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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Lembranças
O tempo começa a significar
alguma coisa na medida em que vamos perdendo a primeira
inocência. Aí o hoje vem depois de ontem e há a promessa
de um amanhã. O menino se estira na rede e procura contar,
nos dedos, quantos meses e dias faltam para as quadrilhas
de São João, as férias em Cigano, a temporada no Tibau,
as festas de Santa Luzia, a chegada de Papai Noel. Antes,
o que há é um hoje enorme, permanente, indivisível.
A convenção do tempo não apareceu e os dias se contam
- se é que se contam - pelas horas de brincar, horas
de comer, hora de dormir que ninguém é de ferro.
Se me perguntarem o
que aconteceu em tal ou qual ano, primeiros de minha
vida, confundo tudo. Não sei, não sei. O ano eu não
sei. As datas ainda não estavam sendo gravadas. O correr
dos dias ainda não havia adquirido significação especial.
Era a época em que a gente vivia sem envelhecer, vivia
para transformar-se de bebê em criança, de criança em
moleque do cangote duro, em adolescente, em moço. A
ladeira, nessa época, tem apenas o sentido ascensional.
Porque a descida ainda não começara. Sequer apresentava
os seus contornos.
Quais as primeiras
lembranças? Fecho os olhos para que a memória me devolva-as.
E o que se apresenta, dominante, firme e sem abalos,
é a imagem materna. Minha Mãe como tudo, como a própria
vida adquirida, como único parâmetro, como começo, meio
e fim. Minha Mãe em cada canto da casa-grande, em cada
conversa, nas canções que cantava balançando-se na rede
branca e de grandes varandas, o tique-tique de sua máquina
de costurar, o range-range da cadeira de balanço, a
sua gargalhada musical, gostosa, solta, as suas ordens,
os cuidados com bolos e doces, as agulhas de tricô e
de crochê, a azáfama que antecedia a hora de preparar-se
para as aulas da Escola Normal, o jantar no alpendre,
o cuidado com as flores do jardim, os crótons, o bogari
cheiroso, as cadeiras que, à noite, se distribuíam pela
nossa calçada. Tudo, tudo é minha Mãe. Não num domínio
de força, não no exercício de potência. Mas naquele
comando que só o amor consente. A figura bíblica da
galinha que junta os seus pintainhos. A figura conhecida
da alma da casa, a tudo dando corpo, a tudo dando movimento,
capaz com um olhar, um gesto, de movimentar pessoas,
coisas, bichos. Em torno dela, a casa. Que digo eu?
Em torno dela, a vida. Os filhos zanzavam em sua volta,
ouviam suas palavras, disputavam o seu colo e dormiam
nos lençóis brancos de seus braços. O marido só se aquietava
no seu canto, no divã que se colocava ao lado do rádio
Philco, na mesa de escrever ou na poltrona das leituras,
se a soubesse próxima, dominando a casa, ocupada nos
seus cuidados.
Tudo nas minhas primeiras
lembranças é ela, minha Mãe. Ela e a casa. Ela na casa.
Ela como a casa. O meu mundo era aquela casa e não havia,
que eu soubesse, nada que se estendesse além de seus
limites. Só anos depois, alguns anos depois, aquele
mundo se tornou mais amplo, se derramou para a praça,
se encompridou pela rua de trás.
Será possível, pergunto,
lembrança aos três anos de idade? Mais precisamente,
aos dois anos e nove meses de idade? Há quem diga que
não. Há quem diga que sim. O que imaginamos como lembrança
não seria o registro de coisa ouvida, pedaço de depoimento,
imaginação somada a retalho de testemunho, tudo gravado
no subconsciente? Ou é possível imprimir à memória infantil
as coisas que aconteceram no antanho mais antanho?
Não sei, não juro.
Erguem-se, às vezes, fantasias.
Minha irmã mais velha
durante toda a sua meninice acreditou ter visto um anjo,
de azul e branco, voando no quarto, no sábado de meu
nascimento. Para mim, o guardado mais antigo do velho
baú é o nascimento de uma outra irmã, Lílian. Eu não
completara três anos, foi coisa de julho de 1936. Negrinha
nos acordou e vestiu e antes que pudéssemos colher uma
explicação, antes que justificassem aos nossos olhos
a barafunda que ia pela casa, a ausência de minha Mãe,
a cara preocupada de meu Pai, o vai-e-vem de desconhecidas
pelos corredores e alpendres, carregou a mim e a minha
irmã mais velha, Myriam, para a casa próxima de Odete
e Humberto Mendes. Eles moravam na Rua 30 de Setembro,
a cem passos da nossa casa. E lá ficamos horas, cuidados
pela criadagem de Odete, atendidos em nossos pedidos
por Neidinha. Até que Negrinha voltou, agradeceu aos
presentes, tomou um cafezinho na cozinha e cumpriu a
missão de resgate, dizendo:
- Chegou uma irmãzinha
para vocês.
Minha Mãe recebia visitas.
Estendida sobre os lençóis, sorria. Em torno, nas cadeiras,
vizinhas, parentes, amigas. Corri a abraçá-la.
- Cuidado para não
quebrar o resguardo.
Fantasia? Sei não.
Conto o que sei. Era tempo de menino e falo com segurança
isenta de sofrimento. Lembro que nada mudou com a chegada
de Lílian. Mas não chego a recordar que, no fim do ano
de 1936 ou começo do seguinte, minha Mãe viajou, com
Myriam, para o sul. Rio, São Paulo, a bordo do vapor
Dom Pedro II. Ia, soube depois, à procura de cuidados
médicos nos centros mais adiantados. Meu Pai foi deixá-la
em Natal. E durante certo tempo, alguns poucos meses,
estivemos sem ela, aos cuidados de Negrinha. Disso
eu não lembro, não consigo lembrar. Para mim, toda aquela
fase, toda a fase que começa em 1933 e vai a 1939, é
ocupada com a infância. Vivida na concha. É a descoberta
de nós mesmos, a descoberta da casa, da rua, a ausência
de preocupações, os brinquedos. As recordações que existem,
aos retalhos, soltas e livres, não se prendem às datas.
Esvoaçam intemporais.
Eu era uma criança
rica? Era uma criança pobre? Não sei. Era uma criança.
A criança integral, vivendo a sua idade. Não carecia
de nada. Nada me fazia falta. Não sabia existisse pobreza
ou riqueza, alegria ou tristeza, lágrimas e risos. As
coisas se desenvolviam naturalmente. Eu sequer necessitava
dos outros que não estivessem no âmago de nossa vida
doméstica. Bastavam-me os meus pais, as minhas irmãs,
a minha casa-grande de muitos quartos, os brinquedos.
Até velocípede eu tinha. Igual ao que melhor existia
na rua, senão melhor do que ele. E às tardes, banhado
por Negrinha, metido em roupa de ir lá fora, saía com
ele pela calçada. O trajeto não era grande. O permitido
começava na esquina de Júlia Menezes e terminava na
porta de Maria Maia. Luizinho Gurgel e eu apostávamos
corrida, ríamos, ficávamos cansados, discutíamos. E
tudo começava e recomeçava. À tardinha, pousava sobre
mim os olhos de minha Mãe. Ela já retornara das aulas
da Escola Normal e, sentada na cadeira de balanço posta
na calçada, era a presença encorajadora, tranqüilizadora.
Até que anoitecia. Os homens já tinham voltado do trabalho,
já tinham passado pela calçada, a praia já se enchia
de estudantes da Escola de Comércio União Caixeiral.
Era a hora do jantar. A família se reunia em torno da
mesa para o café com pão. E depois, todos retornavam
à calçada. As crianças também. Menos meu Pai. Ele ficava
no seu gabinete, ouvindo rádio, lendo livros. De quando
em vez, aparecia na janela. Quando havia visita, saía
à calçada. Era um homem diferente. O sono ia aparecendo.
As brincadeiras iam perdendo o seu fascínio. Amarelinha,
bom-barquinho, histórias de Trancoso, tique, roda, anel.
O sono chegava, mas eu não me rendia. Não queria entrar
sozinho. Minha Mãe me punha no colo. Balançava e cantarolava:
"Estou com o corpo..." E eu tinha de responder
com o estribilho: "...cansado de sambar..."
E ela, na sua voz quente, respondia: "Noite e dia..."
E eu, já com sono, dizia:
"...cansado de
sambar..."
Aos poucos, o sono
chegava. As sílabas iam sendo engolidas. Desaparecia
o "can", já não se ouvia o "sam".
Quando não havia sequer força para o "bar"
finaL, era a vez de Negrinha entrar em cena e me levar,
nos braços, para a rede. E o despertar só viria no dia
seguinte...
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