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Num mundo de iguais
LÍRIA NOGUEIRA ALVINO – Escritora – antonialiria@uol.com.br
Muito pouco provavelmente exista coisa mais doce e mais gentil do que o palavreado popular. É, na verdade, um assunto que me cativa e que me seduz, o jeito de falar do povo nosso de cada dia. Poderia ter abordado a morte do Sumo Pontífice, mas minhas falas são perfeitamente dispensáveis; já houve quem falasse bem mais e melhor do que eu desde a semana passada. De modos que, entre tantos assuntos: a vitória do Miluir do Baraúnas, o falecimento do Papa, a morte de uma crianças de três anos, pelo próprio pai, os puxa-enconlhe da política norte-rio-grandense, a transposição do Rio São Francisco, a transnordestina e mais meio mundo de assuntos. Enchi o saco de assuntos verdadeiros, sérios, do cotidiano.
Quinta passada, à pé, saí conversando com pessoas na praça da Catedral. As conhecidas, porque as desconhecidas me pensando por doida, não quiseram conversa comigo. Encontrei velhos amigos na casa dos sessenta, setenta anos, um deles estava com um problema:
- Na próprias.
- Onde? - quis eu especificar a localização.
- Na próprias. - e dessa vez apontou com a mão direita espalmada para os órgãos genitais.
- Ah! Na próstata! O senhor já está se tratando?
- Já minha filha, com aquele doutor dos olhos puxadinho. - E completou: Mas é dor, minha filha, é dor grande que eu só falto me urinar, só não me urino porque é justamente a falta dela que me ocasiona situação tão triste.
- É mesmo.
Conversamos mais meia hora de prazeres sobre assuntos diversos, variando sempre entre um dor de próstata e outra. E segui caminho.
Encontrei também um vigia colega de trabalho, esse não falou nada neste dia. Mas lembrei dele me avisando, quando trabalhava na Maternidade Almeida Castro, que havia chegado uma "restante" trazendo a "última somografia". E falava com os braços semi-fletidos e as mãos apertando o ar como quisesse se expressar melhor. E eu ficava querendo tanto bem a ele pela simplicidade do falatório.
Depois com um amigo, professor universitário, e comentando com ele essas graças que eu via nas legítimas expressões populares, ele me saiu com uma:
- Você devia era ter vergonha de dizer um negócio desses !!!
- E posso saber onde está a indignidade no que eu disse?
- Simples. Está na aceitação da atual conjectura política em prol da abominação intelectual, intrinsecamente ligada à logística abrupta da cultura burrificada de massas.
- Como?
- Está vendo? Não entender o que eu acabei de dizer é a prova cabal de sua ignorância frente a um enunciado tão direto como é o saber intelectual.
- Essa eu entendi. Burro é você. Otário. Só porque fala bonito pensa que é o principal. Ignorante. De pai, mãe e parteira, como diz o Rosembergue Estevão.
Ele não sabia quem era o Rosembergue Estevão. Como também não conhecia meu amigo vigia. Como também não sabe se comunicar com gente de verdade.
Admiro e louvo o saber intelectual. Mas infelizmente não vivemos só dele. No Brasil, um país em desenvolvimento, onde a sua empregada doméstica não sabe ler, nem escrever e não fazemos nada para reverter isso, porque achamos normal, ou pelo menos aceitamos.
Entendo que o meu colega professor, infeliz no modo como me disse, mas disse certo, ao expor indignação com a falta de cultura das pessoas. Traduzindo, ele quis dizer, penso eu, que não devemos baixar nosso nível de cultura, nem achar bonitinho um cidadão falar errado, mas ao invés disso, tentar elevar o nível de cultura dele impondo nossa própria fala corretíssima, cheia de erres e esses, forçando a barra de um aprendizado.
Eu sei, eu sei disso tudo.
Mas não estava a fim naquele dia. Eu só queria conversar. Ele mesmo poderia seguir o exemplo do Reitor dele, professor Walter Fonseca. O Reitor, nos discursos de formatura, fala quase igual ao inigualável Dix-huit Rosado. Mas quando conversa com o zelador da UERN o faz como qualquer outro mortal.
Talvez a sabedoria "perpasse" também pelo fato de sabermos nos comunicar com todas as pessoas, partindo do princípio de que somos mesmo todos iguais.
(Muito obrigada a todos os leitores que comparecem à minha casa, através de e-mails, durante a semana. Aos que elogiam e aos que descem o sarrafo, adoro todo mundo.)
Beleza de úlcera!
ARMANDO NEGREIROS
Médico e escritor - negreiros@digi.com.br
Somos amigos desde a infância em Mossoró. Posso afirmar, com absoluta convicção, que não há quem, o conhecendo, deixe de admirá-lo. Fomos para o Rio de Janeiro cursar o terceiro ano científico e fazer vestibular para medicina no mesmo ano, 1969. Hesitou entre a faculdade de Direito e a de Medicina, já que tinha pavor a sangue e medo de agulhas. Teria se dado tão bem quanto se deu em Medicina, já que é privilegiadamente inteligente, culto, informado, habilidoso e faz muito bem feito tudo o que faz. É gastrenterologista e endoscopista. Toca violão, canta e encanta. A sua conversa é imperdível, pois está sempre por dentro de todos os assuntos atuais e pretéritos. Sabe ouvir, é companheiro e amigo pra valer. Sou suspeito para falar, pois tenho a honra de ser seu compadre, padrinho do seu clone, também médico, cirurgião, Raimundo Soares de Souza Neto. Todos já perceberam que estou me referindo a Silvério Soares de Souza Neto.
Espírito tranqüilão, "puxou" simultaneamente ao pai e à mãe. Não costuma esquentar a cabeça com pouca coisa. Fui eu que pedi a José Carvalho, em seu nome, a mão de Maninha em casamento. Com seis meses de casado Maninha deu à luz uma criança forte e robusta, Virgínia. Mais dez meses e nasceu Raimundo Neto. Fui conversar com ele para ir mais devagar e procurar evitar tantos filhos. Silvério, filosófico e imperturbável, explicou:
- Estou tranqüilo, pois mamãe já está ensinando todos os métodos anticoncepcionais a Maninha.
Iolanda, mãe de Silvério, teve doze filhos. Mas as aulas funcionaram, pois Maninha teve Isadora e parou nos três.
No Rio costumávamos jogar xadrez aos domingos no apartamento de Ivy Simões, onde eu morava. Um dia Silvério chegou visivelmente deprimido, sério, silencioso e perdendo todas as partidas, sem conseguir se concentrar. Afinal, perguntei preocupado, o que está acontecendo com você?
- Mamãe está grávida do décimo segundo filho.
Nove meses depois nasceria a carioca Ana Angélica, a segunda mulher dos doze filhos de Iolanda e Raimundo. As histórias dessa família no Rio de Janeiro dão um livro. Iolanda atravessando a rua com três filhos de cada lado e o guarda de trânsito implicando: Madame, porque a senhora não deixou a metade dos filhos em casa? Foi o que eu fiz, seu guarda, tem mais seis em casa!; O dono do restaurante do térreo reclamando dos moradores do apartamento do primeiro andar, quando o normal é ocorrer o contrário.
Estávamos jogando sinuca na Associação Médica, Raimundo Neto devia ter uns quatro anos de idade e estava bebendo a cerveja do pai. Vicente Justiniano, preocupado, avisou a Silvério que, impassível, olhou para o menino e disse:
- Meu filho, beba devagar.
Inventor de bordões costuma atender ao telefone indagando "quem pode mais do que Deus?". Os que convivem com ele acabam pegando o seu jeito de falar. Fazendo endoscopia não é raro o paciente interromper o exame às gargalhadas com as exclamações de Silvério:
- Beleza de refluxo! Beleza de gastrite! Beleza de úlcera!
Plantonista do Hospital Walfredo Gurgel durante anos, vários estudantes de medicina o acompanharam. O colega Carlos Magno, depois de formado, continuou dando os plantões juntamente com Silvério, a título de aprendizado. Eventualmente, Silvério solicitava a Carlos Magno para chegar mais cedo, pois ele iria atrasar um pouco. Depois de algum tempo Carlos Magno foi contratado e, coincidentemente, passou a dar plantão junto com Silvério. Um dia Silvério precisou viajar e ligou para o colega:
- Carlos, eu estou precisando que você dê o meu plantão hoje.
- Não posso, pois eu também estou de plantão, em dupla com você.
- Pois falte ao seu plantão e dê o meu!
Em seguida comentou com os amigos: criei um monstro!
À minha amiga
Bruna Lianne Carlos
Secretária
Hoje te procurei como nunca antes...
Hoje foi o dia em que dentre todos, almejei incessantemente você. O seu olhar reluzente pra mim, o seu apoio sincero; a sua amizade; as suas respostas às minhas mais inquietantes questões, mesmo sem você pronunciar uma única palavra...
Hoje te procurei para refugiar-me de tudo que me aflige; hoje desejei profundamente que a tua luz me guiasse e me mostrasse um horizonte a seguir.
Oh amiga lua, quis o teu abrigo e a tua luz, como um candelabro que ilumina e guia a minha senda. Mas a tristeza tomou-me deveras, e cessei a minha busca por ti num momento angustioso. Foi então que olhei não para o céu, mas para dentro de mim mesma, e um abismo escuro de questionamentos e inseguranças era apenas o que conseguia enxergar. Busquei força mais uma vez só, sempre só, na mais triste lembrança sua e na mais intensa alegria de poder te ter, mesmo sabendo da sua efemeridade, lembrando que logo, logo o sol raiará e você já não poderá brilhar com a mesma intensidade. Mesmo te buscando nos meus mais intrínsecos pensamentos eu não te achei, não vi o seu claro a me conduzir na senda a qual devo seguir.
Como me senti só...
Já sem forças minha pulsação vibra forte, e naquele mesmo abismo escuro que vi dentro de mim mesma, bem distante percebi que uma luz brilhava no fim... Que essa luz as vezes ofuscava um pouco, porém o discernimento fazia com que a caminhada fosse continuada, que a busca fosse constante, e continuei incansavelmente com o desejo insano da tua presença, do teu olhar brilhante pra mim, da segurança que sinto apenas por saber que você existe. Segui o brilho e ao final encontrei dois caminhos, apenas isso e nada mais...
Daí entendi que mesmo você não estando lá no céu brilhante e reluzente, você está dentro de mim, e é essa luz que existe dentro de cada um de nós que não podemos permitir que se apague nunca, mesmo em meio a grandes dificuldades, mesmo que a tristeza nos tome por completo. Percebi que a solução de tudo é olharmos para dentro de nós mesmos, pois apenas o nosso próprio eu indicará que caminho devemos tomar.
Por alguns instantes senti uma angustia e uma tristeza avassaladora que parecia infindável, entretanto reconheci que são nos momentos de fraqueza extrema que devemos olhar não para o brilho das outras pessoas, mas para o nosso próprio brilho e reconhecer a fortaleza que há dentro nós.
Minha amiga Lua, nos momentos mais tristes e angustiosos do meu viver, senti que estava sozinha, que uma solidão intransponível permeava e me envolvia cada vez mais. No entanto, mesmo você não brilhando no céu, mostrou-se mais que uma amiga, uma parte do meu ser, porque você brilhou dentro de mim e me fez enxergar que há dois caminhos, e que agora é a minha vez...
Busco a sabedoria necessária para fazer uma escolha correta que não venha causar dano posterior no caminho de ninguém, tão pouco no meu próprio.
Obrigada amiga lua, por me indicar um novo horizonte a seguir!
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Mossoró-RN, de 2003