Mossoró-RN, domingo 12 de fevereiro de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

A Família

Parti o pão, segundo o ritual doméstico. Não pressentia que Maria Cândida, ao lado, seguira o gesto de tantos anos, como se tentasse reencontrar nas minhas mãos que envelhecem entre veias saltadas e nódoas visíveis, o primeiro daqueles movimentos feitos na manhã que sucedeu às bodas. O gesto, para mim, não estava gasto. Talvez com o tempo tenha ganho mais solenidade ou uma sutil conotação mística. Se naquela manhã que ficou tão para trás senti que a emoção maior do casamento estava na simplicidade consentida daquela concelebração, hoje, ainda, não perdi o sentido de grandeza que encerra cada reunião de família.

Em síntese, nada mudou extraordinariamente. O mesmo amor - o que perdeu em fôlego, ganhou em chão -, a mesma espontânea confiança a estender-se na descendência numerosa. Diferente, só a composição da mesa: aqueles lugares antes vazios, agora são ocupados pelos que deverão ser nossos sucessores, para levar adiante mais do que um nome, no caso desimportante, mas a história de um diálogo que se estende, íntegro, no tempo e no espaço.

Nada há, claro, de mais importante naquele encontro diário em volta da mesa, tão familiar como a mulher, os filhos, os passarinhos, o ranger do portão ou o velho soluço do armador de rede. Nada. As próprias reuniões de família, cada vez mais raras, não aconteciam em nenhuma daquelas oportunidades. A coisa valia pela sua intrínseca domesticidade, a sua específica finalidade. Às vezes a conversa se anima e mesmo a contragosto - quase sempre a contragosto - eu aparteio, participo, constituo. Outras vezes, vem o silêncio. A quase pressa. E nem é preciso falar. Poderia fechar os olhos e descobrir o menor gesto. Distinguir cada rumor, cada tilintar de talher ou arrastar de cadeira.

É a família. E ela só mantém, hoje, a sua característica de família, em situações singulares. E é preciso aproveitar as ocasiões. É como uma transfusão de sangue novo e bom a cada um de nós, indispensável à luta que cada um travará a partir dali. Ou como que um laço abrangente em gesto de solidariedade. Será possível desvios tão radicais, abominações tão profundas, depois de uma reunião silenciosa, de gente desarmada? Talvez, sim. Não se perderá, ao menos, a tentativa.

O relógio assinala as horas, em pancadas secas e cheias de espaço. Maria Cândida conta as pancadas e elogia a nobreza melódica do bronze. Para os filhos, não diz coisa alguma. Ou nada, ainda. Amanhã, quando mil horas forem transferidas gota a gota, dirá. Para mim não foi assim. Ou não foi bem assim. Descobri o relógio e o seu som quando minha Mãe me contava os momentos que ele registrara, cúmplice. A partir de então, passei a ouvi-lo atentamente. E a sentir a sua marcação, a sua conivência.  O tic-tac inaudível de dia, marcante nas horas noturnas. O trabalho contínuo, sem tréguas nem esmorecimentos. Marcou todas as horas, a partir do dia seguinte ao meu casamento. Marcou o nascimento de cada um dos filhos. Nas horas de alegria, se esconde, se retrai, discreto. Nas outras horas, o seu passo é vagaroso. Não anda. Passo suave, contável, como o acompanhamento de enterro. As suas pancadas percutindo dolorosamente, batendo em cada nervo, tocando a flor aberta de cada ferida. De quinze em quinze dias, invariavelmente, pára. Descanso rápido. Menos preguiça e mais desejo de carícia. Subo na cadeira e dou-lhe corda. Primeiro, no lado direito. Depois, no esquerdo. Como meu Pai fazia. Só ele, ontem. Só eu, hoje. Amanhã será a vez dos filhos. O mesmo gesto, o mesmo espaço quinzenal, a mesma solenidade simples. Os anos terão ensinado eles a amar a humanidade que há em cada gesto e em cada movimento. Sentirão, como sinto hoje e como meu Pai terá sentido no passado. O relógio não parará e é um devaneio imaginar que no momento fúnebre o seu bater será diferente. Dobrará, imortalmente.

Tudo se repete, é o que penso e vejo. Aquela cabeceira não foi a mesma em que se assentou meu Pai? Se fecho os olhos, vejo minha Mãe no lugar de Maria e os meus filhos nos lugares que eram meu e de minhas irmãs. Aquilo é o lar, é a família. É obra minha, consumada em anos de convivência.

Maria Cândida está certa nas suas queixas. Era preciso participar mais da comunidade familiar. Conversar com os filhos, conviver melhor com eles, ouvi-los, brincar, perceber que crescem e ganham personalidade. Não aceitar que a guerra de cada dia me afaste de minha gente ou me transforme num estranho. Eles reclamam mais atenções. Noto, às vezes, já ser olhado como um acontecimento novo, um instante diferente na rotina de cada um. Eu como aquele que troca a noite pelo dia. Um pai dormindo ou, zanzando pela casa, sonolento, mal humorado, abobalhado de sono, tresnoitado. Jorge me segue ao banheiro. É calado, monossilábico. Difícil arrancar alguma coisa dele, estabelecer um diálogo, sentir as suas reações. Vai bem, sim. Tem estudado, sim. Com a Mãe, sim. O problema é a aritmética. Hereditariedade...Tem a circunspecção do Avô, a sua secura, o seu mistério, o seu poder de síntese. Sim sim, não não. Os irmãos são diferentes. Sempre o foram. Saudade dorme sempre até mais tarde e quando acorda demora diante do espelho, no preparo caprichado. Sem pressa, escolhe o vestido e prende os cabelos de ouro. Luis grita, briga, ri. Tão diferente da minha infância... Jamais tive a seriedade de Jorge, o seu gênio voltado para dentro. Nada nadinha da sua aridez. Saiu à Mãe. E eu à minha Mãe: sentimental, verboso, gostando dos mots d´esprits, carinhoso, extrovertido. Pareço mais com Luis. O menino é um espoleta. Não bastasse a Jorge o exemplo do Avô, há a benção de Maria. Calada, hábil na economia de palavras como no manejo (quase astucioso) de nossa falta de dinheiro.

Descemos juntos a escada, Jorge e eu. Ele calado, sempre. A família está novamente reunida. Maria Cândida limpa o feijão. Os filhos brincam ao lado. Meu Pai já saíra. Como sempre, às oito horas. Impreterivelmente às oito horas. Bem barbeado, depois do café e de duas - precisamente duas - rápidas visitas ao banheiro. Minha Mãe está bem. Geralmente sofre mais à noite. Pela manhã, salvo a dor de cabeça diária, parece sempre estar melhor. Ri. Conta, feliz, que Jorge a trouxe do quarto à sala, empurrando a sua cadeira de rodas. Adora o neto. "Primeiro filho homem de meu único filho varão". Primeiro neto homem e seu afilhado. Curioso: Jorge, apesar de toda a sua secura, retribuía o seu sentimento. Adorava-a.

Anoitece, outra vez. Maria Cândida, dormindo, num gesto instintivo, me abraça. Enlaço-a, também. Uma boa companheira - e eu a amo. Mulher, companheira, amiga, mãe. Parceira em tão enormes caminhos de tristezas, nunca a vi dessolidária. Ao contrário: é nos momentos ásperos que revela a sua grandeza. Tem uma capacidade inimitável de entender, de perdoar, de amar. Já a vi - quantas vezes, meu Deus! - batida pelas tempestades que se desencadeiam, cíclicas, sobre nós. Nessas horas, mostra uma fortaleza de ânimo capaz de tornar claro o que escureceu de repente. É como se tivesse sido feita para os instantes difíceis, a fúria das águas que desabam. Sorri quando sorrio. Integra-se na minha alegria. E chora comigo nas horas de aflição, misturando as nossas lágrimas. Forma comigo e com as minhas dores uma unidade perfeita. Abraço-a, mais calorosamente. E me vejo envolvido pelo seu abraço de toda vida.

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