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Trabalhando com o imprevisível
Entre o silêncio da espera pela próxima emergência e a loucura do trânsito mossoroense. É assim que vivem os motoristas de ambulância que atuam na terra de Santa Luzia. Somente na Central de Ambulâncias da cidade são quase 20.
São profissionais que labutam diariamente e cuja função é tão importante quanto à do médico que vai atender ao paciente, afinal de contas, são elevadas as estatísticas de pessoas que morrem por demora na prestação de socorro.
João Batista Barbosa da Silva, 28 anos, é um desses heróis anônimos. Há apenas 5 meses como motorista de ambulâncias, ele perde as contas de quantos chamados já atendeu. São em média, 30 ocorrências por dia.
São no mínimo 200 quilômetros rodados por dia. Quase a distância entre Mossoró e Natal. Só que bem mais desgastante e estressante pela loucura em que se transformou o trânsito local.
Uma das coisas que João Batista lembra é da velocidade que oscila bastante. “Dependendo da situação do paciente que estamos transportando, a velocidade aumenta ou diminui. A urgência no atendimento é o que define isso”, revela.
João Batista diz ainda que são muitas as conversas, as lamentações, os choros que ouve – embora sem muita definição – dentro da ambulância. “Mas não podemos puxar conversa, porque a atenção na estrada deve ser constante”, justifica.
Os 5 meses de atuação têm sido pouco para que João Batista tenha vivido situações extremas, como já aconteceu com o colega de profissão Francisco de Assis, motorista de ambulância de um hospital da rede privada da cidade.
Entre mortes, desmaios de parentes, quebra da ambulância, furo de pneus, Francisco de Assis já experimenta 16 anos de atividade. “É uma profissão diferente por essa questão de estar lidando, de certa forma, com a vida. Se a gente demorar num transporte, o paciente pode morrer”, explica.
João Batista garante estar gostando. Segundo ele, além de estar defendendo o pão do dia a dia, o importante também é estar ganhando experiência. Por enquanto, ele faz transporte de pacientes apenas em Mossoró, tanto da zona urbana quanto da rural.
Aqueles que trabalham com o transporte de pacientes entre cidades diferentes vivem mais situações complicadas, principalmente quem leva doentes para Natal ou Fortaleza. “Quando há transferência para um desses locais é porque a situação do paciente é complicada e no caminho tudo pode acontecer”, aponta Francisco de Assis.
Ele conta que em casa a mulher e os filhos vivem da incerteza. Sabem que o trânsito pode aplicar uma surpresa desagradável. Entre viagens, plantões e ocorrências diárias, os motoristas de ambulância vivem muitas experiências. A grande maioria, pela natureza do trabalho que desenvolvem, quase sempre tristes.
“A gente nunca sabe que sorte teve o paciente que transportamos. Porque se morre, não somos nós que transportamos e quando a pessoa fica boa vai de carro, de ônibus ou por qualquer outro meio. Ambulância é para doentes”, analisa Francisco de Assis.
Os motoristas de ambulâncias parecem gostar do anonimato. Na Central de Ambulâncias, foram poucos os que se dispuseram a dar entrevista para essa matéria. Alguns disseram ser tímidos, outros afirmaram não ter interesse.
A vida profissional de motorista de ambulância é regada a escalas, afinal de contas, não há dia para se adoecer, por isso é necessário que exista ambulância de plantão todos os dias, inclusive domingos e feriados.
Para aqueles que atuam com pacientes apenas de Mossoró, trazendo de suas casas para os hospitais, há o consolo de um descanso entre uma ocorrência e outra. Para quem viaja, a adrenalina é maior, mais correria, mas agitação, mais lamentações dos parentes dos pacientes.
Mesmo com todas as dificuldades, eles estão ali todos os dias fazendo da profissão sua razão de viver, aprendendo a gostar do que fazem, fazendo com dedicação. Acordar às madrugadas é apenas um detalhe sem importância. Contribuir para salvar vidas vale bem mais.
Curso orienta para profissão
Para ser motorista de ambulância, não basta apenas saber dirigir um carro. Nos grandes centros, é fácil encontrar cursos para preparar pessoas para essa profissão.
O curso trabalha técnicas de Direção Preventiva (Legislação, direção preventiva, ultrapassagem e colisão), e de primeiros socorros (sinais vitais, ressuscitação cárdio-pulmonar - RCP, desmaio e convulsões, queimaduras, lesões de tecidos e órgãos internos, fraturas, luxações e entorses, desobstrução de vias aéreas.
Também são tratadas informações para o transporte de emergência (informações gerais e específicas sobre a condução de ambulância, incluindo as obrigações dos motoristas, procedimentos básicos, segurança e transporte de pacientes).
Manutenção de Primeiro Escalão de Veículos Automotores (manutenção de veículos automotores, ações de manutenção, condições do veículo e checagem de emergência) e Técnicas de Pilotagem (prática de pilotagem, direção econômica, variação do piso, técnicas especiais e avaliação do curso).
Atribuições de um motorista de ambulância
* Identificar as principais características e funções de uma ambulância.
* Descrever o enquadramento legal, junto à legislação de trânsito, que ampara os privilégios no uso de uma ambulância.
* Relacionar e pôr em prática as obrigações e procedimentos, hábitos e atitudes de um bom motorista de veículos oficiais, tanto com respeito ao veículo, quanto - principalmente - às pessoas que transporta.
* Relacionar e pôr em prática as obrigações, procedimentos, hábitos e atitudes de um motorista de ambulância, tanto com respeito ao veículo, quanto às pessoas que transporta.
* Participar da desinfecção de uma ambulância.
* Dirigir uma ambulância dentro das técnicas aprendidas, obedecendo à legislação atinente e executando as manobras necessárias para o rápido e seguro transporte do paciente e da equipe de atendentes.
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Mossoró-RN, domingo, 12 de janeiro de 2003