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O
livro do meu vizinho
Acordei por volta das
8 horas, mas permaneci de olhos fechados, canalizando
energias, buscando identificar sons que dessem pistas
do meu paradeiro naquela manhã de quinta-feira. Estaria
eu em Natal ou Mossoró? E em qual lugar de uma dessas
cidades? A dupla residência às vezes me deixa atordoado.
Não obtive sucesso na pesquisa auditiva, pois o ronco
do condicionador de ar cobria as outras vibrações do
ambiente.
Com esforço de halterofilista
acionei alguns músculos do rosto e abri o olho direito
cuja pálpebra pesava cinco toneladas, seiscentos e dois
quilos e trinta gramas. Tentei ajustar o foco na direção
de algo branco iluminado por uma luz intensa que invadia
o quarto pelas frestas da porta. Não deu. Abri o outro
olho, coloquei os óculos, levantei-me e me dirigi ao
objeto. Era um livro, Contos do Cotidiano, de Gilberto
de Sousa.
Há anos Gilberto prometia
transformar em livro os contos escritos por ele para
o O Mossoroense, pretensão alcançada com o selo da editora
Queima Bucha em 2004, desde quando eu esperava para
reler os textos e para conhecer as ilustrações, último
trabalho do chargista Bob Melo. Pois em dado instante
do dia que acabara de nascer, Giba o colocou por debaixo
da porta com dedicatória "ao meu vizinho e amigo
da madrugada".
Nunca imaginei receber
um livro em tais circunstâncias. A dedicatória, no entanto,
foi providencial, norteadora. Encontrei-me graças à
lembrança de que, por algumas horas, eu e Gilberto fomos
vizinhos. Passou até o sono. Senti-me feliz com o gesto,
principalmente por haver assistido à gênese da obra
a partir de histórias reais que nos chegavam à redação
na boca dos repórteres e foram temperadas pela criatividade
do autor.
Na época, de acordo
com Gilberto, eu "engatinhava com a valentia dos
grandes escritores de contos". Engatinhando, continuo.
A lida com as palavras é dura e exige sacrifícios daqueles
que não nasceram com o dom de manusear idéias. Às vezes
passo dias adulando a prosa do domingo seguinte. E ela,
tinhosa, ainda sai capenga. Queria ter tempo e engenho
para escrever sem a afobação da rotina e com a mestria
de tantos.
A valentia fica por
conta da generosidade do amigo que incentivou o menino
burro a escrever e a se tornar repórter. Observando
à distância, sou obrigado a desconstruir episódios de
suposta coragem inscritos no meu currículo. Penso por
agora que só fui valente de verdade quando não me deixei
levar pela raiva nem por intrigas, mantendo-me longe
de guerras que nada têm a ver com a prática do jornalismo.
O resto, imaturidade.
Parece que estou divagando
para atingir as 40 linhas às quais tenho direito na
geografia da quinta ou da sétima página, a depender
do departamento comercial.
O fato é que o livro
de Gilberto trouxe-me lembranças aos montes, inclusive
dos sábados no Sertão Lusitano de Antônio Rosado Maia,
Anabela e Dadazinha, porque o prefácio é de Toinho.
Aliás, o prefácio é Toinho, a cara dele. Posso ouvi-lo
falar palavra por palavra.
"Gilberto é artista
multifacetado. Compositor, cantor, violonista, editor
de jornal e um contista porreta de bom. Desses que escrevem
e publicam diariamente para deleite de seus leitores...
Pra falar a verdade, eu morro de inveja de quem escreve
e publica contos. Não tenho imaginação, talento e disposição
para tanto. Essa inveja saudável, que eleva...",
diz o mestre Antônio Rosado. E eu, pegando uma carona,
assino embaixo.
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