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Paulo Locatelli

Interligados

Entrevista


Modelo

 

CARLOS NEWTON PINTO

Juiz presidente do Tribunal

Regional do Trabalho

cnbpinto@uol.com.br

 

O poeta queria pintá-la,

porque ela estava sem cor e tristonha.

E lhe respondeu a tardezinha,

pobre, ingênua e pura:

— “Quintana, meu amigo, meu velho,

não te dês, comigo, a esse trabalho,

continua os teus versos,

teu ofício não é a pintura”.

Eu metáfora  

ELIS REGINA

Economista

 

Passeio pelos corações

busco encontrar meus devaneios

tenho plantado o afeto

procuro colher: mas perdera o chão

Confundo a mente alheia

preciso decifrar meu interior

Encanto desbravamentos

abandono as esperanças por medo

Permaneço metáfora

Tragédia  

ANTÔNIO FRANCISCO

Sócio da Poema — Poetas

e Prosadores de Mossoró

 

Sem o fermento do amor

No trigo da humanidade,

Murcha o pão da caridade,

O bem machuca o perdão.

 

A preguiça forra o chão,

Deita a força de vontade;

No galho da humildade

Cai a folha e murcha a flor.

 

A mentira furta a cor

Do espelho da verdade,

Fica presa a liberdade

Num pesadelo profundo.

 

A dor não pára um segundo,

Brincando em cima da terra;

Falha a paz, estoura a guerra

Nos quatro cantos do mundo.

Tese em defesa  

ALDACI DE FRANÇA

Professor e violeiro

 

Só defendo uma tese, a que se explica

Respaldada na força das razões

Se cansarmos os nossos corações

A distância entre nós não justifica

 

A seqüela, que eu nem sei se fica

Resultante que é de alguns conflitos

Que fez os corações pulsarem aflitos,

Será ínfima, jamais em nada implica

 

O problema terá resolução

Se chegarmos ao cerne da questão

E então, não resolvê-lo por quê?

 

Se carentes estamos de carinho

Como pássaros que estão longe do ninho

É assim que estou, não sei você.

Reclamo  

DA COSTA RÊGO

Da Academia de Letras e do Icop

 

A Terra em que assistimos, está mal!

Há vislumbres de guerra, em toda parte!

E a volição dos povos se biparte

Em paz finita, e a raiva universal!

 

Àquele se se pondo esta, com arte,

Acende a pira do clangor mundial!

E em todo o mundo, a comoção é tal

Que se não ergue à paz um estandarte!

 

E a Pátria minha, que se armar devia...

Mas, não! Antes, cair numa apatia,

E divagar em néctares dulcíssimos!

 

Praza aos azúleos Céus, e praza a Deus,

Que meu País, por esses tentos seus,

Não sofra, nunca, dias amaríssimos!!

Elegia de inverno  

MARA ERSTERNE

Terapeuta e musicista

 

Revejo-te, reflexo do que estou,

e desconheço-te há tanto tempo

que creio ser o mundo

não mais que o ferver

da água sobre o fogo...

Contenho-me olhando

teu rosto diluído

pelo que amor

denominam:

há grades fiéies  

em tudo que se ama

como é certo haver

mistério em tudo

que é vivo e divaga.

Porque com sangue

tua alma é alma

(e porque te fazes

singularmente

de palavras várias),

o real se contorce

e tudo não passa

de vapores d’água...

Promessas  

KÉZIA SILMARA

Sócia da Poema — Poetas

e Prosadores de Mossoró

 

Você estará comigo

Quando for noite fria?

Você estará ao meu lado

Quando a tristeza me visitar?

Você poderá segurar minha mão

Quando eu chorar

E me abraçar dizendo

Que tudo ficará bem?

Você irá sorrir

No meu momento mais feliz?

Você me ajudará quando

Mais errada eu estiver?

Você me perdoará quando

Eu tiver que deixá-lo,

E aceitará o fato

Porque este talvez

Será o único preço

Que devo pagar?

Você poderá um dia

Dizer que me ama,

Para que eu possa acreditar

Nas promessas fáceis

Que me fazem seus olhos?

Oração das águas  

RICARTE BALBINO

Sócio da Poema — Poetas

e Prosadores de Mossoró

 

Que as águas encontrem

os caminhos que perdemos,

e os mares que não desaguamos.

 

Que as águas lavem

a mentira de nossas almas

e o pudor de nossos medos.

 

Que as águas levem

o ressentimento de outrora

e a dor dos sonhos desfeitos.

 

Que as águas aliviem

a sede de nossas ausências,

e ânsia desses desejos adiados.

Par constante

MARCOS FERREIRA

Ex-sapateiro e tangedor de mulas

 

Meia-noite regresso. A casa dorme.

Abro a porta da frente e acendo a luz.

Na parede encardida, quase informe,

O Amor confinado em sua cruz.

 

Corre pelo telhado um rato enorme!

— Chão de estrelas e céu de gabirus —

E esta cena a minh’alma ainda absorve

Sob os olhos sem brilho de Jesus.

 

Lá no quarto, estirada sobre o leito,

Já me espera a inimiga do meu sono

A gabar-se do mal que me tem feito.

 

Eis a infinda rotina e o sonho vão

De ser livre e feliz neste abandono,

Entre os cravos e a cruz da solidão.

 

 

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Mossoró-RN, domingo, 13 de abril de 2003