CLÁUDIO MONTEIRO
 
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUINTAS
 

  NOVA-VELHA POLÍTICA ECONÔMICA!!

Ao contrário da área social — onde o presidente Lula, através dos nomes escolhidos e primeiras ações, sinaliza para mudanças profundas — os rumos da política econômica do novo governo apontam, até agora, claramente na mesma direção tomada pelo governo FHC.

Direção, aliás, tão dura e corretamente criticada pelo então candidato e por todos os expoentes do PT, durante os oito últimos anos e até três meses antes das eleições, quando o partido mudou radical e estrategicamente o discurso. Questionável, porém fundamental do ponto de vista tático-eleitoral, a “Carta ao Povo Brasileiro” objetivou e venceu as desconfianças do mercado e dos investidores estrangeiros, que faziam o dólar disparar e abriram brechas, infelizmente, para a volta do processo inflacionário em curso.

Fundamental na época de campanha, o que não se esperava era que, ao assumir a Presidência, Lula mantivesse além dos compromissos da Carta, a política econômica no mesmo barco. Nem temporariamente. Nem tampouco fosse convidar para o leme alguns homens tão afinados ou participantes do governo antecessor. Senão vejamos: a maior surpresa, mesmo que tenha e venha agradando os mercados foi a indicação de Henrique Meirelles, do PSDB, para a presidência do Banco Central. Homem do partido de FHC, ex-presidente mundial do Banco de Boston, Meirelles nunca rezou na cartilha do PT e ganhou um prestígio inesperado nestes primeiros dias de poder petista. Tanto é assim que cresce no governo e entre parlamentares do partido a idéia de dar autonomia ao BC e tornar fixo o mandato do presidente e dos diretores. Em outras palavras, independentes para tomar decisões e com total estabilidade no cargo. Nem o ministro da Fazenda, nem o presidente da República poderiam demitir Meirelles nem sua diretoria. Fórmula aplicada com sucesso nos Estados Unidos, no poderoso FED, o banco central de lá. Uma temeridade em terras tupiniquins (mas isso merece um artigo específico para aprofundar o assunto).

Meirelles não se fez de rogado, usou do superprestígio a ele atribuído pelo novo governo, do dia para a noite, e além de manter toda diretoria de Armínio Fraga, deixou bem claro em seu discurso de posse que não vai abandonar a atual política monetária. Elogiou a gestão do antecessor e fez questão de revelar que a equivocada política de juros altos — tão combatida pelo PT enquanto oposição e promessa da campanha de Lula que seria revertida — vai continuar e “será a necessária para o controle da inflação”... De onde, não acalentem sonhos de que o Copom vá baixar significativamente a Taxa Selic na reunião deste mês.

O comandante do “barco”, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, apesar de petista “de carteirinha” é o que mais tem suavizado não só o discurso, mas as ações concretas, a começar pelos nomes indicados para a equipe econômica. No discurso de posse, elogiou a atuação do antecessor, Pedro Malan, recebeu afagos e evitou atacar FHC. Na última segunda-feira durante o programa Roda Viva da TV Cultura, mostrou que está se especializando em dar entrevistas sem responder concretamente o que não lhe interessa, ao estilo Maluf. Só que de forma muito mais simpática. Tem, é óbvio, agradado ao mercado. A ponto de estar sendo chamado, no meio, de “Mallocci”...

E Pallocci nomeou ainda mais dois nomes de peso da equipe econômica de FHC para postos-chaves. Joaquim Levy, que era chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, foi convidado para secretário do Tesouro Nacional. Para a Receita Federal, o governo Lula convocou não o insaciável Everardo Maciel, mas o braço-direito dele, o secretário adjunto, Jorge Rachid, que, certamente, vai continuar a “obra arrecadadora do mestre”...

Ótima semana para todos — vamos torcer para que essa nova-velha política econômica seja apenas temporária — quinta-feira (16/1) eu volto. Traduzindo a Economia para o seu dia-a-dia!

 

CLÁUDIO MONTEIRO

EMAIL: claudiomonteiro@natalja.com.br

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Mossoró-RN, quinta-feira, 9 de janeiro de 2003