A bomba do demônio

Há uma bomba endemoniada no colo do povo brasileiro: é o seu Orçamento público. Nada é mais ameaçador para a justiça social do que a maneira como, vinte anos depois de implantada a democracia, continuamos fazendo o Orçamento da União, dos Estados e dos municípios, independentemente dos interesses populares e da transparência democrática. Nossos Orçamentos estão comprometidos exclusivamente com o imediato, sem qualquer visão das necessidades do futuro.

Orçamento que é feito, muitas vezes, na calada da noite, sem que o povo perceba, entenda e se interesse, priorizando o presente sobre o futuro, os privilégios sobre os novos direitos, as dívidas sobre os investimentos, os interesses mesquinhos sobre os interesses nacionais, os lobistas sobre o povo.

Quando se observa o Orçamento nas suas entranhas percebemos que ele é um motor de desigualdade, de injustiça social, de impedimento da construção de um futuro nacional e é, sobretudo, um instrumento de falta de transparência de como as decisões são tomadas. Gasta dez vezes mais com aposentadoria do que com a educação e muito mais com o Ensino Superior do que com o Ensino Básico.

Algumas despesas são secretas. Hoje, o povo brasileiro não sabe quem recebe parte do dinheiro pago com os impostos do povo. Existem contas secretas, secretas na maneira e no momento de decidir quanto vai para cada item, e no destino que terão os recursos públicos.

Muitos criticam o tamanho da carga fiscal que parece estrangular o consumo do povo e os investimentos, mas não parece haver críticas contra a maneira como se utiliza o dinheiro do Orçamento. É preciso que o Brasil reduza sua carga fiscal, mas também que defina de maneira transparente as despesas do Orçamento. Que priorize o futuro e os pobres no lugar de presentear os ricos. Que o Orçamento seja impositivo. É preciso acabar com essa aberração de enganar o povo dizendo que se gastou dinheiro em coisas que interessam a eles, mas que na verdade, não os beneficiam. Atualmente, a prioridade dos gastos é para favorecer os que têm força para fazer o lobby necessário para conseguir as liberações.

O Orçamento tem de ser impositivo, mas também deve ser em benefício do povo e do futuro do País. O Orçamento tem que ser um instrumento de distribuição e não de concentração. Tem que ser um instrumento de construção do futuro e não de amarras ao presente. Para isso, é preciso mudar a maneira como é feito o Orçamento e o destino dos recursos que o Orçamento dispõe. Também é preciso mudar a maneira como ele é apresentado ao povo, tornado-o compreensível, como as contas domésticas de qualquer família.

No mundo de hoje o espaço do debate ideológico saiu da política econômica e da definição das fronteiras econômicas. O mundo econômico está integrado e amarrado. Integrado além das fronteiras nacionais e amarrado por leis que, se rompidas, ameaçam gravemente a estrutura social e econômica do País. Por isso, o fórum para o grande debate ideológico do futuro não é a política econômica nem as regras do comércio internacional. O grande debate está na política ideológica, no uso dos recursos à disposição do governo, da União, dos Estados e dos municípios para servirem ao futuro e aos interesses da população. Se não fizermos essa mudança rapidamente em direção ao Orçamento impositivo, justo e voltado para o futuro, estaremos caminhando para a explosão dessa bomba do demônio em que se transformou o Orçamento público brasileiro.

 

 

CRISTOVAM BUARQUE

Professor da Universidade de Brasília, senador do Distrito Federal pelo PT (cristovam@senador.gov.br / www.cristovam.com.br)
 

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