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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Escrever, escrever...
Outra vez eu precisava sair, varar
aquelas ruas, tentar o encontro com um amigo. Ruy funciona
assim, como um "eu" misterioso. Ou como meu
alter-ego. Gosto sempre de ouvi-lo. Mesmo quando não
posso concordar com ele. Gosto, antes de tudo, de ver
a aprovação em seus olhos. Quando ele me contraria,
isso não me impede a ação. Mas quando concorda comigo,
contribui para ela. Desafoga-me. Dá-me confiança. Sei
da sua fidelidade. Sei o valor de sua amizade. Tempos
atrás, andou preocupado comigo. Com o que chamava de
"minha situação". Disse-me que lhe parecia
cada vez mais impossível deter um processo que já vem
de alguns anos, e que começava a me marcar de forma
nítida. A sua habitual presença na minha casa, a minha
habitual presença na sua casa, não objetiva apenas aquela
troca de impressões sobre generalidades. Mesmo porque
ele fala cada vez menos. Quando muito, solta a deixa
e passa a ouvir... A sua intenção mais que visível era
me assistir, garantir um público para mim, permitir
que eu discorresse sobre os assuntos de minhas preocupações,
podendo sentir que ainda estava vivo e ainda contava.
Insistia para que eu escrevesse. "Passe para o
papel tudo quanto sente, o que pensa, os caminhos que
sua inteligência vai abrindo..."
Uma noite, interrompemos o bate-papo
e saímos a passeio. Juntos repartimos as mesmas emoções
que a noite oferece aos que sabem reconhecê-la e querer-lhe
bem. Na porta de uma loja, uma mulher dormia, andrajosa.
Apanhadora de papel, um daqueles sobejos de cidade grande.
Não conseguimos ver-lhe o rosto, protegido pelos braços
magros e sujos. Não nos detivemos, mas falamos do que
aquilo significava como fracasso para a sociedade, fracasso
e comprometimento para todos nós. Que adiantava cantar
as excelências do capitalismo, louvar a livre empresa
e a ordem estabelecida, se há pessoas que passam fome
e que não têm teto? Não contam nos censos do governo,
nas suas programações e preocupações. Estão alijadas.
Disse-lhe, sem assomo:
- Teremos direito à violência, enquanto
houver uma violência contra nós. Enquanto houver fome,
analfabetismo, doenças não tratadas, injustiça. Agir
diferentemente será auxiliar o mal e permitir que as
consciências fiquem em paz.
Instou novamente para que eu escrevesse.
E às pressas, sem me olhar, passou à análise do meu
processo. Disse-me, nas fuças, que lhe pareço a Bebel
do Loyola.
- A que a cidade comeu. Com a diferença
de que não subiu levado por qualquer engodo publicitário,
por qualquer perspectiva comercial. Os seus degraus
foram construídos com esforço, armados com sacrifícios,
noites indormidas, renúncias suas e de sua família.
Em tempo curto, você criou oportunidade e mostrou competência.
Bem sucedido, profissionalmente vitorioso, com o nome
conhecido, poderia ter garantido tranqüilidade para
muito tempo. Mas permaneceu guerrilheiro, rebelde. E
aí talvez tenha perdido a perspectiva do terreno. Imaginando
que poderia continuar a sua caminhada, indiferente aos
valores que colocava em dúvida, aos tabus que ridicularizava,
aos ídolos atingidos pelo seu escárnio. O êxito, o conhecimento
com pessoas bem colocadas, os aplausos, pareciam a você
a garantia de sua posição.
- Caí sem pisar em falso.
Tolice, bem entendo. Nem foi preciso
pisar em falso. Que não dou rabo a nambu, como diria
Romildo Gurgel. A queda mesmo assim ocorreu. Sem que
eu contribuísse, pessoalmente, para ela. Toda aquela
gente mordida, todos aqueles barões assinalados pela
minha pena, todos aqueles monstros exibidos na sua insignificância,
esperaram a oportunidade e ... zás. Catapimba.
Ruy fazia questão, naquela noite,
de meter os dedos nas chagas. Recordava tudo, dolorosamente.
Achava que não entendi a profundidade do golpe. A sua
motivação, sim. Mas não que eu fôra colocado noutro
contexto.
- Tiraram-lhe o instrumental, e Bebel
viu a força do silêncio. De nada o acusavam. Não havia
restrições ao seu comportamento. Eram unânimes a respeito
de suas qualidades. Mas não lhe davam oportunidades.
Arrancavam as suas cordas vocais e deixaram-no mutilado,
inútil.
Frisava, insistente, que as regras
do jogo foram respeitadas. E que a amargura ia me destruindo,
deixando as marcas da crescente devastação. E que eu
não entendia ser preciso superar o problema, viver a
atualidade na sua extensão e na sua estupidez. Ao contrário.
- Você se refugia no passado e não
quer caminhar mais. Tiraram-lhe o brinquedo e você não
o substitui, fica agastado. Vença a sua timidez, o seu
medo de julgamento. Supere o perfeccionismo, o tolo
pudor.
Ruy está, em muita coisa, enganado.
Nunca ignorei que aquelas eram as chaves do jogo, as
suas regras. Nem nunca houve, de minha parte, uma inadaptação
à realidade. O que não quis, até por pudor, foi dobrar
a cerviz. E revelar o desvalimento a que fui condenado.
Daí a minha arrogância, a separação de amigos, o abandono
de lugares onde poderei encontrá-los. Sempre o medo
de ser mal interpretado e surgir diante deles como alguém
que pede alguma coisa, em nome de alguma coisa. Quanto
à "obra" que ele imagina eu possa fazer, quantas
vezes tenho tentado... Inutilmente. Falta-me bossa.
Faltam-me qualidades.
- Escreva memórias. Não deixa a luz
sob a cama.
- Seria o cúmulo recorrer às memórias.
De quem e de quê? E em que as minhas lembranças poderão
significar alguma coisa? Não será pretensioso sair à
praça com memórias?
Sim, seria pretensioso - e ambicioso,
também - sair com memórias, quando, muito cedo, a experiência
foi interrompida. Mas a coisa terá validade como argumento.
Porque não se trataria de fazer a crônica de uma época.
Nem o que se pede é que faça o relato de algum troço.
Interessa a experiência humana. Poderei? Aí se situa,
exatamente, o nó górdio. Temo o equívoco. Porque muitas
vezes, sem o perceber, coloco o carro adiante dos bois.
O julgamento antes da obra.
Ruy do Espírito Santo, advogado na
casa dos 30. Marxista. Linha russa. Embora seja um partisan
e tenha provado sua afoiteza em tantas ocasiões, é um
homem de paz. Nada consegue alterá-lo. Coisa alguma
poderá tirá-lo do sério. Aborrece-me, muitas vezes,
a sua simplicidade. A sua docilidade em face das verdades
marxistas. Parece-me que está sempre pronto a aceitar
tudo, a engolir o que lhe chega mastigado. Mas, melhor
examinando o amigo, compreendo que a longo prazo ele
não se rende. Ou não se rende completamente. Aquela
docilidade é uma necessidade quase orgânica de acreditar.
A mesma coisa que acontece comigo em face da Igreja
Católica. Só que ao contrário do que acontece comigo,
não o preocupa as polêmicas. Crê e vive de sua fé. Une-se
a ela sem angústia. Repousa nela. Diferente de mim,
para quem o cristianismo deve ser uma formulação que
se aceita ou se recusa em bloco. Nunca venci a tendência
em dividir as coisas entre o Bem e o Mal. Nem a carecer
de ortodoxia. Aceito que esta possa aprofundar-se, ir
a níveis superiores de inteligibilidade. Mas quero o
preto no branco. Para não embicar no relativismo.
Ruy é diferente, muito diferente,
do Ignácio. Ignácio de Loyola Brandão. Este avança,
sem preocupações, indiferente a tudo. Aos outros, inclusive.
Embora tenha seus rasgos de generosidade. Eu estava
longe quando chegou aquela sua carta e ela me lembrou
o açulamento de Ruy. Uma carta agressiva. É bem
o termo: agressiva. Insólita, até. Inaudita, não. Não
tolero a palavra inaudita, talvez porque a tenha usado
muito, nos anos de adolescência, quando o bárbaro em
frescura juvenil era citar autores não lidos e palavras
arrevesadas. Na carta de Ignácio, a sua intenção estava
visível. Acordar quem imaginava dormindo. Acordar potencialidades
adormecidas. Escreva - é o que dizia. E eu ficava a
imaginá-lo no ato de gritar. A mesa posta diante da
janela que se abria ao espaço. Apartamento metodicamente
descuidado. Lar de sibarita intelectual. Uma cama grande,
um cobertor vermelho-mestruo e, no chão, livros, revistas
e discos. Ingleses, americanos, franceses. Nas paredes,
fotos de modelos profissionais, artistas de cinema,
escritores. A cara leonina de Hemingway, o Box Orson
Welles. Cartazes de filmes, anúncios de hotéis. E Catherine
Mansfield. E Jane Fonda. E Jacqueline Kennedy. Fácil,
facinho. "Escreva"…
Escrevo o diário. Anotações do cotidiano.
Por quê? Explicar tudo. Para quê? Uma rosa é uma rosa.
Presume leitor e presume, antes, interesse. Ou sugerirá.
"Madame Bovary c´est moi". Irá a seta. Se
alvejar um coração, uma sensibilidade, uma única inteligência,
helás! A tentativa é um gesto, mais que uma virtude.
O que não é desordenado neste mundo de fundilhos rotos?
Calmos, alinhados, reluzentes de tão límpidos, apenas
os sonhos. Rosto não corrompido. Aquém e além da nódoa.
Acima do Bem e do Mal. Apossar-se do mundão de desejado
e mandar tudo à merda. Vingar-se do que é pequeno e
zombar do que é ridículo. Passar à margem, imperturbável.
Aí é que se torna cruel o encontro. O encontro com o
conhecido. Ele é real e devolve a realidade, apagando
o que é bom. Agora, pois, não adianta sonhar. Não se
remenda sonho. O encanto quebrado, fodido. E a gente
parece assumir, de chofre, nunca tanto quanto agora,
a situação bizarra. Frases e perguntas tolas ou (e?)
cínicas. Indagações formais que se jogam ao léu e para
as quais não se espera, nem se obtém, respostas. O que
sai são grunhidos - e é preciso ser imbecil para desentender
a vontade de solidão, o direito de. Eu em estado puro.
Sem perversidade. A conversa mole e tonta. Maledicência
local. Não sou infenso à dor universal. Até o
desembarque final. Latifúndio para dentro. Sete palmos.
Ontem seria um buraco na parede do cemitério de bairro.
Sem ciprestes nem assombrações. E hoje?
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