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A
palavra de Dorian Jorge Freire
A Família
Parti o pão, segundo
o ritual doméstico. Não pressentia que Maria Cândida,
ao lado, seguira o gesto de tantos anos, como se tentasse
reencontrar nas minhas mãos que envelhecem entre veias
saltadas e nódoas visíveis, o primeiro daqueles movimentos
feitos na manhã que sucedeu às bodas. O gesto, para
mim, não estava gasto. Talvez com o tempo tenha ganho
mais solenidade ou uma sutil conotação mística. Se naquela
manhã que ficou tão para trás senti que a emoção maior
do casamento estava na simplicidade consentida daquela
concelebração, hoje, ainda, não perdi o sentido de grandeza
que encerra cada reunião de família.
Em síntese, nada mudou
extraordinariamente. O mesmo amor - o que perdeu em
fôlego, ganhou em chão -, a mesma espontânea confiança
a estender-se na descendência numerosa. Diferente, só
a composição da mesa: aqueles lugares antes vazios,
agora são ocupados pelos que deverão ser nossos sucessores,
para levar adiante mais do que um nome, no caso desimportante,
mas a história de um diálogo que se estende, íntegro,
no tempo e no espaço.
Nada há, claro, de
mais importante naquele encontro diário em volta da
mesa, tão familiar como a mulher, os filhos, os passarinhos,
o ranger do portão ou o velho soluço do armador de rede.
Nada. As próprias reuniões de família, cada vez mais
raras, não aconteciam em nenhuma daquelas oportunidades.
A coisa valia pela sua intrínseca domesticidade, a sua
específica finalidade. Às vezes a conversa se anima
e mesmo a contragosto - quase sempre a contragosto -
eu aparteio, participo, constituo. Outras vezes, vem
o silêncio. A quase pressa. E nem é preciso falar. Poderia
fechar os olhos e descobrir o menor gesto. Distinguir
cada rumor, cada tilintar de talher ou arrastar de cadeira.
É a família. E ela
só mantém, hoje, a sua característica de família, em
situações singulares. E é preciso aproveitar as ocasiões.
É como uma transfusão de sangue novo e bom a cada um
de nós, indispensável à luta que cada um travará a partir
dali. Ou como que um laço abrangente em gesto de solidariedade.
Será possível desvios tão radicais, abominações tão
profundas, depois de uma reunião silenciosa, de gente
desarmada? Talvez, sim. Não se perderá, ao menos, a
tentativa.
O relógio assinala
as horas, em pancadas secas e cheias de espaço. Maria
Cândida conta as pancadas e elogia a nobreza melódica
do bronze. Para os filhos, não diz coisa alguma. Ou
nada, ainda. Amanhã, quando mil horas forem transferidas
gota a gota, dirá. Para mim não foi assim. Ou não foi
bem assim. Descobri o relógio e o seu som quando minha
Mãe me contava os momentos que ele registrara, cúmplice.
A partir de então, passei a ouvi-lo atentamente. E a
sentir a sua marcação, a sua conivência. O tic-tac
inaudível de dia, marcante nas horas noturnas. O trabalho
contínuo, sem tréguas nem esmorecimentos. Marcou todas
as horas, a partir do dia seguinte ao meu casamento.
Marcou o nascimento de cada um dos filhos. Nas horas
de alegria, se esconde, se retrai, discreto. Nas outras
horas, o seu passo é vagaroso. Não anda. Passo suave,
contável, como o acompanhamento de enterro. As suas
pancadas percutindo dolorosamente, batendo em cada nervo,
tocando a flor aberta de cada ferida. De quinze em quinze
dias, invariavelmente, pára. Descanso rápido. Menos
preguiça e mais desejo de carícia. Subo na cadeira e
dou-lhe corda. Primeiro, no lado direito. Depois, no
esquerdo. Como meu Pai fazia. Só ele, ontem. Só eu,
hoje. Amanhã será a vez dos filhos. O mesmo gesto, o
mesmo espaço quinzenal, a mesma solenidade simples.
Os anos terão ensinado eles a amar a humanidade que
há em cada gesto e em cada movimento. Sentirão, como
sinto hoje e como meu Pai terá sentido no passado. O
relógio não parará e é um devaneio imaginar que no momento
fúnebre o seu bater será diferente. Dobrará, imortalmente.
Tudo se repete, é o
que penso e vejo. Aquela cabeceira não foi a mesma em
que se assentou meu Pai? Se fecho os olhos, vejo minha
Mãe no lugar de Maria e os meus filhos nos lugares que
eram meu e de minhas irmãs. Aquilo é o lar, é a família.
É obra minha, consumada em anos de convivência.
Maria Cândida está
certa nas suas queixas. Era preciso participar mais
da comunidade familiar. Conversar com os filhos, conviver
melhor com eles, ouvi-los, brincar, perceber que crescem
e ganham personalidade. Não aceitar que a guerra de
cada dia me afaste de minha gente ou me transforme num
estranho. Eles reclamam mais atenções. Noto, às vezes,
já ser olhado como um acontecimento novo, um instante
diferente na rotina de cada um. Eu como aquele que troca
a noite pelo dia. Um pai dormindo ou, zanzando pela
casa, sonolento, mal humorado, abobalhado de sono, tresnoitado.
Jorge me segue ao banheiro. É calado, monossilábico.
Difícil arrancar alguma coisa dele, estabelecer um diálogo,
sentir as suas reações. Vai bem, sim. Tem estudado,
sim. Com a Mãe, sim. O problema é a aritmética. Hereditariedade...Tem
a circunspecção do Avô, a sua secura, o seu mistério,
o seu poder de síntese. Sim sim, não não. Os irmãos
são diferentes. Sempre o foram. Saudade dorme sempre
até mais tarde e quando acorda demora diante do espelho,
no preparo caprichado. Sem pressa, escolhe o vestido
e prende os cabelos de ouro. Luis grita, briga, ri.
Tão diferente da minha infância... Jamais tive a seriedade
de Jorge, o seu gênio voltado para dentro. Nada nadinha
da sua aridez. Saiu à Mãe. E eu à minha Mãe: sentimental,
verboso, gostando dos mots d´esprits, carinhoso, extrovertido.
Pareço mais com Luis. O menino é um espoleta. Não bastasse
a Jorge o exemplo do Avô, há a benção de Maria. Calada,
hábil na economia de palavras como no manejo (quase
astucioso) de nossa falta de dinheiro.
Descemos juntos a escada,
Jorge e eu. Ele calado, sempre. A família está novamente
reunida. Maria Cândida limpa o feijão. Os filhos brincam
ao lado. Meu Pai já saíra. Como sempre, às oito horas.
Impreterivelmente às oito horas. Bem barbeado, depois
do café e de duas - precisamente duas - rápidas visitas
ao banheiro. Minha Mãe está bem. Geralmente sofre mais
à noite. Pela manhã, salvo a dor de cabeça diária, parece
sempre estar melhor. Ri. Conta, feliz, que Jorge a trouxe
do quarto à sala, empurrando a sua cadeira de rodas.
Adora o neto. "Primeiro filho homem de meu único
filho varão". Primeiro neto homem e seu afilhado.
Curioso: Jorge, apesar de toda a sua secura, retribuía
o seu sentimento. Adorava-a.
Anoitece, outra vez.
Maria Cândida, dormindo, num gesto instintivo, me abraça.
Enlaço-a, também. Uma boa companheira - e eu a amo.
Mulher, companheira, amiga, mãe. Parceira em tão enormes
caminhos de tristezas, nunca a vi dessolidária. Ao contrário:
é nos momentos ásperos que revela a sua grandeza. Tem
uma capacidade inimitável de entender, de perdoar, de
amar. Já a vi - quantas vezes, meu Deus! - batida pelas
tempestades que se desencadeiam, cíclicas, sobre nós.
Nessas horas, mostra uma fortaleza de ânimo capaz de
tornar claro o que escureceu de repente. É como se tivesse
sido feita para os instantes difíceis, a fúria das águas
que desabam. Sorri quando sorrio. Integra-se na minha
alegria. E chora comigo nas horas de aflição, misturando
as nossas lágrimas. Forma comigo e com as minhas dores
uma unidade perfeita. Abraço-a, mais calorosamente.
E me vejo envolvido pelo seu abraço de toda vida.
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