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Cearense foi co-piloto
no primeiro vôo dos EUA ao Brasil
Por Caio César Muniz
N dia 4 de setembro
de 1922, o cearense Euclides Pinto Martins e o piloto
brasileiro Walter Hilton iniciaram, na Flórida, já depois
de uma tentativa frustrada, o primeiro vôo partindo
dos Estados Unidos da América para o Brasil.
Euclides conseguiu
o "brevet" de piloto em 1921.
Com sua entrada no
meio aeronáutico, conheceu Walter Hilton, instrutor
de vôo na Flórida.
Com o novo amigo e
a afinidade de idéias, resolveram realizar um velho
sonho do cearense: atravessar o Atlântico numa viagem
de avião partindo de Nova Iorque ao Rio de Janeiro,
desbravando assim aquela rota aérea.
A idéia encontrou eco
na mente de seu colega e, juntos, começaram a trabalhar.
Lutaram com força de vontade e, finalmente, conseguiram
um banqueiro: Andrew Smith Jr. que asseguraria verbas
para o atrevido projeto.
Assim, contrataram
da Fábrica Curtis um hidroavião biplano com 28 metros
de envergadura e dois motores "liberty" de
400 hp, cada. A máquina voadora pesava oito mil
quilos! Depois do avião pronto decidiram batizá-lo de
Sampaio Corrêa" em homenagem ao senador e
presidente do Aeroclube do Rio de Janeiro.
A tripulação estava
composta pelo piloto Walter Hinton, pelo co-piloto Euclides
Pinto Martins, o mecânico de bordo John Edward Wilshusen,
da Fábrica Curtiss, e para retratar a travessia George
Thomas Bye, jornalista do "New York Word"
e o cinegrafista John Thomas Baltzel da Pathé News.
O hidroavião com sua
equipe deveria decolar no dia 16 de agosto de 1922,
mas ao colocá-lo no Rio Hudson, houve uma pequena avaria
na asa esquerda, adiando então sua partida. Por fim,
no dia 17 de agosto do mesmo ano decolou do estuário
do Hudson o majestoso "Sampaio Corrêa", aplaudido
por milhares de pessoas.
A meteorologia que
iniciava seus estudos previa riscos de tempestades,
mas a equipe, afoita, não se importou e decolou sumindo
no horizonte, assistidos das margens do Rio Hudson entre
as ilhas de Manhatam e New Jersey.
Partiram dia 21, às
11:00 horas, e amerissaram em Nassau, onde pernoitaram,
seguindo de manhã com destino a Porto Príncipe,
no Haiti. Neste trecho foram surpreendidos por forte
borrasca, perderam altitude e caíram no mar por volta
das 20:00 horas, ao leste da ilha de Cuba, além do Cabo
Maisi.
Assim terminava a primeira
tentativa.
Mas Pinto Martins e
seus amigos não enfraqueceram, continuaram com a idéia
de provar que uma rota aérea ligando as Américas (norte
e sul) era viável.
Assim, acabaram conseguindo
que o Jornal "The New York Word" lhes dessem
um outro avião para continuação da viagem.
Era um hidroavião com
seis anos de uso, que pertencera a Base.
Graças a esta doação,
em 4 de setembro do mesmo ano, em São Petersburgo, na
Flórida receberam a nave e batizaram-na de Sampaio Corrêa
II.
No dia 1º de dezembro,
pousam no Brasil, no Rio Cunani, no Pará, ao norte da
foz do Rio Amazonas, prosseguem para a Ilha de Maracá,
Belém, e Bragança onde são obrigados por um temporal
a pousar no Rio Caeté.
Passaram três dias
em Bragança seguido viagem para São Luís, depois para
a Baía de São Marcos desembarcando na ilha de São Luís,
no Maranhão.
No dia 19 pousam em
Camocim, terra natal de Pinto Martins.
Depois de muitas homenagens,
partiram no dia seguinte para Aracati, sem pousar em
Fortaleza por dificuldades de amerissagem nas águas
agitadas da enseada do Mucuripe.
Pernoitaram em Aracati
e voaram para Natal onde dormiram um sono reparador.
Cedo decolavam em direção
ao sul, mas, mal viajaram 50 milhas o motor de bombordo
apresentou um problema.
Estavam sobrevoando
ainda o território Potiguar, perto de Canguaretama,
Baía Formosa, e uma grave pane no motor esquerdo forçou-os
a amerissar na citada Baía.
Só conseguiram o conserto
das peças em Pernambuco, mais exatamente em Recife.
A viagem quase terminou
por ali, não fosse o comandante da Aviação Naval, Capitão
de Mar e Guerra, Protógenes Guimarães que vendo a situação
desesperadora dos viajantes com o motor irrecuperavelmente
danificado, doou-lhes um novo.
O futuro mostraria
que este comandante teria pela frente uma bela carreira
e chegaria a ser Ministro da Marinha.
Finalmente, às 11:32
horas do dia 8 de fevereiro de 1923, o avião é avistado
sobrevoando a Baía da Guanabara! Ao pousar foram
recebidos na lancha "Independência" do
Ministério da Marinha, onde o primeiro a ser abraçado
pelo senador Sampaio Correia foi Pinto Martins
seguido por Hilton, o piloto, George Thomas, o jornalista
e por fim o cinegrafista John Thomas que, afinal, filmava
o evento!
Biografia - Euclides
Pinto Martins nasceu em Camocim, no Ceará, a 15 de abril
de 1892. Entretanto, só foi batizado e registrado três
meses depois, (28 de julho de 1892), em Macau, Rio Grande
do Norte.
O fato ocorreu porque
seu pai, Antônio Pinto Martins, natural de Mossoró,
foi convidado para representar a Companhia de Salinas
Mossoró Assu naquela cidade.
Sua mãe chamava-se
Dona Maria Araújo do Carmo Martins.
Euclides era considerado
um garoto de inteligência incomum.
Aos cinco anos (1897)
já começava a estudar na escola pública local.
Três anos depois, (agosto
de 1900), seus pais se mudaram para Natal e o jovem
teve que continuar seus estudos primários no Colégio
Americano, conhecido como Colégio das Capas Verdes.
Em 1903, se transferiu
para o Colégio Atheneu Norte Rio Grandense e, paralelamente,
ingressou num curso noturno de náutica.
Quatro anos mais tarde,
(1907), embarcou no navio "Maranhão" saindo
no ano seguinte, para ser segundo piloto do navio "Pará".
Devido a um acidente
de bordo interrompeu sua rápida carreira naval e, com
problemas de saúde, desembarcou em Natal sendo aconselhado
pelos médicos a abandonar a carreira.
No início de 1909,
seu pai mandou-o para os EUA com US$300,00 e uma recomendação
para que uma empresa de amigos lhe repassasse certa
quantia mensal para sua manutenção.
Euclides não perdera
tempo e matriculou-se no "Drexell Institute"
na Filadélfia onde, três anos depois se formaria em
Engenharia Mecânica.
Além de estudar, Pinto
Martins trabalhava como estagiário na "Baldwin
Locomotive", uma fábrica de vagões.
Casou-se com Gertrudes
Mc Mullan e regressou ao Brasil logo após a formatura
no ano de 1911.
Convidado por seu pai,
passou a residir em Natal, onde passou a trabalhar como
engenheiro na "Inspetoria Federal de Obras Contra
a Seca" e na Estrada de Ferro.
Na capital do Rio Grande
do Norte nasceu a sua primeira filha: Ceres em 1914,
que viria a morrer, tragicamente, aos 31 anos de idade
num acidente de avião em Porto Rico, com seu marido.
No final da 1º Grande
Guerra mudou-se para Recife onde viveu por dois anos.
Ingressou na Loja Maçônica
"Segredo e Amor" - a maçonaria foi outro fato
marcante na vida de Pinto Martins.
Em 1918, faleceu sua
jovem mulher o que o fez retornar aos EUA.
Associou-se a Ladislau
do Rego, e juntos, compraram um navio com a idéia
de criar, no Brasil, uma companhia de navegação de cabotagem.
Lamentavelmente, o negócio não deu certo, pois o navio
afundou.
Euclides permaneceu
na América, enquanto seu sócio, neste negócio fracassado,
voltou ao Brasil terminando assim, sua primeira tentativa
de fazer algo grandioso.
Euclides casou-se novamente
com uma americana Adelaide Sulivan, advogada e doze
anos mais velha que ele, tendo lhe dado em 1920 uma
filha: Adelaide Lillian.
Sua morte - Apesar
de tantas glórias, Euclides Pinto Martins teve muitas
dificuldades conseqüentes de suas aventuras. Dívidas
adquiridas precisavam ser pagas. Após o "Raid",
a fama e a glória, ele sentia o peso de ser um homem
comum e com pouco dinheiro.
Sua mulher se recusava
a morar no Brasil e entrara com a ação e divórcio além
de uma forte para que pagasse o dinheiro emprestado
para financiar o evento (U$19.000).
No dia 12 de abril
de 1924 Pinto Martins foi encontrado morto em seu quarto
com um tiro na cabeça, vitimado talvez por uma crise
de depressão.
Nada mais se sabe a
respeito de sua morte dada oficialmente como suicídio.
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