Mossoró-RN, domingo 14 maio de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Lembranças

O tempo começa a significar alguma coisa na medida em que vamos perdendo a primeira inocência. Aí o hoje vem depois de ontem e há a promessa de um amanhã. O menino se estira na rede e procura contar, nos dedos, quantos meses e dias faltam para as quadrilhas de São João, as férias em Cigano, a temporada no Tibau, as festas de Santa Luzia, a chegada de Papai Noel. Antes, o que há é um hoje enorme, permanente, indivisível. A convenção do tempo não apareceu e os dias se contam - se é que se contam - pelas horas de brincar, horas de comer, hora de dormir que ninguém é de ferro.

Se me perguntarem o que aconteceu em tal ou qual ano, primeiros de minha vida, confundo tudo. Não sei, não sei. O ano eu não sei. As datas ainda não estavam sendo gravadas. O correr dos dias ainda não havia adquirido significação especial. Era a época em que a gente vivia sem envelhecer, vivia para transformar-se de bebê em criança, de criança em moleque do cangote duro, em adolescente, em moço. A ladeira, nessa época, tem apenas o sentido ascensional. Porque a descida ainda não começara. Sequer apresentava os seus contornos.

Quais as primeiras lembranças? Fecho os olhos para que a memória me devolva-as. E o que se apresenta, dominante, firme e sem abalos, é a imagem materna. Minha Mãe como tudo, como a própria vida adquirida, como único parâmetro, como começo, meio e fim. Minha Mãe em cada canto da casa-grande, em cada conversa, nas canções que cantava balançando-se na rede branca e de grandes varandas, o tique-tique de sua máquina de costurar, o range-range da cadeira de balanço, a sua gargalhada musical, gostosa, solta, as suas ordens, os cuidados com bolos e doces, as agulhas de tricô e de crochê, a azáfama que antecedia a hora de preparar-se para as aulas da Escola Normal, o jantar no alpendre, o cuidado com as flores do jardim, os crótons, o bogari cheiroso, as cadeiras que, à noite, se distribuíam pela nossa calçada. Tudo, tudo é minha Mãe. Não num domínio de força, não no exercício de potência. Mas naquele comando que só o amor consente. A figura bíblica da galinha que junta os seus pintainhos. A figura conhecida da alma da casa, a tudo dando corpo, a tudo dando movimento, capaz com um olhar, um gesto, de movimentar pessoas, coisas, bichos. Em torno dela, a casa. Que digo eu? Em torno dela, a vida. Os filhos zanzavam em sua volta, ouviam suas palavras, disputavam o seu colo e dormiam nos lençóis brancos de seus braços. O marido só se aquietava no seu canto, no divã que se colocava ao lado do rádio Philco, na mesa de escrever ou na poltrona das leituras, se a soubesse próxima, dominando a casa, ocupada nos seus cuidados.

Tudo nas minhas primeiras lembranças é ela, minha Mãe. Ela e a casa. Ela na casa. Ela como a casa. O meu mundo era aquela casa e não havia, que eu soubesse, nada que se estendesse além de seus limites. Só anos depois, alguns anos depois, aquele mundo se tornou mais amplo, se derramou para a praça, se encompridou pela rua de trás.

Será possível, pergunto, lembrança aos três anos de idade? Mais precisamente, aos dois anos e nove meses de idade? Há quem diga que não. Há quem diga que sim. O que imaginamos como lembrança não seria o registro de coisa ouvida, pedaço de depoimento, imaginação somada a retalho de testemunho, tudo gravado no subconsciente? Ou é possível imprimir à memória infantil as coisas que aconteceram no antanho mais antanho?

Não sei, não juro. Erguem-se, às vezes, fantasias.

Minha irmã mais velha durante toda a sua meninice acreditou ter visto um anjo, de azul e branco, voando no quarto, no sábado de meu nascimento. Para mim, o guardado mais antigo do velho baú é o nascimento de uma outra irmã, Lílian. Eu não completara três anos, foi coisa de julho de 1936. Negrinha nos acordou e vestiu e antes que pudéssemos colher uma explicação, antes que justificassem aos nossos olhos a barafunda que ia pela casa, a ausência de minha Mãe, a cara preocupada de meu Pai, o vai-e-vem de desconhecidas pelos corredores e alpendres, carregou a mim e a minha irmã mais velha, Myriam, para a casa próxima de Odete e Humberto Mendes. Eles moravam na Rua 30 de Setembro, a cem passos da nossa casa. E lá ficamos horas, cuidados pela criadagem de Odete, atendidos em nossos pedidos por Neidinha. Até que Negrinha voltou, agradeceu aos presentes, tomou um cafezinho na cozinha e cumpriu a missão de resgate, dizendo:

- Chegou uma irmãzinha para vocês.

Minha Mãe recebia visitas. Estendida sobre os lençóis, sorria. Em torno, nas cadeiras, vizinhas, parentes, amigas. Corri a abraçá-la.

- Cuidado para não quebrar o resguardo.

Fantasia? Sei não. Conto o que sei. Era tempo de menino e falo com segurança isenta de sofrimento. Lembro que nada mudou com a chegada de Lílian. Mas não chego a recordar que, no fim do ano de 1936 ou começo do seguinte, minha Mãe viajou, com Myriam, para o sul. Rio, São Paulo, a bordo do vapor Dom Pedro II. Ia, soube depois, à procura de cuidados médicos nos centros mais adiantados. Meu Pai foi deixá-la em Natal. E durante certo tempo, alguns poucos meses, estivemos sem ela, aos cuidados de Negrinha.  Disso eu não lembro, não consigo lembrar. Para mim, toda aquela fase, toda a fase que começa em 1933 e vai a 1939, é ocupada com a infância. Vivida na concha. É a descoberta de nós mesmos, a descoberta da casa, da rua, a ausência de preocupações, os brinquedos. As recordações que existem, aos retalhos, soltas e livres, não se prendem às datas. Esvoaçam intemporais.

Eu era uma criança rica? Era uma criança pobre? Não sei. Era uma criança. A criança integral, vivendo a sua idade. Não carecia de nada. Nada me fazia falta. Não sabia existisse pobreza ou riqueza, alegria ou tristeza, lágrimas e risos. As coisas se desenvolviam naturalmente. Eu sequer necessitava dos outros que não estivessem no âmago de nossa vida doméstica. Bastavam-me os meus pais, as minhas irmãs, a minha casa-grande de muitos quartos, os brinquedos. Até velocípede eu tinha. Igual ao que melhor existia na rua, senão melhor do que ele. E às tardes, banhado por Negrinha, metido em roupa de ir lá fora, saía com ele pela calçada. O trajeto não era grande. O permitido começava na esquina de Júlia Menezes e terminava na porta de Maria Maia. Luizinho Gurgel e eu apostávamos corrida, ríamos, ficávamos cansados, discutíamos. E tudo começava e recomeçava. À tardinha, pousava sobre mim os olhos de minha Mãe. Ela já retornara das aulas da Escola Normal e, sentada na cadeira de balanço posta na calçada, era a presença encorajadora, tranqüilizadora. Até que anoitecia. Os homens já tinham voltado do trabalho, já tinham passado pela calçada, a praia já se enchia de estudantes da Escola de Comércio União Caixeiral. Era a hora do jantar. A família se reunia em torno da mesa para o café com pão. E depois, todos retornavam à calçada. As crianças também. Menos meu Pai. Ele ficava no seu gabinete, ouvindo rádio, lendo livros. De quando em vez, aparecia na janela. Quando havia visita, saía à calçada. Era um homem diferente. O sono ia aparecendo. As brincadeiras iam perdendo o seu fascínio. Amarelinha, bom-barquinho, histórias de Trancoso, tique, roda, anel. O sono chegava, mas eu não me rendia. Não queria entrar sozinho. Minha Mãe me punha no colo. Balançava e cantarolava: "Estou com o corpo..." E eu tinha de responder com o estribilho: "...cansado de sambar..." E ela, na sua voz quente, respondia: "Noite e dia..." E eu, já com sono, dizia:

"...cansado de sambar..."

Aos poucos, o sono chegava. As sílabas iam sendo engolidas. Desaparecia o "can", já não se ouvia o "sam". Quando não havia sequer força para o "bar" finaL, era a vez de Negrinha entrar em cena e me levar, nos braços, para a rede. E o despertar só viria no dia seguinte...

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