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Questão de gosto não se discute, o bordão está certo. Entretanto, se a questão é de mau gosto extremo, deve ser discutida, sim! Não é possível que agora, após usufruirmos de uma história tão rica e fértil dentro da música nacional, ou mesmo estrangeira, passemos de repente, não mais do que de repente, à miserável condição de seres merdícolas, de estúpidos e alienados rola-bostas da indústria fonográfica. Talvez o que direi neste momento soe e cheire mal, mas o tempo da ditadura (que torço para que jamais retorne) deu muito mais poetas e poesia à música deste país. Como é deprimente ouvir esses tantos locutores mentecaptos em suas rádios mercenárias estuprando com o sucesso do momento a inteligência amébica desses ouvintes idiotizados! Perdoai meu pouco asseio verbal, mas vivemos a era escatológica da coprofagia sonora. Nossas crianças, adolescentes, jovens — e mesmo adultos imbecis — estão consumindo “merda” e achando bom. O mundo se afunda (adivinhe você a rima) numa grande e ruidosa cloaca. Estamos em avançado estado de putrefação cultural. Aqui mesmo nesta sala onde cometo esta má-criação literária, um colega de trabalho executa a todo volume o seu repertório cacete. Numa dessas “músicas” que sou obrigado a ouvir, um ruminante compositor relincha a plenos pulmões o seu amor edipiano por uma certa “Egüinha Pocotó”, a mater originalis desses filhos da égua. Não bastasse, o colega ao lado vai cantarolando, isto é, ruminando sua porção de funk-capim. Gratidão Embora não tendo muito gosto pelo dia dos meus anos, que me acomete a cada 10 de abril, quero agradecer pela memória e o carinho de tantos que remeteram suas palmas febris e seus silêncios amigos a este menino jurássico que hoje se encontra exatamente com trinta e três anos e três dias. Rota Batida Com apoio da Petrobras, o projeto Rota Batida, da renitente Coleção Mossoroense, chega ao seu centésimo título com o livro Os Dias de Domingo, do mestre jornalista e escritor Dorian Jorge Freire. Editado pela terceira vez, Os Dias de Domingo é a grande salvação da lavoura prosaica de Mossoró. Lançamento Juiz trabalhista e professor universitário, Zéu Palmeira Sobrinho, que atua na Vara do Trabalho de Mossoró, lançará em Natal no próximo dia 25, no Plenário do TRT, o seu terceiro livro, que se intitula Estabilidade. A obra é prefaciada por Francisco Fausto de Medeiros, ministro do TST. Dinossauro O experiente diagramador Paulo César Rodrigues, um típico dinossauro da profissão — ele que se aproxima dos vinte anos neste meio de vida profissional —, é o grande culpado pelas últimas e bem elaboradas capas de O Mossoroense. Quem é rei nunca perde a majestade. Para suas férias, o jornalista e poeta Marcos Bezerra planeja uma viagem de pau-de-arara a São Paulo em companhia do também poeta Antônio Francisco. Até o próximo dia 20, o artista plástico Careca mantém no teatro Alfredo Simonetti a exposição “Quadros de Santos”, aberta ao público das 9 ao meio-dia e das 15 às 17 horas. Sob o título Cartas da Europa, a editora Queima-Bucha, do poeta Gustavo Luz, publicará a correspondência que o grande Jaime Hipólito Dantas remeteu à família durante sua estada no exterior. Chega a livraria A.S Livros de Mossoró a boa estréia em romance do escritor baiano Carlos Barbosa, autor da sedutora A Dama do Velho Chico, com selo da editora carioca Bom Texto. “Morte aos parnasianos!” Eis o brado espirituoso e amigo com que o poeta modernista Mário Gerson saúda este tangedor de mulas nas rodas literárias de Mossoró. Oh, raça desunida! Enquanto o povo rumina o tal Fome Zero, a imprensa da região copia o infausto quadro global “Se vira nos trinta”. Arre égua! |
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Autores & Obras “A Metamorfose”: O Susto de Kafka Por CARLOS MEIRELES “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Este é o início do livro mais importante da obra do tcheco Franz Kafka (1883-1924). Susto em estado puro. Abordagem sem delongas. O escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, Nobel da literatura, ao se encontrar com esta novela na sua juventude ficou transtornado, melhor dizendo metamorfoseado, e pensou: “literatura também é isso!?...”. Acho que Kafka foi decisivo na sua transformação em escritor. Semana passada, resolvi encarar este cânone literário. Decidi entrar neste mundo kafkiano que tinha marcado tantos escritores ao longo dos tempos. Sartre, Joyce, Proust... Todos se renderam a esta força literária. Sentei e li. Não exijam de mim, simples amigo dos livros, a descrição fiel desse clássico. Kafka é inconfundível e inimitável. Possui e criou um estilo todo próprio, que, no início, incomoda e no final, beira ao encantamento. Em seu livro, temos a estória, até certo ponto simples e banal, de um personagem que se transforma, inexplicavelmente, em um inseto. O livro gira em torno desse fato e das reações sua e de sua família em torno desse susto e culmina com a morte do inseto-homem. Cada página, um encontro com este artífice da crueza das sensações e da indiferença. Todo esse absurdo é narrado com um texto seco, claro, privado de adjetivações e dos ridículos lugares-comuns que empestam a má literatura. No meio desse mar de sustos, um personagem beira à poética: a mãe de Gregor. Quando sua irmã, no afã de disponibilizar todo o quarto onde o inseto estava recolhido, promove a remoção dos móveis, a mãe, sempre a mãe, pára e se contrapõe a isso, indagando se não estariam, assim, reconhecendo a irreversibilidade do seu quadro. Beirando o sentimento do nojo. E a dúvida atroz: “Como reagiriam ao nosso estado? Seríamos entendidos? Ou exorcizados e defenestrados do nosso meio”. Pensar nisso dói, assusta, mas é necessário. Estamos em permanente processo de metamorfose humana e a não aceitação desse estado pelos outros leva ao banimento total da condição humana. Nesta hora, seremos banidos e apedrejados pela “maçã do pecado de ser diferente”, que penetra fundo na nossa alma-corpo, apodrece nosso corpo-espírito e nos leva à morte. |
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Mossoró-RN, domingo, 13 de abril de 2003