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Entrevista

Maria da Conceição Dantas

A entrevistada de hoje é a socióloga Maria da Conceição Dantas. Uma feminista que há muitos anos ergueu sua bandeira de liberdade e como coordenadora do Centro Feminista 8 de Março vem lutando contra as desigualdades sociais, a falta de liberdade e a violência. Ela fala de como é possível mudar toda uma sociedade através da igualdade de direitos para homens e mulheres e de como o movimento feminista vem contribuindo para muitas conquistas das mulheres, ressaltando a felicidade em fazer parte da entidade que está completando uma década de existência com muitas coisas para comemorar.

Por SAYONARA AMORIM

O Mossoroense – Como você avalia o movimento feminista na atualidade?

Conceição Dantas – O movimento feminista viveu várias fases, por exemplo, anterior a década de 60 as mulheres lutavam pelo direito ao voto, nos anos 60, aconteceu a segunda onda do feminismo onde a mulher lutava pelo direito à sexualidade quando surgiram várias campanhas como: “Quem ama não mata”,  “O nosso corpo nos pertence”, entre outras. Foi também nesta segunda onda feminista que a mulher começou a defender causas sociais como a luta contra a ditadura militar. Hoje nós estamos numa outra fase do movimento, a Marcha Mundial das Mulheres que mobiliza mulheres do mundo inteiro, acontecendo em 167 países, é uma forma de internacionalização das ações feministas. O movimento feministas hoje se configura mais na igualdade entre os grupos, por que nós feministas acreditamos que somente haverá igualdade entre homens e mulheres com união.

OM – Qual é principal luta do feminismo hoje?

CD – É pela igualdade entre os povos.

OM – Desde a criação do movimento feminista, quais foram as principais conquistas?

CD – Nós tivemos algumas conquistas importantes, por exemplo, conquistamos o direito de decidir sobre nossos parceiros, o direito à sexualidade, conquistamos o direito da criação de uma delegacia especializada para tratar dos assuntos voltados para a mulher, mas a nossa principal conquista foi a incorporação do movimento feminista em outras instituições. Aqui em Mossoró o movimento é muito evidente, seja no 8 de março, ou em outras datas comemorativas o tema feminismo está muito difundido e muito aceito e isso é uma grande conquista. Hoje o feminismo é encarado como um movimento que luta pela igualdade e é esta a nossa luta.

OM – No Dia Internacional da Mulher as mulheres têm o que comemorar realmente, já que desde a criação do feminismo existe uma soma de conquistas em favor das mulheres?

CD – Eu sempre quero crer que o 8 de Março é um dia de luta. Temos muitas coisas para comemorar, mas, mais do que comemoração o Dia Internacional da Mulher é um dia de luta. É dia de luta pela paz, dia de luta por igualdade, contra salários desiguais para funções iguais, é um dia de luta contra o machismo que existe na sociedade. O 8 de Março é nada mais que um dia de reativação da luta cotidiana de um ano inteiro.

OM- Como o movimento feminista vê a mulher trabalhadora, já que você citou a questão de funções iguais e salários desiguais entre os sexos?

CD – Infelizmente a lógica das empresas é que pelo fato das mulheres terem suas obrigações domésticas, isso deve ser descontado de seus salários. Como se ter obrigações domésticas as fizessem menos capazes que os homens. É por isso que defendemos que as tarefas domésticas sejam compartilhadas e que a igualdade comece dentro de casa. Até hoje as mulheres ainda não se emanciparam do trabalho doméstico.Na última pesquisa do DIEESE foi divulgado que a mulher ocupa mais de 40% da mão-de-obra no Rio Grande do Norte, mas sabemos que a maior parte dessas trabalhadores realiza trabalhos periféricos e ganha salários menores. No mundo do trabalho existe uma forte discriminação com as mulheres.

OM – O machismo ainda predomina?

CD – Existem muitos homens que já mudaram sua visão, isso porque a luta por igualdade não é só das mulheres e sim de todas as pessoas que têm o compromisso com as mudanças. Mas o machismo ainda é muito presente. Um exemplo disso são as letras de músicas voltadas para a depreciação da figura feminina, que consideramos “lixo musical”. O mundo hoje está mais conservador em relação as mulheres, neste sentido das músicas, de impor um padrão de beleza determinado pelo consumismo onde a mulher precisa fazer plástica, usar muitos cosméticos, fazer regimes rigorosos para atender a essa exigência. Isso nada mais é que mais uma forma de opressão e que configura para nós como regime conservador.

OM – Qual é a principal missão do CM8?

CD – A nossa missão é contribuir para a construção do feminismo em Mossoró e Região Oeste. Seja na aliança com os movimentos sociais, seja na auto-organização das mulheres. Nós trabalhamos com a organização de grupos de bairros, assentamentos rurais e trabalhamos em parceria com os movimentos sociais organizados.

OM – Quais as ações sociais desenvolvidas pelo CM8?

CD – Nós temos três linhas de ação. Uma é a mobilização e a auto-organização dos grupos atuando em áreas de saúde, violência, na formação de lideranças e o trabalho com a juventude mostrando para as mulheres jovens a importância que é o feminismo para que elas tenham auto-determinação sobre suas vidas e isso contribui para que elas não optem pelo caminho da prostituição ou mesmo das drogas.

OM – Com a criação de uma delegacia de defesa da mulher e a atuação do feminismo cada vez mais presente na vida das mulheres, é possível dizer que a violência contra a mulher diminuiu? Que as mulheres que são violentadas estão denunciando mais?

CD – As pesquisas que nós pudemos fazer é a partir das denúncias, mas sabemos que o número de mulheres que não denuncia é bem maior do que o que denuncia a violência. A única forma da mulher criar coragem para denunciar é participando de grupos de mulheres que é onde ela consegue recuperar a auto-estima.

OM – O CM8 sobrevive financeiramente de quê?

CD – Nós elaboramos projetos para organizações internacionais que apóiam as transformações sociais. Nós temos apoio de entidades da Holanda e da Suíça e também contamos com o apoio financeiro do governo federal através do Ministério do Desenvolvimento Agrário que nos possibilita executar trabalhos com mulheres da zona rural.

OM – Como vai ser a festa dos 10 anos do CM8?

CD – Para nós este momento é muito significativo por que estamos fazendo o resgate de toda a história da entidade. A programação é toda festiva e muito variada. Apesar do tema “Pela Paz e contra a Guerra”, nós estamos comemorando estes dez anos de luta e queremos reativar o nosso movimento.  

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Mossoró-RN, domingo, 9 de março de 2003