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LÍRIA NOGUEIRA ALVINO – Escritora – antonialiria@uol.com.br

Sempre fora uma mulher normal. Casada, com dois filhos, dois ex-maridos, já havia, juntando tudo, mais de sete anos. Casara nova, vinte e dois anos da primeira vez. E sua vida até então tinha sido muito par, dois filhos, dois maridos e casara aos vinte e dois.

Hoje, aos trinta e seis, sentia-se sozinha e humilhada pela vida e, às vezes, ouvia-lhe as gargalhadas como quem zomba de uma grande besteira feita e sem volta para desfazer.  Teria que tocar em frente.

Homem dá trabalho! Pensava. Depois de dois casamentos, a única coisa que queria era de fato criar os filhos e se dar bem da maneira que fosse possível. Chega de obrigação, de ter cuidado, passa roupa, faz almoço, orienta a empregada que sempre, sempre se comporta numa total desorientação. Faz as contas, saca a pensão do filho mais velho no banco.

– Mãe, tem excursão no colégio na segunda, tem que pagar uma taxa de vinte reais.  Eu vou, né?

– Não sei, peça a seu pai.

E já não havia tempo, nem vontade suficiente para pensar sobre isto, ela não sabia mesmo.

E a única certeza era de que não queria mais homem para morar com ela.  Primeiro, porque certas coisas em certas situações tornam-se difíceis de serem exigidas. Por exemplo, uma mulher que já tenha passado por dois casamentos fica meio sem poder de escolha no critério marido bom. Porque os bons maridos geralmente estão ainda com suas primeiras esposas, não se separaram, ou porque também por motivos óbvios os futuros bons maridos hão de querer casar-se com mocinhas sem maridos e preferencialmente sem filhos que  ninguém é doido de criar filho de seu ninguém. O pai que tenha suas obrigações.

Então, ela tocava a vida sem muito lero-lero. Estava procurando emprego para sentir-se um pouco independente, mais só um pouco, porque a insegurança adquirida nas dependências de seus casamentos fez dela uma mulher frágil e nervosa e também já trabalhara muito limpando casa e cuidando dos filhos dos ex-maridos. E olhe que as casas em que morara eram um brinco! Ela passava o pano molhado no chão e o espremia em duas águas limpas diferentes para garantir a limpeza e a higiene de que um dos maridos gostava.  Besteira. Nada disso era de fato importante.

Fora burra, dependente, fútil e sem perspectiva. Só agora enxergava a realidade de sua vida.

Nesse momento em casa já estavam todos deitados. Todos, os filhos, que ela realmente não morava com ninguém. Tinha medo, medo de que a pessoa maltratasse os filhos, não os aceitasse, ou quisesse competir com eles; medo de que os filhos não aceitassem a pessoa e, dessa maneira, sofressem; medo do que pensariam os pais dos meninos: e se reduzirem a pensão? E se privarem os meninos das coisas? E se pensarem que o dinheiro vai para o homem? Melhor não arriscar.

Há tempos não se apaixonava porque o coração estava no congelador da geladeira, que, por sinal, era a do primeiro casamento e estava precisando ser trocada por outra. Mas, entre a geladeira e uma roupa nova, preferiu a roupa que a vestiria de maneira elegante e tornando-a atraente, quem sabe, não descolava um senhor rico, viúvo, ou igualmente divorciado para lhe sustentar de maneira confortável os dias para a frente.

O conforto dela dependia da pensão dos meninos e ela tinha o que comprava com o dinheiro deles. O que absolutamente não lhe causava constrangimento algum. Mas o fato de ter para si dinheiro regrado é que era. Fechou os olhos e por instantes sentiu saudades dos tempos da aliança na mão esquerda. Precisando, era só pedir aos maridos, que sempre foram homens bons, bestas para as mulheres.

Nascera para ter as coisas, mas está notando que ela própria se perdeu nas significações do tempo. E vê-se sem rumo. Sempre fora bela, grande e vistosa e, por conta desses atributos inegavelmente evidentes, passara por boas companhias. Mas, o que lhe sobrava em beleza, faltava em tato e discernimento para tocar uma relação.

– Estão fazendo uma obra de lado do meu prédio. Dizem que vai ser uma clínica psiquiátrica. Eu vi o doutor, dono da clínica. Ele me olhou de um jeito...

– Que jeito? – quis saber a amiga,vislumbrando um romance.

– Ele me chamou para trabalhar de secretária para ele, e eu vou.

– Você nem sabe digitar.

– Fiz um cursinho de computação.

Ela não queria emprego, nem reconhecimento profissional. Ela era uma dona de casa de carteirinha e era boa nisso, faria as vezes de secretária, faria o doutor gostar dela, eles teriam um caso, ele pagaria suas contas. Para não dar bandeira, ela pararia de trabalhar na clínica e, vivendo na sua casa, com seus filhos, sem obrigações de marido e com o doutor lhe provendo, quem sabe, seria feliz.

O jornal como uma empresa

IVANALDO XAVIER – Jornalista, especialista em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente e mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – presidente do Centro Social Francisco Dantas e do Conselho Municipal de Assistência Social – E-mail: jidx@bol.com.br

A manutenção de um jornal impresso é algo muito difícil e onerosa, mas não impossível. A química para se chegar ao sistema ideal passa obrigatoriamente pelo conhecimento, não apenas administrativo e financeiro, mas de jornalismo, também, pois é preciso que o administrador tenha consciência de que o jornal não se provém apenas com os anunciantes, pois são os leitores que fornecem o principal argumento para a venda dos espaços publicitários.

        Corre um enorme risco o administrador que se lança na aventura de querer apontar quaisquer dos cadernos do seu jornal apenas como um gerador de despesas, sem lembrar que toda editoria detém os seus leitores habituais e que, mesmo não tendo a preferência dos anunciantes, servem a estes exatamente quando ajudam na venda do exemplar e, conseqüentemente, na divulgação dos anunciantes em determinados grupos, que também são consumidores.

        A única forma de se mensurar a capacidade de atração de leitores de cada um dos cadernos ou páginas do jornal é a pesquisa de opinião pública, que representa um custo a mais na contabilidade e, por isso, termina por determinar o uso do “olhômetro”, um mecanismo nada científico e causador de muitos erros administrativos, especialmente quando o administrador não derrama sobre o veículo administrado um olhar de jornalista, mas apenas o do empresário.

Outros grandes erros cometidos na administração dos veículos impressos são as reformas na diagramação das páginas, sem levar em consideração as pesquisas científicas já realizadas sobre o assunto. Essas pesquisas constatam que as páginas mais importantes dos jornais são as de números pares, pois são nelas que os leitores se detêm durante mais tempo nas suas leituras diárias.

E mesmo nestas páginas, existem os pontos mais importantes, pois o leitor, quando está fazendo a sua leitura, percorre as páginas do jornal no sentido diagonal do canto superior esquerdo para o canto inferior direito. Portanto, o editorial, que é a posição formal e oficial do jornal sobre determinados assuntos, deve estar posto, indiscutivelmente, em uma página de número par e em seu canto superior esquerdo.

Este posicionamento, que já é comum nos grandes jornais, pelo menos em sua maioria, não é à toa, nem muito menos um modismo ou um ato de maria-vai-com-as-outras, mas baseado exatamente nesta constatação. Seria interessante, então, explicar por que os leitores se detêm durante mais tempo nas páginas esquerdas (pares) do que nas direitas.

Não é nenhum ato ideológico ou político, mas apenas a determinação do tempo, que é escasso para todos nós. Simplesmente, o leitor quando se encontra na página esquerda já vislumbra do seu lado a página direita e já tem uma visão sobre o seu conteúdo, enquanto que ao chegar à página direita, não tem nenhuma visão sobre o conteúdo da página seguinte e tem pressa em passar esta página.

Como podemos ver, além dos atos administrativos propriamente dito, os administradores de jornais devem ter também a preocupação em não extrapolar as suas funções, pois ao editor cabe tomar as decisões do que deve ou não permanecer como conteúdo com páginas ou cadernos determinados, bem como a sua localização. Os administradores devem, sim, com base no conteúdo dos seus jornais, determinado pelo editor geral, colocar as suas equipes na rua para trazerem mais anunciantes para todos os cadernos e páginas, convencendo-os de que cada espaço do jornal tem os seus leitores habituais.

Bombas sobre a humanidade

MARIÂNGELA FERNANDES DE FREITAS  - Poetisa e pedagoga da Serra do Martins-RN

Estaremos mesmo no século XXI? Não seria na Idade Média? Assistimos passivos ao massacre; à carnificina que se derrama sobre Bagdá, capital do Iraque. Briga de touros brabos, dando cabeçadas nas areias quentes do deserto asiático. Se fosse aqui, no sertão nordestino, eu diria: briga descomunal de dois jumentos brabos e feridentos – Bush e Saddam.

A troco de que, jovens senhores, que mais lhes falta? Porventura não terão à mesa fartura de alimentos deliciosos e nutritivos, muitos dos quais nunca chegaremos a provar?

E o petróleo, senhor Bush, quantos veículos possuis para tamanha ambição? Se não é apenas o petróleo, quer implantar a hegemonia mundial? O mundo a seus pés? Ô meninos arengueiros, passem já para dentro e vou lhes encourar para quando crescerem não virarem ladrões da tranqüilidade alheia; pra não assustarem as criancinhas inocentes com suas caras de mal; pra não varrerem do coração das mulheres um pouco da dignidade que ainda lhes resta e pra não destruírem os sonhos dos homens de Bagdá.

Vá sossegar, menino Bush. Vá se aquietar, menino Saddam. Deixem as negociações de paz serem conduzidas por homens de juízo, pois neste planeta existem muitos. Vão dormir, meninos mal-criados e sonhar com um amanhã de PAZ.

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Mossoró-RN, domingo, 13 de abril de 2003