Mossoró-RN, domingo 12 de fevereiro de 2006

Gabriel Barcelos

Gabriel Barcelos Chaves tem 35 anos e é natural de Pelotas/RS.

Formado em Direto, ele está radicado em Mossoró há seis anos e já foi agraciado, no ano passado, com o título de cidadão mossoroense ao que diz que não precisava, pois já se sentia assim antes mesmo de ser agraciado.

Atual gerente do Hotel Thermas, ele ocupa também o cargo de gerente de Turismo do município de Mossoró.

É com ele a entrevista desta semana.

Por Caio César Muniz

OM - O Pólo Costa Branca é um projeto que já vem sendo falado há mais de uma década, mas que só veio a ser implantado realmente há cerca de um ano. O que já foi realizado a partir da sua instalação?

Gabriel Barcelos - É importante realmente ressaltar que este projeto já vem sendo falado há tanto tempo, talvez mais de uma década. O que mudou na verdade, o que eu acho que até impulsionou para a sua criação foi a própria orientação do governo federal. Porque antes o Ministério do Turismo nos orientava e dirigia através de programas de municipalização do turismo. Então, todo o trabalho, todo foco era nos municípios. No atual governo mudou-se a visão, ou seja, passou-se a trabalhar com regiões turísticas, regionalização do turismo. Então se dividiu o Brasil. Não é só o Costa Branca, aqui no Rio Grande do Norte, por exemplo, são cinco pólos, da mesma forma que no Ceará, que na Paraíba, no Rio Grande do Sul, enfim, em todas as regiões. E assim que realmente a coisa funciona, porque você vai agregar valores ao seu produto turístico, àquilo que você tem, porque você divulgar o que se tem em um município é uma coisa, mas trabalhar toda uma região você vai ter sempre muito mais atrativos para divulgar. É assim no mundo inteiro. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há muito tempo se falava nas serras gaúchas, só que você não pode falar desta forma porque você não sabe onde começa ou onde termina determinado município, porque é uma região. No momento em que se mudou este enfoque, as coisas começaram a se encaminhar neste sentido de desenvolvimento. O Pólo Costa Branca ele tem um potencial enorme. Eu diria até que ele é maior do que o Pólo Costa das Dunas, que fica localizado em Natal, em termos de diversidade.

No Costa das Dunas você tem única e exclusivamente sol e mar, você tem no Costa Branca sol e mar, com uma qualidade de produto tão bom quanto o Costa das Dunas, mas temos outra diversidade de coisas para mostrar que não existe por lá, é o caso das pinturas rupestres, das águas termais, das salinas, da fruticultura, do petróleo e tudo isso pode ser trabalhado de uma forma turística.

Então sobre sua pergunta original (o que foi feito a partir da instalação do Pólo Costa Branca?) eu diria que o principal foi que se criou, oficialmente, o pólo. O que existia antes era somente teoria, mas ele agora oficializado. Além da sua criação, também foi criado o Conselho do Pólo Costa Branca, que é composto por membros do poder público, da iniciativa privada e do terceiro setor. Este conselho é quem vai gerir o desenvolvimento do Pólo Costa Branca, através dele, que representa a sociedade, os municípios que fazem parte do pólo, ele vai dar as orientações, os sonhos necessários para o desenvolvimento do turismo sustentável na região. Quando falamos em turismo sustentável, estamos falando de um turismo que venha a trazer os benefícios que o turismo traz, de uma maneira em que a gente possa projetar isto em longo prazo e que não seja um turismo predador, aquele que chega e acaba trazendo muito mais prejuízos para a sociedade do que benefícios. Mas aqui está se pensando e se planejando o turismo de uma forma muito consciente.

OM - Como será feita a roteirização do Pólo Costa Branca?

GB - Na última segunda-feira nós tivemos aqui um grupo do Sebrae, da Secretaria de Turismo do Estado e da Creato, que é uma empresa contratada através de um convênio com o Ministério do Turismo para fazer esta roteirização e já nesta primeira reunião foi feito um reconhecimento da região. É uma empresa mineira, mas que executa este tipo de trabalho no Brasil inteiro então têm muita experiência. Alguém pode achar que poderíamos até ter escolhido pessoas daqui, mas eu acredito que tenha sido bem melhor assim, primeiro porque eles têm o conhecimento, eles sabem o que vende. Depois, justamente pelo fato de ser de fora, porque eles têm uma melhor visão de tudo e, geralmente quem é de fora, costuma dar mais valor ao que é daqui. Quem reside por aqui ignora, por exemplo, a importância turística de uma salina e, quem vem de fora fica fascinado quando avista uma salina. Então estas pessoas têm a visão do turista. Então o trabalho já começou, ele tem que estar pronto para o salão do turismo que ocorre em junho em São Paulo, é o maior evento de turismo hoje no Brasil. É um trabalho que como se vê, foi iniciado, mas tem data para terminar. Eu estou entusiasmado porque isso vai nos dar além de um material muito bom para que nós possamos vender junto a operadoras e agências de viagem, que é quem vende. Nós teremos também uma profissionalização no nosso turismo, será um grande passo.  A partir do momento em que nós criamos um roteiro, nós vamos precisar criar uma infra-estrutura para este roteiro, para que ele possa acontecer, para que ele possa receber o turista. Isto vai promover uma profissionalização, vai expor também as nossas dificuldades, o que, claro, vai nos mostrar onde precisamos melhorar. Então, a primeira grande ação, prática, do Pólo Costa Branca são os roteiros turísticos sendo vendidos nas operadoras e agências de turismo do Brasil.  

OM - Então o Pólo Costa Branca não vai trabalhar a questão turística somente na parte litorânea da nossa região, outras localidades afastadas também irão ser beneficiadas?

GB - Quando se fala em Costa Branca pensa-se logo que a coisa está ligada somente ao litoral. Não é. Na verdade, o litoral teria muitas dificuldades de desenvolvimento se não fosse Mossoró. Não é querendo dizer que Mossoró seja melhor do que ninguém, mas a cidade hoje, é, realmente, a porta de entrada para toda esta região. Você não teria como desenvolver este pólo sem a infra-estrutura oferecida por Mossoró. Eu diria mais. Mossoró não dá suporte somente para as cidades localizadas no Estado do Rio Grande do Norte, mas também para cidades próximas, no Estado do Ceará, como é o caso de Icapuí e Aracati que necessitam desta infra-estrutura que nós temos. Há algum tempo nós recebemos um grupo de portugueses que estavam em Icapuí, mas que vieram conhecer Mossoró, alguns investidores, inclusive, e eles nos falavam que para o desenvolvimento destes projetos naquela cidade, precisariam de Mossoró. Porque Mossoró daria o suporte para a sustentabilidade dos seus projetos.

Então a partir de Mossoró você tem várias opções. Apodi, por exemplo, que não faz parte do Costa Branca, vai fazer parte do roteiro. Porque não tem como desprezar o Lajedo de Soledade, que é conhecido no mundo inteiro, que tem uma infra-estrutura já pronta e que fica a apenas 70 quilômetros daqui. Então existirão alguns roteiros para o interior que são indispensáveis. É bom dizer que também que apesar do pólo contar com dezesseis municípios, apenas oito vão fazer parte, neste primeiro momento deste roteiro turístico, porque algumas cidades, infelizmente, ainda não têm esta infra-estrutura pronta para o recebimento do turista.

Agora, a partir do momento que estes oito municípios passarem a receber um fluxo maior de turistas, os outros são beneficiados também, porque eles vão estar muito próximos destes roteiros. Qualquer coisa que eles criem, eles vão puxar este turismo para eles. O difícil seria se os turistas estivessem em cidades mais distantes como Natal ou Fortaleza, mas se estão aqui, entre estes oito municípios, qualquer evento que aconteça em volta vai levá-los até este lugar, inserindo assim aquela localidade na sua rota de visitações. Na hora que isto começar a acontecer a iniciativa privada vai responder de uma maneira muito forte. Porque quem faz o turismo é a iniciativa privada. O poder público tem que criar a infra-estrutura, dar as condições para que a ela faça os investimentos necessários e o turismo realmente aconteça. Então quando tivermos este roteiro pronto, turistas vindo nestes roteiros, com certeza a iniciativa privada, os empreendedores locais, e mesmo de fora, vão realmente começar a fazer os seus investimentos e a roda começar a girar. Nós temos que começar a fazer as coisas acontecerem e aí não vai parar mais porque o potencial é inegável e vai trazer um desenvolvimento para a região muito grande.

OM - O senhor falava da questão da infra-estrutra. Mossoró tem um problema sério de infra-estrutura que é a sua rodoviária, além de que o aeroporto local também não tem recebido vôos comerciais. Como o senhor avalia isto?

GB - Recentemente foi feito uma pesquisa sobre o turismo em Mossoró e no geral esta pesquisa foi muito positiva. Os pontos negativos abordados - e eu concordo com eles - era a questão da sinalização turística da cidade, que realmente é muito fraca, mas nós já estamos trabalhando para criar uma sinalização eficiente, uma folheteria com informações sobre os pontos turísticos de Mossoró e o outro ponto era exatamente a rodoviária.

A rodoviária, sem dúvida é a porta de entrada da cidade, é a primeira impressão e isto realmente tem nos preocupado porque ela é deficiente em termos de atrativo turístico.

O DER é o responsável pela rodoviária, então o município tem pouca gerência sobre isto, no máximo podemos pressionar para que sejam feitas melhorias, e isto temos feito. Alguma coisa já foi feito neste sentido de melhoramento, mas insuficiente. Na minha opinião, o ideal seria a municipalização desta rodoviária, isto seria muito mais fácil para que nós resolvêssemos este problema. O aeroporto, hoje, ele já tem as condições mínimas para o recebimento de aeronaves, inclusive boeings, como tem chegado da companhia BRA, então as condições estão razoáveis. Claro que alguma coisa tem que melhorar e isso vai ser feito a medida que passarmos a ter vôos regulares para cá. Quando isto acontecer, as melhorias que se farão necessárias vão ser feitas.

Eu acredito que mais ainda que o aeroporto, a rodoviária é um problema maior, porque o fluxo de pessoas é muito grande.

Há uma semana eu recebi um casal, diretores de um grande jornal do Rio Grande do Sul que vieram conhecer Mossoró e queriam voltar para Fortaleza de ônibus e eu confesso que fiquei constrangido em deixá-los na rodoviária. Porque eles estavam tão positivamente entusiasmados com o que viram em Mossoró que aquele cenário destoou de tudo que eles conheceram.

OM - Percebe-se em Mossoró certa inabilidade dos profissionais que trabalham na área de atendimento e isto, com certeza, é prejudicial ao turismo. Existe algum projeto visando capacitação nestes setores?

GB - Atualmente as pessoas estão começando a acreditar no turismo. Então os próprios empresários da cidade estão se dando conta de que precisam capacitar seus funcionários para atender as pessoas que vem de fora. Nós temos aqui bares e restaurantes, por exemplo, onde o turista não é atendido de uma forma adequada porque os funcionários estão acostumados a atender o público local, que não é tão exigente quanto as pessoas que vem de fora.

Nós estamos montando um projeto de sensibilização de policiais, frentistas, taxistas, que é quem geralmente o turista procura para obter informações sobre a cidade.

OM - O que pode ser feito para que, com o aumento do turismo na região, não venhamos a ter, também, um aumento nos casos de exploração sexual de menores?

GB - Um dos membros do Conselho do Pólo Costa Branca é uma ONG chamada Ceática que se preocupa com esta questão da exploração sexual infanto-juvenil.

Agora, eu acho que uma das coisas principais que devem ser feitas é que as leis sejam cumpridas, que haja a fiscalização, que as pessoas sejam punidas, porque vai servir de exemplo.

Existe um projeto do Sebrae chamado "Turismo Melhor" do qual dois hotéis da cidade (o Thermas e o Sabino Palace) já possuem o selo de qualidade, e que um dos requisitos para o recebimento deste selo é justamente que o hotel tome medidas para coibir este tipo de violência.

Ações, lógico, têm que ser feitas, caso contrário isto é inevitável, mas temos que ter esta preocupação, agir de maneira dura, prevenindo, trabalhando junto aos hotéis e com as autoridades locais e conscientizar as pessoas dos riscos para que tenhamos o mínimo de problema, se possível, nenhum problema desta natureza.

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