Mossoró-RN, domingo 6 de agosto de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Escrever, escrever...

Outra vez eu precisava sair, varar aquelas ruas, tentar o encontro com um amigo. Ruy funciona assim, como um "eu" misterioso. Ou como meu alter-ego. Gosto sempre de ouvi-lo. Mesmo quando não posso concordar com ele. Gosto, antes de tudo, de ver a aprovação em seus olhos. Quando ele me contraria, isso não me impede a ação. Mas quando concorda comigo, contribui para ela. Desafoga-me. Dá-me confiança. Sei da sua fidelidade. Sei o valor de sua amizade. Tempos atrás, andou preocupado comigo. Com o que chamava de "minha situação". Disse-me que lhe parecia cada vez mais impossível deter um processo que já vem de alguns anos, e que começava a me marcar de forma nítida. A sua habitual presença na minha casa, a minha habitual presença na sua casa, não objetiva apenas aquela troca de impressões sobre generalidades. Mesmo porque ele fala cada vez menos. Quando muito, solta a deixa e passa a ouvir... A sua intenção mais que visível era me assistir, garantir um público para mim, permitir que eu discorresse sobre os assuntos de minhas preocupações, podendo sentir que ainda estava vivo e ainda contava. Insistia para que eu escrevesse. "Passe para o papel tudo quanto sente, o que pensa, os caminhos que sua inteligência vai abrindo..."

Uma noite, interrompemos o bate-papo e saímos a passeio. Juntos repartimos as mesmas emoções que a noite oferece aos que sabem reconhecê-la e querer-lhe bem. Na porta de uma loja, uma mulher dormia, andrajosa. Apanhadora de papel, um daqueles sobejos de cidade grande. Não conseguimos ver-lhe o rosto, protegido pelos braços magros e sujos. Não nos detivemos, mas falamos do que aquilo significava como fracasso para a sociedade, fracasso e comprometimento para todos nós. Que adiantava cantar as excelências do capitalismo, louvar a livre empresa e a ordem estabelecida, se há pessoas que passam fome e que não têm teto? Não contam nos censos do governo, nas suas programações e preocupações. Estão alijadas. Disse-lhe, sem assomo:

- Teremos direito à violência, enquanto houver uma violência contra nós. Enquanto houver fome, analfabetismo, doenças não tratadas, injustiça. Agir diferentemente será auxiliar o mal e permitir que as consciências fiquem em paz.

Instou novamente para que eu escrevesse. E às pressas, sem me olhar, passou à análise do meu processo. Disse-me, nas fuças, que lhe pareço a Bebel do Loyola.

- A que a cidade comeu. Com a diferença de que não subiu levado por qualquer engodo publicitário, por qualquer perspectiva comercial. Os seus degraus foram construídos com esforço, armados com sacrifícios, noites indormidas, renúncias suas e de sua família. Em tempo curto, você criou oportunidade e mostrou competência. Bem sucedido, profissionalmente vitorioso, com o nome conhecido, poderia ter garantido tranqüilidade para muito tempo. Mas permaneceu guerrilheiro, rebelde. E aí talvez tenha perdido a perspectiva do terreno. Imaginando que poderia continuar a sua caminhada, indiferente aos valores que colocava em dúvida, aos tabus que ridicularizava, aos ídolos atingidos pelo seu escárnio. O êxito, o conhecimento com pessoas bem colocadas, os aplausos, pareciam a você a garantia de sua posição.

- Caí sem pisar em falso.

Tolice, bem entendo. Nem foi preciso pisar em falso. Que não dou rabo a nambu, como diria Romildo Gurgel. A queda mesmo assim ocorreu. Sem que eu contribuísse, pessoalmente, para ela. Toda aquela gente mordida, todos aqueles barões assinalados pela minha pena, todos aqueles monstros exibidos na sua insignificância, esperaram a oportunidade e ... zás. Catapimba.

Ruy fazia questão, naquela noite, de meter os dedos nas chagas. Recordava tudo, dolorosamente. Achava que não entendi a profundidade do golpe. A sua motivação, sim. Mas não que eu fôra colocado noutro contexto.

- Tiraram-lhe o instrumental, e Bebel viu a força do silêncio. De nada o acusavam. Não havia restrições ao seu comportamento. Eram unânimes a respeito de suas qualidades. Mas não lhe davam oportunidades. Arrancavam as suas cordas vocais e deixaram-no mutilado, inútil.

Frisava, insistente, que as regras do jogo foram respeitadas. E que a amargura ia me destruindo, deixando as marcas da crescente devastação. E que eu não entendia ser preciso superar o problema, viver a atualidade na sua extensão e na sua estupidez. Ao contrário.

- Você se refugia no passado e não quer caminhar mais. Tiraram-lhe o brinquedo e você não o substitui, fica agastado. Vença a sua timidez, o seu medo de julgamento. Supere o perfeccionismo, o tolo pudor.

Ruy está, em muita coisa, enganado. Nunca ignorei que aquelas eram as chaves do jogo, as suas regras. Nem nunca houve, de minha parte, uma inadaptação à realidade. O que não quis, até por pudor, foi dobrar a cerviz. E revelar o desvalimento a que fui condenado. Daí a minha arrogância, a separação de amigos, o abandono de lugares onde poderei encontrá-los. Sempre o medo de ser mal interpretado e surgir diante deles como alguém que pede alguma coisa, em nome de alguma coisa. Quanto à "obra" que ele imagina eu possa fazer, quantas vezes tenho tentado... Inutilmente. Falta-me bossa. Faltam-me qualidades.

- Escreva memórias. Não deixa a luz sob a cama.

- Seria o cúmulo recorrer às memórias. De quem e de quê? E em que as minhas lembranças poderão significar alguma coisa? Não será pretensioso sair à praça com memórias?

Sim, seria pretensioso - e ambicioso, também - sair com memórias, quando, muito cedo, a experiência foi interrompida. Mas a coisa terá validade como argumento. Porque não se trataria de fazer a crônica de uma época. Nem o que se pede é que faça o relato de algum troço. Interessa a experiência humana. Poderei? Aí se situa, exatamente, o nó górdio. Temo o equívoco. Porque muitas vezes, sem o perceber, coloco o carro adiante dos bois. O julgamento antes da obra.

Ruy do Espírito Santo, advogado na casa dos 30. Marxista. Linha russa. Embora seja um partisan e tenha provado sua afoiteza em tantas ocasiões, é um homem de paz. Nada consegue alterá-lo. Coisa alguma poderá tirá-lo do sério. Aborrece-me, muitas vezes, a sua simplicidade. A sua docilidade em face das  verdades marxistas. Parece-me que está sempre pronto a aceitar tudo, a engolir o que lhe chega mastigado. Mas, melhor examinando o amigo, compreendo que a longo prazo ele não se rende. Ou não se rende completamente. Aquela docilidade é uma necessidade quase orgânica de acreditar. A mesma coisa que acontece comigo em face da Igreja Católica. Só que ao contrário do que acontece comigo, não o preocupa as polêmicas. Crê e vive de sua fé. Une-se a ela sem angústia. Repousa nela. Diferente de mim, para quem o cristianismo deve ser uma formulação que se aceita ou se recusa em bloco. Nunca venci a tendência em dividir as coisas entre o Bem e o Mal. Nem a carecer de ortodoxia. Aceito que esta possa aprofundar-se, ir a níveis superiores de inteligibilidade. Mas quero o preto no branco. Para não embicar no relativismo.

Ruy é diferente, muito diferente, do Ignácio. Ignácio de Loyola Brandão. Este avança, sem preocupações, indiferente a tudo. Aos outros, inclusive. Embora tenha seus rasgos de generosidade. Eu estava longe quando chegou aquela sua carta e ela me lembrou o açulamento de Ruy. Uma carta  agressiva. É bem o termo: agressiva. Insólita, até. Inaudita, não. Não tolero a palavra inaudita, talvez porque a tenha usado muito, nos anos de adolescência, quando o bárbaro em frescura juvenil era citar autores não lidos e palavras arrevesadas. Na carta de Ignácio, a sua intenção estava visível. Acordar quem imaginava dormindo. Acordar potencialidades adormecidas. Escreva - é o que dizia. E eu ficava a imaginá-lo no ato de gritar. A mesa posta diante da janela que se abria ao espaço. Apartamento metodicamente descuidado. Lar de sibarita intelectual. Uma cama grande, um cobertor vermelho-mestruo e, no chão, livros, revistas e discos. Ingleses, americanos, franceses. Nas paredes, fotos de modelos profissionais, artistas de cinema, escritores. A cara leonina de Hemingway, o Box Orson Welles. Cartazes de filmes, anúncios de hotéis. E Catherine Mansfield. E Jane Fonda. E Jacqueline Kennedy. Fácil, facinho. "Escreva"…

Escrevo o diário. Anotações do cotidiano. Por quê? Explicar tudo. Para quê? Uma rosa é uma rosa. Presume leitor e presume, antes, interesse. Ou sugerirá. "Madame Bovary c´est moi". Irá a seta. Se alvejar um coração, uma sensibilidade, uma única inteligência, helás! A tentativa é um gesto, mais que uma virtude. O que não é desordenado neste mundo de fundilhos rotos? Calmos, alinhados, reluzentes de tão límpidos, apenas os sonhos. Rosto não corrompido. Aquém e além da nódoa. Acima do Bem e do Mal. Apossar-se do mundão de desejado e mandar tudo à merda. Vingar-se do que é pequeno e zombar do que é ridículo. Passar à margem, imperturbável. Aí é que se torna cruel o encontro. O encontro com o conhecido. Ele é real e devolve a realidade, apagando o que é bom. Agora, pois, não adianta sonhar. Não se remenda sonho. O encanto quebrado, fodido. E a gente parece assumir, de chofre, nunca tanto quanto agora, a situação bizarra. Frases e perguntas tolas ou (e?) cínicas. Indagações formais que se jogam ao léu e para as quais não se espera, nem se obtém, respostas. O que sai são grunhidos - e é preciso ser imbecil para desentender a vontade de solidão, o direito de. Eu em estado puro. Sem perversidade. A conversa mole e tonta. Maledicência local. Não sou infenso à dor universal.  Até o desembarque final. Latifúndio para dentro. Sete palmos. Ontem seria um buraco na parede do cemitério de bairro. Sem ciprestes nem assombrações. E hoje?

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