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Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br
PARA LEMBRAR O QUE DISSE CLARICE LISPECTOR
As pequenas crônicas reunidas em Para não esquecer, de Clarice Lispector, irradiam luminosidades sobre a imagem do um ser humano, ser que vai se apresentando aos poucos em cada palavra, em cada texto, em cada crônica. O homem vai se descortinando de forma múltipla, dissipativa, um ser maior e, simultaneamente, menor do que todas as palavras, discursos, narrativas e imagens que dele possamos fazer.
Originariamente, esses textos constituíam parte de "A legião estrangeira" (1964) e foi denominado pela própria Clarice de "Fundo de gaveta".
Por que essa denominação? Talvez porque no fundo de uma gaveta não se encontre somente aquilo que guardamos e esquecemos, mas o que guardamos porque precisamos um dia relembrar; é no fundo da gaveta, assim como no fundo de nosso ser, que encontramos a vida que já vivemos, aquela que queremos não lembrar e aquela que, mesmo sem querermos, diz o que somos, o que fizemos de nós mesmos.
No fundo de uma gaveta estão os rascunhos de nossa vida, os atestados de nossos erros e errâncias da existência: nossos segredos. A vida que se viveu e que se vive em segredo é muito mais marcante. Uma das preocupações de Clarice era exatamente com aquilo que está no fundo da gaveta, ou seja, com a vida que se leva por dentro: as verdades inconfessáveis, aquelas que nem a Deus, nem a nós mesmos contamos, os segredos trancafiados em nós, assim como nós somos um segredo para nós mesmos. Como disse Clarice: "Sou um segredo fechado a sete chaves".
Em nota que seguia os textos "Fundo de gaveta", Clarice escreveu: " Gosto muito de um modo carinhoso do inacabado, do mal-feito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão". Esses textos são inacabados e de um jeito desajeitado, eles expressam o estilo da escritora, o jeito sem jeito dela tentar voar alto e cair de corpo inteiro nos mistérios da condição humana. Na ânsia de se entender, Clarice sabia que para compreender o ser humano é preciso cair estatelada no chão sobre o qual o homem caminha.
Os textos que compõem Para não esquecer, são escritos com delicadeza profunda, não são malfeitos, mas inacabados assim como são as temáticas a que se referem a tudo que é humano; são vôos rasantes sobre o abismo e a complexidade humanas como percebemos nas crônicas "Desenhando um menino" e "Perfil de seres eleitos" que tomo, aqui, como pontos hologramáticos do livro, estabelecendo dialogias com outras crônicas da obra.
O livro inteiro pode ser visto como um espelho fragmentado a nos revelar, aos poucos, uma imagem do ser humano. Cada fragmento ou, como disse Clarice, cada pedaço mínimo do espelho é sempre o espelho todo. Cada texto dessa coletânea é como espelhos que refletem e infletem uns sobre os outros; cada um irradia luminosidades sobre a obra, a voz de um é o não-dito de outros textos, uma "despalavra" que ecoa nas entrelinhas das outras, por vezes ampliando o entendimento do leitor, por vezes embaralhando as cartas possíveis de uma compreensão transversal de suas temáticas.
As temáticas funcionam como territórios de ressonâncias e conexões ocultas com outras temáticas, outras idéias e cosmovisões da autora espalhadas em suas obras. A singularidade do livro está na pluralidade das idéias que dissipam a análise, a interpretação e abrem diálogos entre vida e obra da autora e, ao mesmo tempo, com a cosmovisão do leitor.
Nas crônicas acima citadas, sobressai a imagem de que não somos seres perfeitos, prontos e acabados. Nós não nos bastamos. Ao nascermos só trazemos a possibilidade de vir a ser: sermos qualquer coisa, uma infinitude de coisas. Nascemos e ainda continuamos em gestação: somos, eternamente, um ser a-ser.
Nossa construção é lenta e se faz nos mais diversos momentos ou estações da vida. Logo cedo, vamos recebendo orientações, indicações, restrições, direcionamentos para sermos alguém: homem, mulher, louco, profissional, filho, mago... Para sermos alguém agimos como "Os obedientes" do conto de Clarice.
As coações e coerções por nós sofridas, as restrições que passamos, os condicionamentos societários que nos prendem, as faltas que sentimos e as escolhas que fazemos vão nos constituindo como ser-no-mundo. É assim que o ser vai sendo domesticado para se tornar humano. Mas é uma domesticação desejada. Como disse Clarice na sua crônica "Desenhando um menino": "o próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera". Isso é uma escolha que trás conseqüências: "ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco..."
Sabemos que o homem é um ser de escolhas, um ser que se elege como ser-no-mundo enquanto vai descobrindo as surpresas do universo circundante, enquanto vai se deparando com as escolhas que tem de fazer. Uma dessas escolhas é levantar-se, caminhar sobre o chão móvel, incerto e cheio de limites.
Clarice não era determinista, mas reconhecia que o homem é um ser cercados de determinações históricas, societárias, culturais e biológicas. "Descontando esse furtivo determinismo, o ser se escolhia livre", dizia ela.
Somos determinados a fazer escolhas, mas livres no ato de experienciar, na ação de escolher. Henri Atlan percebeu isso ao afirmar que temos a necessidade de escolher; somos determinados por essa necessidade, mas nos tornamos livres ao escolher o que nos realizará.
Essa capacidade de escolha também é uma condição animal, mas somente o ser humano escolhe as coisas para si e para sua vida como quem escolhe a matéria de sua salvação, como quem seleciona a substância que intensificará o que ele é intimamente. As escolhas revelam as verdades na qual o homem acredita ou aquelas que ele inventa para justificar a si mesmo. Nesse aspecto, "até a mentira pode ser verdade", como dizia Clarice.
"Cada um é um". Portanto, as escolhas dos outros não nos servem. A escolha deve ser livre porque a liberdade está em escolher frente ao "furtivo determinismo da vida". Ninguém escolhe à toa. As coisas são extensões daquilo que somos. Selecionar bem significa viver em comunhão com a matéria e os materiais que nos fazem o que somos. Foi entre o sim e o não que G.H. personagem de "A paixão segundo G.H.", decidiu comer a massa branca da barata e se sentir em comunhão com a vida. O que somos se intensifica com aquilo que fazemos ou deixamos de fazer.
O homem é um ser de escolhas: esta é sua liberdade e sua condição. Mas entre o sim e o não, ele pode escolher outro caminho, uma terceira via, a margem do meio. O homem pode construir algo mais do que o previsto, algo além do previamente determinado. Aquilo que conquistamos na vida é o troféu de nossa liberdade: "liberdade é só o que se conquista", o que construímos a mais.
O homem não é objeto das circunstâncias. As circunstâncias fazem o homem, mas ele também as cria, reinventa-as num jogo de ações/reações/retroações infindáveis.
Com sua capacidade de inovação e escolha, o ser humano inventa a cultura que o constrói, reinventa o meio para nele residir. Entre um caminho e outro, o homem pode abrir um desvio, uma outra vereda para se realizar. O desvio é próprio do ser errante, do ser humano que tenta fugir dos caminhos programáticos, elaborados por outros, tentando, com isso, deixar no solo as marcas e os compassos de seus passos no mundo. O caminhante desviante é um ser não domesticado pelos padrões societários, o fazedor de novos focos de culturas, de conhecimentos e de poesias.
Nessas condições, o homem vai sendo guiado pelo seu dom inato de se comunicar e de gostar. É por gostar que conhecemos as coisas e nos aproximamos dos outros; é por gostar que amamos e nos entregamos de verdade às coisas que fazemos. A comunicação humana é ajudada por esse "dom de gostar" do qual falou Clarice. Esse dom ajuda também a comunicação fluir. E assim aprendemos a transmitir o gesto que não fere e dizer sem palavras "o gosto que sentimos pelos outros".
É por instinto que descobrimos, na solidão profunda, os outros. É por dom que descobrimos brincar, andar, comer, sorrir, chorar e amar. O dom que temos nos permite saber mesmo antes de conhecer. Saber é para quem sente a vida. "Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe", afirmava Clarice. "Sem mesmo sentir que usava o seu dom, o ser se manifestava; dava, sem perceber que dava, amava sem perceber que a isso chamava amor". Conhecer é refletir, raciocinar sobre a amplitude do viver.
Para se conhecer, o homem tem de se estranhar; para se construir ou se eleger, o ser humano tem de se despojar, abrir-se. Abertura e despojamento conduzem a erros, errâncias e equívocos porque o homem vive inserido numa realidade incerta e inesgotável e, ao mesmo tempo, dentro de sistemas valorativos elaborados e efetivados nas relações societárias estabelecidas quando o outro entra em cena, como marca do contrato sócio-cultural assinado para viver humanamente.
Os equívocos e os erros nos rodeiam. Vivemos à beira do abismo. A vida é um jogo de equilíbrio. Assim, o homem age e vai com isso se elegendo, vai caminhando e construindo seu caminho, deixando seus passos na terra e as marcas das experiências na sua alma: sua vida se faz caminhando. Em certos momentos ou circunstâncias, o homem pára, isolá-se e deixa o silêncio lhe invadir. São nessas horas que o homem entra em comunhão consigo mesmo e com o cosmos. Como disse Clarice na sua crônica: "O ser fora escolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para ser".
Não conhecemos as pessoas como elas são. Quando olhamos para uma pessoa, vemos apenas o retrato que nosso olhar pintou, a imagem que nosso olhar esculpiu para percebê-lo como um outro ser semelhantemente diferente.
SOBRE O AUTOR: É coordenador dessa coluna, Prof. da Universidade do Estado do RN, doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, pesquisador do Núcleo de Estudos da Complexidade (COMPLEXUS/PUC-SP) e do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Linguagem e Constituição do Sujeito (SUBJECTUM).
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Mossoró-RN, de 2003