Mossoró-RN, domingo 12 de fevereiro de 2006

Cearense foi co-piloto no primeiro vôo dos EUA ao Brasil

Por Caio César Muniz

N dia 4 de setembro de 1922, o cearense Euclides Pinto Martins e o piloto brasileiro Walter Hilton iniciaram, na Flórida, já depois de uma tentativa frustrada, o primeiro vôo partindo dos Estados Unidos da América para o Brasil.

Euclides conseguiu o "brevet" de piloto em 1921.

Com sua entrada no meio aeronáutico, conheceu Walter Hilton, instrutor de vôo na Flórida.

Com o novo amigo e a afinidade de idéias, resolveram realizar um velho sonho do cearense: atravessar o Atlântico numa viagem de avião partindo de Nova Iorque ao Rio de Janeiro, desbravando assim aquela rota aérea.

A idéia encontrou eco na mente de seu colega e, juntos, começaram a trabalhar. Lutaram com força de vontade e, finalmente, conseguiram um banqueiro: Andrew Smith Jr. que asseguraria verbas para o atrevido projeto.

Assim, contrataram da Fábrica Curtis um hidroavião biplano com 28 metros de envergadura e dois motores "liberty" de 400 hp, cada.  A máquina voadora pesava oito mil quilos! Depois do avião pronto decidiram batizá-lo de Sampaio Corrêa" em homenagem  ao senador e presidente do Aeroclube do Rio de Janeiro.

A tripulação estava composta pelo piloto Walter Hinton, pelo co-piloto Euclides Pinto Martins, o mecânico de bordo John Edward Wilshusen, da Fábrica Curtiss, e para retratar a travessia George Thomas Bye, jornalista do "New York Word" e o cinegrafista John Thomas Baltzel da Pathé News.

O hidroavião com sua equipe deveria decolar no dia 16 de agosto de 1922, mas ao colocá-lo no Rio Hudson, houve uma pequena avaria na asa esquerda, adiando então sua partida. Por fim, no dia 17 de agosto do mesmo ano decolou do estuário do Hudson o majestoso "Sampaio Corrêa", aplaudido por milhares de pessoas.

A meteorologia que iniciava seus estudos previa riscos de tempestades, mas a equipe, afoita, não se importou e decolou  sumindo no horizonte, assistidos das margens do Rio Hudson entre as ilhas de Manhatam e New Jersey.

Partiram dia 21, às 11:00 horas, e amerissaram em Nassau, onde pernoitaram,  seguindo de manhã com destino a Porto Príncipe, no Haiti. Neste trecho foram surpreendidos por forte borrasca, perderam altitude e caíram no mar por volta das 20:00 horas, ao leste da ilha de Cuba, além do Cabo Maisi.

Assim terminava a primeira tentativa.

Mas Pinto Martins e seus amigos não enfraqueceram, continuaram com a idéia de provar que uma rota aérea ligando as Américas (norte e sul) era viável.

Assim, acabaram conseguindo que o Jornal "The New York Word" lhes dessem um outro avião para continuação da viagem.

Era um hidroavião com seis anos de uso, que pertencera a Base.

Graças a esta doação, em 4 de setembro do mesmo ano, em São Petersburgo, na Flórida receberam a nave e batizaram-na de Sampaio Corrêa II.

No dia 1º de dezembro, pousam no Brasil, no Rio Cunani, no Pará, ao norte da foz do Rio Amazonas, prosseguem para a Ilha de Maracá, Belém, e Bragança onde são obrigados por um temporal a pousar no Rio Caeté.

Passaram três dias em Bragança seguido viagem para São Luís, depois para a Baía de São Marcos desembarcando na ilha de São Luís, no Maranhão.

No dia 19 pousam em Camocim, terra natal de Pinto Martins.

Depois de muitas homenagens, partiram no dia seguinte para Aracati, sem pousar em Fortaleza por dificuldades de amerissagem nas águas agitadas da enseada do Mucuripe.

Pernoitaram em Aracati e voaram para Natal onde dormiram um sono reparador.

Cedo decolavam em direção ao sul, mas, mal viajaram 50 milhas o motor de bombordo apresentou um problema.

Estavam sobrevoando ainda o território Potiguar, perto de Canguaretama, Baía Formosa, e uma grave pane no motor esquerdo forçou-os a amerissar na citada Baía.

Só conseguiram o conserto das peças em Pernambuco, mais exatamente em Recife.

A viagem quase terminou por ali, não fosse o comandante da Aviação Naval, Capitão de Mar e Guerra, Protógenes Guimarães que vendo a situação desesperadora dos viajantes com o motor irrecuperavelmente danificado, doou-lhes um novo.

O futuro mostraria que este comandante teria pela frente uma bela carreira e chegaria a ser Ministro da Marinha.

Finalmente, às 11:32 horas do dia 8 de fevereiro de 1923, o avião é avistado sobrevoando a  Baía da Guanabara! Ao pousar foram recebidos na lancha "Independência"  do Ministério da Marinha, onde o primeiro a ser abraçado pelo senador  Sampaio Correia  foi Pinto Martins seguido por Hilton, o piloto, George Thomas, o jornalista e por fim o cinegrafista John Thomas que, afinal, filmava o evento!

Biografia -  Euclides Pinto Martins nasceu em Camocim, no Ceará, a 15 de abril de 1892. Entretanto, só foi batizado e registrado três meses depois, (28 de julho de 1892), em Macau, Rio Grande do Norte.

O fato ocorreu porque seu pai, Antônio Pinto Martins, natural de Mossoró, foi convidado para representar a Companhia de Salinas Mossoró Assu naquela cidade.

Sua mãe chamava-se Dona Maria Araújo do Carmo Martins.

Euclides era considerado um garoto de inteligência incomum.

Aos cinco anos (1897) já começava a estudar na escola pública local.

Três anos depois, (agosto de 1900), seus pais se mudaram para Natal e o jovem teve que continuar seus estudos primários no Colégio Americano, conhecido como Colégio das Capas Verdes.

Em 1903, se transferiu para o Colégio Atheneu Norte Rio Grandense e, paralelamente, ingressou num curso noturno de náutica.

Quatro anos mais tarde, (1907), embarcou no navio "Maranhão" saindo no ano seguinte, para ser segundo piloto do navio "Pará".

Devido a um acidente de bordo interrompeu sua rápida carreira naval e, com problemas de saúde, desembarcou em Natal sendo aconselhado pelos médicos a abandonar a carreira.

No início de 1909, seu pai mandou-o para os EUA com US$300,00 e uma recomendação para que uma empresa de amigos lhe repassasse certa quantia mensal para sua manutenção.   

Euclides não perdera tempo e matriculou-se no "Drexell Institute" na Filadélfia onde, três anos depois se formaria em Engenharia Mecânica.

Além de estudar, Pinto Martins trabalhava como estagiário na "Baldwin Locomotive", uma fábrica de vagões.

Casou-se com Gertrudes Mc Mullan e regressou ao Brasil logo após a formatura no ano de 1911.

Convidado por seu pai, passou a residir em Natal, onde passou a trabalhar como engenheiro na "Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca" e na Estrada de Ferro.

Na capital do Rio Grande do Norte nasceu a sua primeira filha: Ceres em 1914, que viria a morrer, tragicamente, aos 31 anos de idade num acidente de avião em Porto Rico, com seu marido.

No final da 1º Grande Guerra mudou-se para Recife onde viveu por dois anos.

Ingressou na Loja Maçônica "Segredo e Amor" - a maçonaria foi outro fato marcante na vida de Pinto Martins.

Em 1918, faleceu sua jovem mulher o que o fez retornar aos EUA.

Associou-se a Ladislau do Rego, e juntos, compraram um navio com  a idéia de criar, no Brasil, uma companhia de navegação de cabotagem. Lamentavelmente, o negócio não deu certo, pois o navio afundou.  

Euclides permaneceu na América, enquanto seu sócio, neste negócio fracassado, voltou ao Brasil terminando assim, sua primeira tentativa de fazer algo grandioso.

Euclides casou-se novamente com uma americana Adelaide Sulivan, advogada e doze anos mais velha que ele, tendo lhe dado em 1920 uma filha: Adelaide Lillian.

Sua morte - Apesar de tantas glórias, Euclides Pinto Martins teve muitas dificuldades conseqüentes de suas aventuras. Dívidas adquiridas precisavam ser pagas. Após o "Raid", a fama e a glória, ele sentia o peso de ser um homem comum e com pouco dinheiro.

Sua mulher se recusava a morar no Brasil e entrara com a ação e divórcio além de uma forte para que pagasse o dinheiro emprestado para financiar o evento (U$19.000).

No dia 12 de abril de 1924 Pinto Martins foi encontrado morto em seu quarto com um tiro na cabeça, vitimado talvez por uma crise de depressão.

Nada mais se sabe a respeito de sua morte dada oficialmente como suicídio.

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