Mossoró-RN, domingo 14 maio de 2006

Hipólito Monte

Um dos maiores entusiasmos na infância: ser o porteiro da Flama. Uma mais que real e constante alegria, o encontro com amigos de Mossoró. Comentar o Hospital Monteklinicum e a expulsão do Colégio Santo Inácio sem mudar a tonalidade de voz caracterizam, acima de tudo, o seu caráter. O carinho por Mossoró tem a mesma intensidade do amor pela profissão. O médico cirurgião Hipólito Monte tem 53 anos e numa dessas bonitas gargalhadas do destino coube ao chofer de praça, meu pai,  Zé Izídio, a tarefa de  levar D. Aldiva para a maternidade, num 9 de dezembro, para que o entrevistado viesse ao mundo. Há 29 anos no Ceará, estado que vê com uma profunda paixão, se me fosse dada a missão de criar-lhe um slogan diria: "HIPÓLITO MONTE, ETA ‘MOSSOROEN -CE’  ADMIRÁVEL".

Por Caby da Costa Lima - azougue.com

O Mossoroense - Qual o momento mais bonito do médico Hipólito Monte?

Hipólito Monte - Eu trabalhava todos os domingos no Instituto José Frota de Parangaba, em meados de 1982, e logo ao chegar me sentei para o atendimento, quando um homenzarrão de quase 2 metros de altura dá um chutão na porta, foi caco de porta para tudo que é lado, e carregava nos braços uma mulher, colocando-a naquilo que a gente chama de pedra e desesperado disse: “Doutor, pelo amor de Deus faça alguma coisa pela minha mulher”. A senhora estava com a cabeça literalmente partida ao meio. Grávida, ela encontrava-se sentada numa rede quando uma das colunas da casa caiu por cima do seu crânio. Eu e a minha equipe  fizemos absolutamente tudo que era possível, mas ela faleceu e mesmo assim conseguimos salvar o menino e a ele foi dado de batismo o nome  Hipólito. Eu confesso que foi o instante mais legítimo que a profissão me proporcionou.

OM - Cite uma das muitas regras que fazem o profissional ser considerado realmente um bom médico?

HM - O médico não deve chorar e isso não significa insensibilidade. Eu sou meloso e muito. Agora ele tem que se virar, engolir, dar um nó na garganta, fazer uma  derivação do seu saco lacrimal, mas não pode se permitir transparecer o momento de sentimento, de hesitação, para aquelas pessoas que entendem naquele momento ser você  a salvação deles. O paciente e seus familiares não podem entender que eu absolvi  a dor deles, se  sou eu,  exatamente o seu maior depósito de confiança. Veja, o médico não cuida apenas do paciente e sim da família também, que é uma condição de extrema responsabilidade.

OM- Tratar de um paciente, tornar-se amigo e habituar-se a ele e o que o espera é o óbito. É duro para um médico?

HM - É muito duro, agora você tem que dar uma introvertida na sua vida, você se torna recluso 2 ou 3 dias. É uma luta que a gente tem todo dia e muitas vezes a gente perde pra ela. Há um amargo muito grande, mas a consciência de que outras vidas te esperam e dependem de você, traz a superação.

OM -  Você se vê como um bom médico?

HM- Eu faço com o Caby, meu paciente, exatamente o que faria comigo. Se isso é ser um bom médico, quem me conhece,  ou o internauta do azougue.com, que achar conveniente faça o julgamento.

OM -  A falta de dinheiro no bolso de um paciente é problema?

HM - Se você pensou, ou quem pensar  assim enganou-se redondamente. A falta de dinheiro no bolso do paciente, como você colocou, para mim, nunca foi, não é e jamais será problema. O problema existe, mas de maneira inversamente contrária. O problema, Caby, é o excesso do dinheiro. As pessoas que têm muito aquele negocinho chamado dinheiro pensam  que ele também compra caráter, e aí, velho, com o mossoroense aqui, filho de seu João Monte e D. Aldiva, essa situação é totalitariamente repudiada.

OM - Casado e também escravo da profissão?

HM- Eu acho que há uma verdadeira mistura. O que tenho visto, observado nos últimos tempos, me obriga a fazer a devida diferenciação. Não sei se conseguirei, mas já disse a mim mesmo que vou tentar de todas as formas. Por exemplo, amanhã, 15 de abril, sábado de aleluia, (a entrevista foi realizada na sexta-feira 14/4) eu tenho uma cirurgia programada e logo após vou relaxar em uma praia, pelo menos isso (risos) está programado. Olha, eu tenho que lhe confessar uma coisa. Eu acho que não conheço mais o litoral do Ceará e aí eu posso lhe dizer que fui realmente escravo da minha profissão. Foi um erro chegar a essa condição? Foi  sim e assumo inteiramente essa culpa. Observe: você pode errar um vez, agora o segundo erro, no mesmo segmento, dificilmente se recupera.

OM - Qual o significado do Hospital Monteklinicum na sua vida?

HM - Vou pegar carona na última palavra; "MINHA VIDA". O Monteklinicum nasceu, sem alardes,  no dia 4 de outubro de 1999 e na verdade de convidados teve apenas a minha família. O padre português, Luis Carlos, muito amigo meu no período noturno, deu a benção em toda a estrutura e já no dia seguinte eu fiz 4 cirurgias de vesícula. Eu tenho dito que o nosso hospital abriu uma nova era na medicina cearense.  Logo, logo  a sua  estrutura será  ampliada em 60%, eu tenho um projeto de 20 andares, num terreno ao lado, que contará com heliporto. Eu vou fazer do Monteklinicum o maior hospital do Nordeste. Nós já estamos criando o Instituto Hipólito Monte que vai cuidar exclusivamente de doenças do trato digestivo, esôfago, vesícula, pâncreas e por aí vai.

OM - E o significado de João Monte e D. Aldiva, D. Albaniza, Mariana e Tasso?

HM - Se quer saber mesmo, então lá vai. O senhor João Monte, D. Aldiva e também Albaniza estão sentados em três cadeiras lá em cima e eu sou o pitbull deles. Eu estou por causa deles, eu sou por conta deles e honestamente esta entrevista está me dando a oportunidade de fazer algumas revelações, em alguns instantes eu me desnudo. Olha, em muitos momentos eu os deixei de lado em prol do Monteklinicum. O hospital me tirou tempo, muito tempo do convívio com eles e veja como eles são gratificantemente lindos. Deles nunca recebi uma reclamação e sempre eternas palavras de incentivos. Mariana e Tasso, simpáticos como a avó, inteligentes como o avô e bonitos (e mais risos) como o pai.

OM - Do Hipólito porteiro da Flama ao Hipólito diretor do Monteklinicum, muita diferença?

HM - Primeiro eu quero saber quem te falou sobre o meu primeiro emprego? (risos). Não precisa falar nada, aí tem a boquinha de D. Aldiva. Eu sou o mesmo, o mesmíssimo Hipólito. Caby, eu sou o mesmo moleque que jogava bola no adro da igreja São Vicente, no Colégio Diocesano, que foi expulso do terceiro científico no Colégio Santo Inácio. Existem pessoas que não se aproximam de mim porque imaginam que eu meço caráter por funções, posições. Que se afastem de mim porque eu sou feio sim (risos) (e aí entrou a voz do Borjão, "feio é apelido"), agora nada me sobe à cabeça, eu sou aberto a diálogos, eu só não gosto de ouvir besteiras, por eu vejo que a vida passa rapidamente e atentar-se a besteira é construir obstruções para os seus próprios caminhos. Eu sou aquele mossoroense que domina por questões éticas as emoções, quando recebe um seu conterrâneo na condição de paciente. Dentro de mim uma felicidade tremenda saber que tenho o respeito daqueles que na verdade são as minhas raízes e você está vendo um exemplo.  Meu amigo, encontrar-me agora, no Hotel Luzeiros, com o Borjão, aliás, eu não quero mais conversar com você, meu papo é com o Borjão, afinal de contas só assim ele pagará a conta (gargalhada).

OM - A parada é com você Borjão, fale sobre Hipólito Monte?

Borjão - Nós fomos criados juntos, uma convivência realmente fraterna. O sentido de amizade existente na época não se vê mais hoje em dia. Hoje se observa as "amizades aproveitadoras". Hipólito não é o amigo que sempre chega, é o que sempre está.

OM - Saudades de Mossoró?

HM - Coloque em destaque na entrevista: uma saudade tremenda e entendo que o fato há pouco ter falado, que em muitos momentos me deixei engolir pela profissão, a ponto de não acompanhar como queria e devia, no dia-dia, meus pais, meus filhos, a condição de ser desculpado pela ausência de 21 anos, existirá. Olha, à distância, eu fiquei feliz e ao mesmo tempo consumindo um traguinho de tristeza por não estar presente no reencontro que houve da turma do Colégio Diocesano dos anos 67, 68. Porém, este ano eu irei a Mossoró, até porque você sabe, que praga de padre pega e como pega (risos) e eu soube que se eu não aparecer vai ter um padre de nome Sátiro que não me perdoará e poderá jogar-me uma praga. Isso eu soube através de amigos que poderá acontecer, portanto com muito prazer lá estarei para rever a minha terra, os meus amigos.

OM - Para finalizar, informo-lhe que o azougue.com cresceu muito com este contato. Algo a acrescentar?

HM - Sim, é claro que sim. Eu vou mudar as peças. Agora sou o entrevistador. Duas perguntas. Você pode me informar se o Borjão tem ido muito a Tibau? E se também foi o Borjão que colocou esse tubo de suco de morango na sua mesa? (Risos fecharam a entrevista).

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