GERALDO MAIA
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUARTAS
 

O motim das mulheres

Em 31 de agosto de 1875 acontecia em Mossoró um movimento revoltoso que ficaria conhecido na historiografia local como “A Revolta das Mulheres” ou “O Motim das Mulheres”. Naquele dia, cerca de trezentas mulheres saíram pelas ruas em passeata, com o objetivo de protestar contra a obrigatoriedade do alistamento militar.

Tudo começou quando o gabinete do Visconde do Rio Branco aprovou o regulamento do recrutamento para o Exército e Armada. Esse regulamento teve repercussão desfavorável na Província do Rio Grande do Norte, onde várias comunidades se levantaram em sinal de protesto. Ninguém desejava que seus filhos fossem apanhados para o serviço militar, notadamente quando era sabido das intenções dos chefes políticos dominantes em darem sua preferência a filhos de adversários, como estava acontecendo em Mossoró. Desse modo, tomando conhecimento de levantes que estavam acontecendo em outros municípios, as mulheres mossoroenses promoveram uma manifestação e conseqüente passeata pelas ruas da cidade, rasgando os editais afixados na Igreja Matriz de Santa Luzia e dirigindo-se à casa do escrivão do juiz de Paz de quem tomaram e rasgaram o livro e papéis relativos ao alistamento. Partiram depois para a redação do jornal “O Mossoroense”, onde destruíram cópias dos mesmos que ali estavam para serem publicadas. Concluída a tarefa da destruição dos editais, as revoltosas partiram para a Praça da Liberdade, onde entraram em choque corporal com um grupo de soldados da Força Pública que ali estavam para dominar a rebelião. Algumas saíram feridas, não se agravando mais o movimento graças a interferência de pessoas neutras que foram ajudar a acabar com a confusão.

Encabeçando o movimento estava Ana Floriano, uma mulher forte, de olhos azuis, cabelos louros e estatura considerada acima do normal para o seu sexo, juntamente com D. Maria Filgueira, esposa do Cap. Antônio Secundes Filgueira e  D. Joaquina Maria de Góis, genitora do historiador Francisco Fausto de Souza.

Logo após o movimento, o juiz de Direito, Dr. João Antônio Rodrigues, comunicou o fato ao presidente da Província, bacharel João Bernardo Galvão Alcanforado Júnior, que mandou instaurar inquérito contra a promotora do motim das mulheres, cuja peça processual desapareceu do arquivo do Departamento de Segurança Pública.

Em seu depoimento, o Dr. João Antônio Rodrigues afirma que o movimento contou com um número de cinqüenta a cem mulheres e que as mesmas eram lideradas por  D. Maria Filgueira, mulher do capitão Antônio Filgueira Secundes, 3º suplente de juiz municipal deste Termo, juntamente com D. Joaquina de Tal e D. Ana de Tal, que mal aconselhadas por seus maridos e parentes cometeram o criminoso ato. O referido juiz não admitia que o movimento tivesse partido das mulheres e sim do capitão Antônio Filgueira Secundes, seu adversário político, que assim procedera para lhe prejudicar. Quanto ao número das revoltosas? “De cinqüenta a cem mulheres”, foi o que ele disse para diminuir a gravidade do movimento. E quanto a D. Ana de Tal, tratava-se de D. Ana Floriano, assim chamada por ser esposa de Floriano da Rocha Nogueira, pais do jornalista Jeremias da Rocha Nogueira, fundador  do jornal “O Mossoroense”.

O historiador Vingt-un Rosado, com o intuito de dirimir as dúvidas que envolviam o  fato histórico, colheu depoimento de Francisco Romão Filgueira, prócer abolicionista de 1883, falecido a 7 de setembro de 1958, que havia presenciado o fato. Segundo o mesmo, o movimento teria contado realmente com cerca de trezentas mulheres e que as mesmas eram chefiadas por D. Ana Floriano.

O episódio ocorrido em Mossoró não foi um caso isolado, tendo acontecido semelhante manifestação em outros pontos da Província. O que diferenciou o movimento de Mossoró dos demais, foi o fato de ter sido organizado e executado apenas por mulheres. Eram, em sua maioria, mães preocupadas com o destino dos filhos, envolvendo-se numa luta insana para proteger aqueles que amavam.

(Para conhecer mais sobre a história de Mossoró visite o site: www.mossoro.cjb.net).

 

GERALDO MAIA

E-MAIL: gemaia@bol.com.br

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Mossoró-RN, de 2003