Mossoró-RN, domingo 14 maio de 2006

O codó de Mossoró

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

A praça Bento Praxedes, no centro de Mossoró, é ainda hoje conhecida por muitos como "Praça do Codó". Poucos, no entanto, sabem de onde vem essa denominação pejorativa para aquele logradouro.

A resposta remonta às campanhas políticas dos anos 50 e 60, quando a maioria dos comícios eram ali realizados.  E foi exatamente na campanha presidencial de 1950 que o tal batismo ocorreu. Naquele ano, o candidato da UDN, brigadeiro Eduardo Gomes, veio a Mossoró para realizar um grande comício.  A comissão organizadora contratou um empreiteiro local para construir o palanque lá na praça Bento Prachedes. O palanque foi construído, pintado e decorado com cartazes do candidato. Como acontece até os dias atuais, palanques de presidenciáveis são bastante concorridos. E naquele ano não foi diferente. Uma grande quantidade de pessoas subiu ao palanque, não só candidatos, mas também as esposas e parentes. E com o excesso de peso, o palanque caiu. Segundo o historiador Raimundo Soares de Brito, que esteve presente naquele comício, o que aconteceu foi que o empreiteiro que construiu o palanque, talvez para facilitar o seu trabalho, montou o piso apoiado em tambores metálicos, que não suportando o peso achataram-se, fazendo com que o tablado caísse e com ele todos os seus ocupantes.  Pior ainda, todos que ali estiveram fracassaram em suas candidaturas políticas, inclusive o brigadeiro.

Depois desse acidente, uma série de outros eventos programados para a praça Bento Prachedes terminaram em derrotas, como foi o caso da campanha para governador do Estado de 1955, quando o dr. Duarte Filho, candidato a vice do dr. Manoel Varela, viu sua campanha ruir. Insistindo em realizar seus comícios sempre naquela praça, o mesmo aconteceu em 1958 e em 1963, nas campanhas para prefeito, quando o dr. Duarte Filho enfrentou, respectivamente, Antônio Rodrigues de Carvalho e Raimundo Soares, perdendo as eleições, chegando a eleger-se apenas em 1966, ao Senado Federal. E segundo as más línguas, só depois que o feitiço da praça  foi exorcizado.

Ao que consta, foi o dr. Vingt Rosado quem batizou a praça de "Codó" como uma forma de diminuir os ânimos dos adversários, pois codó quer dizer azar ou carma negativa, em dialeto africano.

Coube ao então deputado federal Aluísio Alves a tarefa de exorcizar a praça. Estava ele em campanha para governador do Estado em 1960, tendo ganhado de seu adversário político Dinarte Mariz o apelido de "Cigano", com a intenção de chamá-lo de falso, mentiroso. Ao invés de se incomodar com o apelido, resolveu tirar proveito do mesmo transformando-o em marketing de campanha. Assumiu a condição de cigano e, conhecedor que era do "codó", passou a anunciar que iria exorcizar o feitiço da praça. Para tanto valeu-se dos microfones da Rádio Difusora, para mobilizar o eleitorado de Mossoró em memoráveis passeatas, cujo percurso varava as madrugadas, terminando sempre na Praça do Codó.  Assim foi sua campanha vitoriosa para governador em terras mossoroenses, com a vitória de Aluísio, estava quebrado o codó da praça. Cinco anos mais tarde voltava Aluísio a mesma praça em campanha que elegeu seu sucessor, o monsenhor Walfredo Gurgel. Era o "cigano feiticeiro" que voltava a praça, onde uma multidão o esperava portando, além dos já tradicionais lenços verdes, símbolo de campanha, trajes de cigano que passou a ser mais um símbolo aluizista, em alusão ao exorcismo do codó da praça.

O feitiço estava quebrado, mas o nome já tinha sido incorporado a praça Bento Prachedes, que mesmo sem os fluidos negativos ficou sendo conhecida como "Praça do Codó".

 

Conversa amiga

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

"E ternas saudades de..." não completei a leitura da faixa, na coroa de flores. Estranhamente ela parecia colocada sobre o caixão, do lado da cabeça do morto. Pisquei os olhos e só aí percebi que era apenas ilusão de ótica. A visão monofocal dificulta a definição dos objetos em profundidade. É quase como se enxergássemos em duas dimensões. A coroa estava onde estavam todas as outras, completando a homenagem póstuma ao amigo que se fora desta para melhor. No caso dele, melhor mesmo. Um senhor com idade para ser meu pai; pai de uma amiga que é madrinha de minha filha mais nova e de quem gosto muito.

Apesar da diferença de idade de vinte anos descobrimo-nos amigos. Uma amizade baseada no sofrimento mútuo; eu com a infecção no olho esquerdo, ele com um tumor no tórax. As conversas longas giravam em torno dos nossos problemas de saúde, que surgiram quase ao mesmo tempo. Ele me dava força, eu dava força para ele.

Depois de um período de recuperação da primeira cirurgia, que retirou um rim e parte de um pulmão, pai e filha apareceram na minha casa para um churrasco em família. A futura afilhada de uma, que seria quase neta do outro, estava prestes a nascer. O barrigão da minha mulher era como uma saudação à vida. Em casa, nada de muito sofisticado, a começar pela churrasqueira, na verdade um fogareiro barato de barro, com a grelha equilibrada nas pernas de um tamborete. Baião de dois, farofa e vinagrete acompanhavam a carne afogueada. Naquela manhã de chuva fina, sentado numa rede na varanda, prato na mão, ele prometeu retribuir o convite para um churrasco. Depois veio com uma fala que ninguém esperava.

- Esse é o dia mais feliz da minha vida.

E devia ser. Com a sensação de quem vence uma guerra - disposição estampada no rosto apesar dos efeitos da quimioterapia -, direcionou para mim palavras de incentivo, para continuar acreditando. Eu, ainda com o meu sofrimento que parecia interminável, mas todos nós felizes...

Pena que era apenas uma batalha e não a guerra. Outros problemas vieram na forma de caroços. Novas cirurgias, quimioterapia e sessões de radioterapia. Depois foi o rim que deixou de funcionar condenando meu amigo à cruel rotina da hemodiálise. A família escondia a parte pior do diagnóstico dos médicos; os amigos também assim procediam. Nossas conversas continuavam sempre que ia à casa dele. Ficávamos apenas eu e aquele homem que, antes de sermos traídos pela saúde, mal havíamos trocado umas poucas palavras. Numa dessas conversas ele chorou, desesperado com o sofrimento e por não entender o destino cruel que Deus lhe reservara. Eu também não entendia - nem o dele, nem o meu -, mas dizia que não nos restava outra opção senão continuar lutando. Que a vida era como andar de bicicleta, se a gente parasse de pedalar caía. Nada que merecesse citação num livro de auto-ajuda, mas o que valia mesmo era o ato da conversa.

Descobri e passei a utilizar uma estratégia: quando as lamentações se tornavam mais intensas falava do meu sofrimento, do quanto era chato e interminável o problema da visão. Aí não demorava e era ele que passava a me dar força. Era interessante como suas feições mudavam para melhor. Onde quer que esteja, amigo, me perdoe pelo truque.

Mas nossas conversas giravam também em torno de outros assuntos: a política, por exemplo. Por causa do meu trabalho sempre era instado a dar notícias relacionadas ao grupo político do ex-ministro Aluízio Alves. Eu não tinha muito a contar, mas dava para saciar a curiosidade dele. E, curiosamente, meu amigo morreu no mesmo dia que o líder que lhe despertava tanto interesse - 6 de maio de 2006. Não teve tempo de ver ou fazer parte do mar de gente que acompanhou o cortejo e parou Natal no dia seguinte.

O corpo, que seria velado na capela do cemitério onde o ex-ministro foi enterrado, teve que ser levado para um centro de velório, onde, à noite, mantenho, por alguns instantes, apenas o olho esquerdo aberto. Vejo apenas o vulto do caixão à minha frente; as luzes são apenas clarões, nem dá para ver as coroas de flores. Você, do mesmo jeito que eu, apenas estava enganando seu amigo.

Quem sabe não chegou a hora de perguntar a Deus por que ele lhe reservou um destino tão cruel? Como alguém que pouco fez de errado na vida pôde sofrer tanto nos últimos dias? Aproveite e pergunte por mim, mande a resposta através de um sonho. Se for muito complicado para Ele responder a subjetividade de um "porque", a objetividade do "quando" já é suficiente.

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