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De volta ao tronco

Certas coisas, definitivamente, só acontecem com o SBT. Em 1996, o autor Walcyr Carrasco recebeu um convite do diretor Walter Avancini para escrever a novela “Xica da Silva” para a Manchete. Como era consultor de teledramaturgia do SBT, adotou o pseudônimo de Adamo Angel. “O codinome foi sugestão do Avancini. Ele achava que o Angel fazia um contraponto bem-humorado ao meu carrasco”, lembra Walcyr, hoje na Globo. Mesmo assim, Adamo Angel foi desmascarado por Silvio Santos e obrigado a escrever outra novela para o SBT: “Fascinação”, de 1998. Quase dez anos depois, o dono do SBT resolveu adquirir os direitos de “Xica da Silva” e exibi-la, a partir da segunda, dia 28, no horário das 21:15 h. Coincidência ou não, a Record vem conquistando o segundo lugar no Ibope com a história de outra escrava famosa, a Isaura, do romance de Bernardo Guimarães.

Na época, “Xica da Silva” tornou-se uma das maiores audiências da Manchete. Embora não tivesse alcançado os históricos 40 pontos de “Pantanal”, a trama do fidalgo português que, na Diamantina do Século XVIII, apaixonava-se por uma escrava conquistou heróicos 15 pontos contra “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa. O sucesso foi tanto que, ao término da novela, a direção da Manchete presenteou Walcyr Carrasco e Walter Avancini, falecido em 2001, com viagens a Las Vegas. Na capital mundial do jogo, os dois ganharam uns bons trocados nos caça-níqueis. Com o dinheiro do prêmio, Avancini assistiu a lutas de boxe, seu esporte favorito, e Walcyr, glutão assumido, esbaldou-se com panquecas de caviar. “Se hoje eu sou o autor que sou, devo a ele”, garante Walcyr, que voltou a trabalhar com Avancini em “O Cravo e a Rosa” e “A Padroeira”, na Globo.

Um dos grandes méritos de “Xica da Silva” foi revelar a atriz Taís Araújo. Na ocasião, Avancini pensou em abrir inscrições para selecionar uma atriz para o papel-título. Mas, pouco depois, resolveu apostar mesmo em Taís, que havia trabalhado com ele em “Tocaia Grande”, na Manchete. Polemista nato, o diretor esperou a atriz completar 18 anos para gravar as famosas cenas de banho na cachoeira. “Aquilo foi horrível! Eu me senti invadida à beça. Se era para ter alguém pelada na novela, eles poderiam ter chamado qualquer uma”, esbraveja Taís. Apesar do tom indignado, a atriz garante não guardar mágoas de Avancini. “No dia em que a novela acabou, o Avancini me chamou na sala dele e abriu uma garrafa de champanha. Devo minha carreira a ele”, recorda.

Muitos atores, aliás, devem a carreira a Avancini. Murilo Rosa, Carla Regina e Giovanna Antonelli são apenas alguns deles. Hoje na Globo, Giovanna admite que Avancini era mesmo exigente e autoritário. Se o ator chegasse para gravar, por exemplo, sem o texto decorado, levava uma bronca daquelas. “Levei muito puxão de orelha do Avancini. Ele queria o melhor do ator em todas as cenas. Depois de trabalhar com ele, passei a respeitar ainda mais a minha profissão”, emociona-se Giovanna. Mas nem todo mundo soube aproveitar a oportunidade. Adriane Galisteu foi convidada para participar de quatro capítulos da novela, mas ficou quase nove meses no ar. Na trama, sua personagem sofria abuso sexual e ficava vagando, seminua e meio apalermada, pela região. “Sofri nas mãos do Avancini. Ele tinha um jeitão tirano de dirigir. Vivia pedindo a ele para matar minha personagem”, recorda a apresentadora do “Charme”, no SBT.

Na verdade, Adriane Galisteu foi apenas uma das muitas “participações especiais” de “Xica da Silva”. Avancini chegou a trazer da Itália a deputada Ilona Staller, mais conhecida como a atriz de filmes pornôs Cicciolina. Nos últimos capítulos, ela apareceu nua tomando banho com o ator Victor Wagner, que interpretava o contratador João Fernandes. “O Avancini era um mestre do Marketing. Ele sabia, melhor que ninguém, como chamar a atenção do público. Lembro que a aparição da Cicciolina nos últimos capítulos elevou e muito a audiência da novela”, recorda Jacques Lagoa, co-diretor de “Xica” e hoje também no SBT.  

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