana), Frederico Antônio de Carvalho (português),  Conrado Mayer (suíço), antigo empregado das Casas Graff, que ganhando muito dinheiro nesse giro de negócio veio a se estabelecer por conta própria em Mossoró e muitos outros.

Segundo levantamento feito pelo professor  Vingt-un Rosado e publicado em seu livro "Andanças pela história de Mossoró", em 1871 existia em Mossoró 18  comerciantes estrangeiros. E esses estrangeiros, vindos dos mais diversos países do mundo, projetaram o nome de Mossoró para além fronteiras, através dos produtos que eram importados e exportados por esses comerciantes.

 

Trancoso.net

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

"Aconteceu com um  amigo de um amigo meu". Quem nunca ou-viu esta frase? Normalmente ela ilustra uma história pouco verdadeira que queremos contar. Se bem que pouca verdade é uma mentira inteira; então, refazendo: uma história com ingredientes absurdos e que se apóia tão somente no relato do amigo do amigo meu, que você não conhece e que eu não vou ter como encontrar para confirmar o que lhe conto. Tudo em muito parecido com o que se convencionou chamar de História de Trancoso; his-toricamente, um escritor por-tuguês que, na Idade Média, passou para o papel as nar-rativas orais que corriam Espanha e Portugal e que iam sempre muito além da rea-lidade dos fatos.

Não escuto uma história de Trancoso faz tempo, mas ainda conto - se bem que, apenas as mais leves - para os meus filhos. Desse jeito as narrativas já não fazem o mesmo efeito que faziam na minha infância. Os mais antigos vão lembrar do tempo em que o medo fazia parte da educação.

Sem nenhum remorso os mais velhos diziam para não fazer isso ou aquilo senão o bicho pegava. E contavam histórias mirabolantes que a imaginação dos pequenos não conhecia até aquele momento, mas que iam marcá-los daquela data em diante: o medo de assombrações, papa-figo, lobisomem...

A história mais emblemática para mim era a da rasga-mortalha.

Em Caicó, morávamos a poucos metros da Igreja Matriz de Santana, em cujas torres as aves de hábitos noturnos faziam seus ninhos. Rezava a crendice popular que se uma rasga-mortalha cantasse sobre uma casa, no dia seguinte alguém da família morreria. Quando escutávamos os primeiros granados dos bichos grudávamos os olhos no céu. Vê-los, brancos e agourentos, causava arrepios. Não raro íamos para casa mais cedo, incluir nas orações que precediam o "bença pai, bença mãe", um pedido a Deus para fazer a rasga-mortalha voar longe do nosso telhado. Pior que quando alguém morria nas proximidades havia sempre um adulto para dizer. - Por isso que eu ouvi uma rasga-mortalha cantando ontem à noite na direção da casa do defunto! Claro que o medo aumentava.

Quando alguns rapazes mataram uma rasga-mortalha na praça do bairro o medo virou pavor. Naquela noite não houve menino que não levasse uma "carreira". Se um de nós tivesse tido a coragem de chegar perto do pássaro morto ia descobrir que ele era apenas um tipo de coruja maior que as outras. Mas também que não aparecia um único adulto para dizer que os bichos voavam sobre os telhados em busca de ratos, sua presa preferida.

Sem a inocência, e muito menos a graça de antigamente, vemos o surgimento de uma nova safra de seguidores de Trancoso, via Internet. Quem não tem, todos os dias, a caixa de e-mails invadida por mensagens absurdas? Deleta e lá vêm elas de novo.

Uma das mais insistentes fala de uma lei que beneficiaria todas as pessoas que tiveram seus documentos roubados. "As autoridades não querem reconhecer nossos direitos. Vamos divulgar, gente! Um amigo meu conseguiu tirar a segunda via de todos os documentos de graça porque havia sido roubado. Ele só precisou prestar queixa do crime."

Como tudo nesse meio a história não se sustenta. Quando alguém fosse renovar, por exemplo, a carteira de motorista, bastava prestar queixa de roubo à polícia para economizar quase cem reais. Quem ia provar que ele estava mentindo? Mesmo assim, a julgar pela lista de endereços, muita gente acredita e repassa a história adiante.

E as mensagens que apelam para o sentimentalismo dos internautas? Fico irritado com quem repassa e rogo uma praga para os autores. Como se a desgraça sozinha não fosse o bastante eles expõem o sofrimento de seres humanos em fotos impactantes. Cada mensagem enviada vai render centavos que vão ajudar no tratamento dos doentes. Pergunto-me, o que é que se ganha com isso?

Nem as mensagens mais inocentes me agradam. Acabei de romper uma novena para Madre Tereza que começou no dia 10 de janeiro de 2005. Não me custou nada rezar a Ave Maria, mas não me ocorreu o nome de doze pessoas para quem enviar a novena sem me sentir um idiota.

Para quem está na minha lista de endereços; se acredita na minha amizade é melhor não pedir de volta a mensagem que exige uma resposta como prova desta amizade.

Na íntegra a última da Trancoso.net:  

A empresa Ericsson está distribuindo gratuitamente "lap tops" com o objetivo de se equilibrar com a Nokia, que está fazendo o mesmo.

A Ericsson deseja assim aumentar sua popularidade. Por esse motivo, está distribuindo gratuitamente o novo Lap Top WAP. Tudo o que é preciso fazer é enviar uma cópia deste e-mail para 8 (oito) conhecidos. Dentro de 2 (duas) semanas você receberá um Ericsson T18. Se a mensagem for enviada para 20 (vinte) ou mais pessoas, você poderá receber um Ericsson R320. Importante! É preciso enviar uma cópia do e-mail para Anna.swelung@ericsson.com.

Não é trote. Funciona.

Boa Sorte!!!

Não mandei a mensagem para Anna.swelung e continuo martelando o teclado do meu computador popular - a verba curta não me permite uma atualização. Mas ainda não vi nenhuma das pessoas da lista que segue o e-mail, de computador portátil novo; deve ser uma questão de tempo. Mas, por mais que o tempo passe, a geração tecnológica deveria prestar atenção na mensagem incutida numa frase tão antiga quanto comum no sertão nordestino: "quando a esmola é grande, o cego desconfia".

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