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Bicho solto
Guilherme Piva
Temporariamente livre da maldição do vampiro Bóris, interpretado por Tarcísio Meira, o Monstro do Espelho não perde um minuto de sua estada no “mundo real” de “O Beijo do Vampiro”. A sensação de “deslumbramento” é a mesma experimentada por seu intérprete, o ator Guilherme Piva. Depois de passar meses gravando suas cenas sozinho, ele não esconde a satisfação por contracenar de verdade com personagens como o próprio Bóris, Zeca, vivido por Kayky Brito, ou as inúmeras mulheres com quem Rodolfo Roberto gasta sua lábia. “Às vezes, parecia que eu estava fazendo uma novela à parte. Não conhecia nenhuma das brincadeiras dos sets”, queixa-se, incorporando o jeito “pidão” do Monstro aprisionado.
Nas indicações do autor Antônio Calmon, Rodolfo seria uma mistura de Zé Bonitinho e Alberto Roberto, personagens imortalizados por Jorge Loredo e Chico Anysio. Mas Guilherme se inspirou também em “O Máskara”, interpretado por Jim Carrey. “Minha contribuição foi dar um ar surtado ao perfil de galã que o Calmon sugeriu”, explica o ator, que já teve de voltar à solidão e ao gestual mais contido do personagem dentro do espelho. Na próxima semana, Bóris põe o empolgado malandro de volta ao seu lugar.
P - Quais foram seus principais cuidados ao fazer a transição do personagem do espelho para fora dele?
R - Na verdade, o perfil dele já veio muito bem definido pelo Calmon. Acho que tive até um excesso de criatividade ao ler o texto. Minha maior preocupação foi dar a ele um ar meio “pilhado”, como se esta saída tivesse sido um surto. Como ele ficou séculos aprisionado, tentei andar de uma forma bem expansiva, fazer gestos largos, dançar, utilizar muito bem o corpo, como se ele tivesse uma espécie de sede de ocupar o espaço. Vendo as cenas, acho que, se ele ficasse mais tempo, teria até de dar umas aparadas em algumas coisas, porque tenderia a se acalmar um pouco. E surgiriam coisas novas no contato com os outros atores, que é a principal fonte de inspiração de qualquer trabalho.
P - Deve ter sido difícil, então, ficar tanto tempo sem contracenar com ninguém...
R - Esta foi a pior parte. Tenho um enorme prazer em ver como a cena rola com os outros atores. Como não recebia nada de ninguém, já tinha de ir bolando as coisas enquanto decorava o texto. E o mais difícil era imaginar as reações dos atores, porque, na tela, o Monstro contracenava com os outros personagens, mas, nas gravações, era eu sozinho.
P - Quais foram as principais dificuldades na hora de gravar as cenas no espelho?
R - Agora, já está tudo bem mais orgânico. Não posso expandir muito os gestos, tenho de ter uma precisão corporal muito grande... O mais difícil é o equilíbrio entre a precisão, o texto decorado e a loucura que deve ser o personagem. Tenho de soltar a imaginação, ter leveza, fazer uma criatura surtada. E tudo contribuía contra: a maquiagem me repuxando a pele, aquelas unhas enormes, o espaço reduzido. Até o momento em que resolvi usar tudo isso a favor. Decidi que a irritação, o incômodo e o desconforto eram sensações dele por estar aprisionado naquele lugar.
P - O que você fez para humanizar o personagem?
R - A mesma preocupação que tive ao fazê-lo sair do espelho, já tinha antes. É o princípio do meu trabalho: a verdade é a base de tudo. Quanto mais longe de mim estiver o personagem, mais verdade tento colocar nele. Eu acredito piamente que sou um monstro injustiçado e ponto final. Não fiquei fazendo palhaçadas simplesmente. Pensei numa pessoa injustiçada, transformada num monstro, aprisionada, e que ainda tem de ficar agradando o seu algoz para tentar a liberdade. Não é um monstro para assustar, e nem é amargo.
P - Mas é uma criatura bastante exagerada...
R - No princípio, tentei partir só da emoção. Mas vi que, na tela, não funcionava muito, porque havia muitos efeitos especiais em cima do que eu fazia. Tinha de ter um desenho a mais e aí comecei a subir alguns tons. Parti para o melodrama, que é bem mais exagerado, mas não menos verdadeiro.
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Mossoró-RN, domingo, 13 de abril de 2003