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O codó de Mossoró
GERALDO MAIA gmaia@bol.com.br
A praça Bento Praxedes, no centro
de Mossoró, é ainda hoje conhecida por muitos como "Praça
do Codó". Poucos, no entanto, sabem de onde vem
essa denominação pejorativa para aquele logradouro.
A resposta remonta às campanhas políticas
dos anos 50 e 60, quando a maioria dos comícios eram
ali realizados. E foi exatamente na campanha presidencial
de 1950 que o tal batismo ocorreu. Naquele ano, o candidato
da UDN, brigadeiro Eduardo Gomes, veio a Mossoró para
realizar um grande comício. A comissão organizadora
contratou um empreiteiro local para construir o palanque
lá na praça Bento Prachedes. O palanque foi construído,
pintado e decorado com cartazes do candidato. Como acontece
até os dias atuais, palanques de presidenciáveis são
bastante concorridos. E naquele ano não foi diferente.
Uma grande quantidade de pessoas subiu ao palanque,
não só candidatos, mas também as esposas e parentes.
E com o excesso de peso, o palanque caiu. Segundo o
historiador Raimundo Soares de Brito, que esteve presente
naquele comício, o que aconteceu foi que o empreiteiro
que construiu o palanque, talvez para facilitar o seu
trabalho, montou o piso apoiado em tambores metálicos,
que não suportando o peso achataram-se, fazendo com
que o tablado caísse e com ele todos os seus ocupantes.
Pior ainda, todos que ali estiveram fracassaram
em suas candidaturas políticas, inclusive o brigadeiro.
Depois desse acidente, uma série de
outros eventos programados para a praça Bento Prachedes
terminaram em derrotas, como foi o caso da campanha
para governador do Estado de 1955, quando o dr. Duarte
Filho, candidato a vice do dr. Manoel Varela, viu sua
campanha ruir. Insistindo em realizar seus comícios
sempre naquela praça, o mesmo aconteceu em 1958 e em
1963, nas campanhas para prefeito, quando o dr. Duarte
Filho enfrentou, respectivamente, Antônio Rodrigues
de Carvalho e Raimundo Soares, perdendo as eleições,
chegando a eleger-se apenas em 1966, ao Senado Federal.
E segundo as más línguas, só depois que o feitiço da
praça foi exorcizado.
Ao que consta, foi o dr. Vingt Rosado
quem batizou a praça de "Codó" como uma forma
de diminuir os ânimos dos adversários, pois codó quer
dizer azar ou carma negativa, em dialeto africano.
Coube ao então deputado federal Aluísio
Alves a tarefa de exorcizar a praça. Estava ele em campanha
para governador do Estado em 1960, tendo ganhado de
seu adversário político Dinarte Mariz o apelido de "Cigano",
com a intenção de chamá-lo de falso, mentiroso. Ao invés
de se incomodar com o apelido, resolveu tirar proveito
do mesmo transformando-o em marketing de campanha. Assumiu
a condição de cigano e, conhecedor que era do "codó",
passou a anunciar que iria exorcizar o feitiço da praça.
Para tanto valeu-se dos microfones da Rádio Difusora,
para mobilizar o eleitorado de Mossoró em memoráveis
passeatas, cujo percurso varava as madrugadas, terminando
sempre na Praça do Codó. Assim foi sua campanha
vitoriosa para governador em terras mossoroenses, com
a vitória de Aluísio, estava quebrado o codó da praça.
Cinco anos mais tarde voltava Aluísio a mesma praça
em campanha que elegeu seu sucessor, o monsenhor Walfredo
Gurgel. Era o "cigano feiticeiro" que voltava
a praça, onde uma multidão o esperava portando, além
dos já tradicionais lenços verdes, símbolo de campanha,
trajes de cigano que passou a ser mais um símbolo aluizista,
em alusão ao exorcismo do codó da praça.
O feitiço estava quebrado, mas o nome
já tinha sido incorporado a praça Bento Prachedes, que
mesmo sem os fluidos negativos ficou sendo conhecida
como "Praça do Codó".
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Conversa amiga
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
"E ternas saudades de..."
não completei a leitura da faixa, na coroa de flores.
Estranhamente ela parecia colocada sobre o caixão, do
lado da cabeça do morto. Pisquei os olhos e só aí percebi
que era apenas ilusão de ótica. A visão monofocal dificulta
a definição dos objetos em profundidade. É quase como
se enxergássemos em duas dimensões. A coroa estava onde
estavam todas as outras, completando a homenagem póstuma
ao amigo que se fora desta para melhor. No caso dele,
melhor mesmo. Um senhor com idade para ser meu pai;
pai de uma amiga que é madrinha de minha filha mais
nova e de quem gosto muito.
Apesar da diferença de idade de vinte
anos descobrimo-nos amigos. Uma amizade baseada no sofrimento
mútuo; eu com a infecção no olho esquerdo, ele com um
tumor no tórax. As conversas longas giravam em torno
dos nossos problemas de saúde, que surgiram quase ao
mesmo tempo. Ele me dava força, eu dava força para ele.
Depois de um período de recuperação
da primeira cirurgia, que retirou um rim e parte de
um pulmão, pai e filha apareceram na minha casa para
um churrasco em família. A futura afilhada de uma, que
seria quase neta do outro, estava prestes a nascer.
O barrigão da minha mulher era como uma saudação à vida.
Em casa, nada de muito sofisticado, a começar pela churrasqueira,
na verdade um fogareiro barato de barro, com a grelha
equilibrada nas pernas de um tamborete. Baião de dois,
farofa e vinagrete acompanhavam a carne afogueada. Naquela
manhã de chuva fina, sentado numa rede na varanda, prato
na mão, ele prometeu retribuir o convite para um churrasco.
Depois veio com uma fala que ninguém esperava.
- Esse é o dia mais feliz da minha
vida.
E devia ser. Com a sensação de quem
vence uma guerra - disposição estampada no rosto apesar
dos efeitos da quimioterapia -, direcionou para mim
palavras de incentivo, para continuar acreditando. Eu,
ainda com o meu sofrimento que parecia interminável,
mas todos nós felizes...
Pena que era apenas uma batalha e
não a guerra. Outros problemas vieram na forma de caroços.
Novas cirurgias, quimioterapia e sessões de radioterapia.
Depois foi o rim que deixou de funcionar condenando
meu amigo à cruel rotina da hemodiálise. A família escondia
a parte pior do diagnóstico dos médicos; os amigos também
assim procediam. Nossas conversas continuavam sempre
que ia à casa dele. Ficávamos apenas eu e aquele homem
que, antes de sermos traídos pela saúde, mal havíamos
trocado umas poucas palavras. Numa dessas conversas
ele chorou, desesperado com o sofrimento e por não entender
o destino cruel que Deus lhe reservara. Eu também não
entendia - nem o dele, nem o meu -, mas dizia que não
nos restava outra opção senão continuar lutando. Que
a vida era como andar de bicicleta, se a gente parasse
de pedalar caía. Nada que merecesse citação num livro
de auto-ajuda, mas o que valia mesmo era o ato da conversa.
Descobri e passei a utilizar uma estratégia:
quando as lamentações se tornavam mais intensas falava
do meu sofrimento, do quanto era chato e interminável
o problema da visão. Aí não demorava e era ele que passava
a me dar força. Era interessante como suas feições mudavam
para melhor. Onde quer que esteja, amigo, me perdoe
pelo truque.
Mas nossas conversas giravam também
em torno de outros assuntos: a política, por exemplo.
Por causa do meu trabalho sempre era instado a dar notícias
relacionadas ao grupo político do ex-ministro Aluízio
Alves. Eu não tinha muito a contar, mas dava para saciar
a curiosidade dele. E, curiosamente, meu amigo morreu
no mesmo dia que o líder que lhe despertava tanto interesse
- 6 de maio de 2006. Não teve tempo de ver ou fazer
parte do mar de gente que acompanhou o cortejo e parou
Natal no dia seguinte.
O corpo, que seria velado na capela
do cemitério onde o ex-ministro foi enterrado, teve
que ser levado para um centro de velório, onde, à noite,
mantenho, por alguns instantes, apenas o olho esquerdo
aberto. Vejo apenas o vulto do caixão à minha frente;
as luzes são apenas clarões, nem dá para ver as coroas
de flores. Você, do mesmo jeito que eu, apenas estava
enganando seu amigo.
Quem sabe não chegou a hora de perguntar
a Deus por que ele lhe reservou um destino tão cruel?
Como alguém que pouco fez de errado na vida pôde sofrer
tanto nos últimos dias? Aproveite e pergunte por mim,
mande a resposta através de um sonho. Se for muito complicado
para Ele responder a subjetividade de um "porque",
a objetividade do "quando" já é suficiente.
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