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Modelo
CARLOS NEWTON PINTO
Juiz presidente do Tribunal
Regional do Trabalho
cnbpinto@uol.com.br
O poeta queria pintá-la,
porque ela estava sem cor e tristonha.
E lhe respondeu a tardezinha,
pobre, ingênua e pura:
— “Quintana, meu amigo, meu velho,
não te dês, comigo, a esse trabalho,
continua os teus versos,
teu ofício não é a pintura”.
Eu metáfora
ELIS REGINA
Economista
Passeio pelos corações
busco encontrar meus devaneios
tenho plantado o afeto
procuro colher: mas perdera o chão
Confundo a mente alheia
preciso decifrar meu interior
Encanto desbravamentos
abandono as esperanças por medo
Permaneço metáfora
Tragédia
ANTÔNIO FRANCISCO
Sócio da Poema — Poetas
e Prosadores de Mossoró
Sem o fermento do amor
No trigo da humanidade,
Murcha o pão da caridade,
O bem machuca o perdão.
A preguiça forra o chão,
Deita a força de vontade;
No galho da humildade
Cai a folha e murcha a flor.
A mentira furta a cor
Do espelho da verdade,
Fica presa a liberdade
Num pesadelo profundo.
A dor não pára um segundo,
Brincando em cima da terra;
Falha a paz, estoura a guerra
Nos quatro cantos do mundo.
Tese em defesa
ALDACI DE FRANÇA
Professor e violeiro
Só defendo uma tese, a que se explica
Respaldada na força das razões
Se cansarmos os nossos corações
A distância entre nós não justifica
A seqüela, que eu nem sei se fica
Resultante que é de alguns conflitos
Que fez os corações pulsarem aflitos,
Será ínfima, jamais em nada implica
O problema terá resolução
Se chegarmos ao cerne da questão
E então, não resolvê-lo por quê?
Se carentes estamos de carinho
Como pássaros que estão longe do ninho
É assim que estou, não sei você.
Reclamo
DA COSTA RÊGO
Da Academia de Letras e do Icop
A Terra em que assistimos, está mal!
Há vislumbres de guerra, em toda parte!
E a volição dos povos se biparte
Em paz finita, e a raiva universal!
Àquele se se pondo esta, com arte,
Acende a pira do clangor mundial!
E em todo o mundo, a comoção é tal
Que se não ergue à paz um estandarte!
E a Pátria minha, que se armar devia...
Mas, não! Antes, cair numa apatia,
E divagar em néctares dulcíssimos!
Praza aos azúleos Céus, e praza a Deus,
Que meu País, por esses tentos seus,
Não sofra, nunca, dias amaríssimos!!
Elegia de inverno
MARA ERSTERNE
Terapeuta e musicista
Revejo-te, reflexo do que estou,
e desconheço-te há tanto tempo
que creio ser o mundo
não mais que o ferver
da água sobre o fogo...
Contenho-me olhando
teu rosto diluído
pelo que amor
denominam:
há grades fiéies
em tudo que se ama
como é certo haver
mistério em tudo
que é vivo e divaga.
Porque com sangue
tua alma é alma
(e porque te fazes
singularmente
de palavras várias),
o real se contorce
e tudo não passa
de vapores d’água...
Promessas
KÉZIA SILMARA
Sócia da Poema — Poetas
e Prosadores de Mossoró
Você estará comigo
Quando for noite fria?
Você estará ao meu lado
Quando a tristeza me visitar?
Você poderá segurar minha mão
Quando eu chorar
E me abraçar dizendo
Que tudo ficará bem?
Você irá sorrir
No meu momento mais feliz?
Você me ajudará quando
Mais errada eu estiver?
Você me perdoará quando
Eu tiver que deixá-lo,
E aceitará o fato
Porque este talvez
Será o único preço
Que devo pagar?
Você poderá um dia
Dizer que me ama,
Para que eu possa acreditar
Nas promessas fáceis
Que me fazem seus olhos?
Oração das águas
RICARTE BALBINO
Sócio da Poema — Poetas
e Prosadores de Mossoró
Que as águas encontrem
os caminhos que perdemos,
e os mares que não desaguamos.
Que as águas lavem
a mentira de nossas almas
e o pudor de nossos medos.
Que as águas levem
o ressentimento de outrora
e a dor dos sonhos desfeitos.
Que as águas aliviem
a sede de nossas ausências,
e ânsia desses desejos adiados.
Par constante
MARCOS FERREIRA
Ex-sapateiro e tangedor de mulas
Meia-noite regresso. A casa dorme.
Abro a porta da frente e acendo a luz.
Na parede encardida, quase informe,
O Amor confinado em sua cruz.
Corre pelo telhado um rato enorme!
— Chão de estrelas e céu de gabirus —
E esta cena a minh’alma ainda absorve
Sob os olhos sem brilho de Jesus.
Lá no quarto, estirada sobre o leito,
Já me espera a inimiga do meu sono
A gabar-se do mal que me tem feito.
Eis a infinda rotina e o sonho vão
De ser livre e feliz neste abandono,
Entre os cravos e a cruz da solidão.
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Mossoró-RN, domingo, 13 de abril de 2003