Mossoró-RN, domingo 14 maio de 2006

Um lugar deslumbrante: natureza viva

KALIANNE PEREIRA
Da Redação

De brumas se fez gargantas, que logo habitam as Acauãs. Rio cheio e seco - de quando em vez - fez ali surgir, em paredões e águas dormentes, uma imensa beleza da natureza. Pedra sobre pedra, ocre dura do primórdio, em nomes e formas de ruma se ver por lá: pedra do Navio, pedra da Baleia, das Araras, do Canhão... Até o artista escultor aproveita da fartura e emoldura no granito sua arte secular.

A sutileza do lugar, associada aos caprichos do homem, nos permite deslumbramentos e sonhos. No balanço das manhosas e silenciosas maretas trafegam sem cessar canoas - manhãs-tarde - cheinhos (sic) de Tucunarés, arrumados por ali (sic) nos samburás.

Madrugadas solitárias transbordam de lembranças minha infância pastoril: açudes de areia, mergulhos de emoções, estórias assombradas, ao passo que o sol se aponta na ribanceira do lado de lá. Diante disso, meus olhos investigam ângulos, formas, luz, cor, vida, algo que eu possa eternizar para os meus que ainda não foram neste lindo lugar.

A descrição caprichosa, com toda a riqueza de detalhes desse presente da natureza que o açude Gargalheiras, em Acari/RN, é do admirador da paisagem existente no Rio Grande do Norte. Ele é Hugo de Macedo Vieira, fotógrafo há dez anos e jornalista, além de potiguar. O seu hobbie é apreciar a curiosa dualidade do sertão seridoense: parte do ano uma seca que afugentava gente, bicho e vegetação; e outra quando chove e deixa tudo verdinho (sic) - vezes que doía nos olhos.

Suas primeiras observações em imagens, antes mesmo de a televisão chegar em Parelhas, foi na sua casa, por uma pequena fresta na janela do grande corredor onde dormia. Foi ali, balançando em sua rede, que via imagens em cores, projetada numa parede oposta, vindo do movimento da rua da cidade.

Os primitivos homens das cavernas foram os primeiros a presenciarem esse fenômeno. Foi a partir dessas observações que, em 1515, o italiano Leonardo da Vinci descreveu cientificamente a câmera escura. Hugo começou a fotografar quando trabalhava na área de recursos hídricos (dessalinizadores), viajando por todos os municípios do Rio Grande do Norte.

A surpresa que teve com a beleza do povo simples e as paisagens apaixonantes do sertão e do litoral o levou ao mundo da fotografia. "Apesar de ter que estudar muito, o fotógrafo tem que ter uma sensibilidade apurada, pois cada alma é uma sociedade secreta", filosofa.

Macedo estudou o curso de Letras (incompleto) e estuda Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mas sua paixão profissional é a fotografia. Montou uma escola em Natal com um amigo e ensinou fotografia por dois anos, onde aprofundou seus estudos. "Nessa era digital, o fotógrafo que não estuda vai ficando para trás", avisa.

Já realizou quatro exposições em Parelhas, três em Natal, uma em Acari e uma numa estação de metrô em Barcelona, Espanha. Os temas sempre estão relacionados com as coisas do Rio Grande do Norte (cultura, paisagem, fauna, flora e povo).

Ele está preparando uma exposição itinerante chamada "Gargalheiras das Acauãs", onde pretende mostrar por todo o Estado as belezas do açude Marechal Dutra (Gargalheiras), em Acari. No próximo dia dezoito será lançando, na livraria Sicilione, o seu livro "Beco Estreito - Cinqüenta Enredos Nas Terras do Major Antão" e uma exposição fotográfica "Inside", onde entre num novo tema, onde aborda o lado lúdico e imprevisto da fotografia.

Suas fotos já circularam pelos principais jornais e revistas do Estado e eventos governamentais. Suas áreas de maior atuação são os documentários, revistas, jornais, governo e free-lance. Hoje, está abrindo uma agência de fotografia e ministrando aulas e oficinas no interior do Estado.

Hugo Macedo lança livro de causos em Parelhas

No dia 13 de janeiro deste ano, foi lançado na Casa da Cultura de Parelhas o livro "Beco Estreito", do jornalista e fotógrafo Hugo Macedo. O livro contém charges do jornalista e artista plástico Leonardo Sodré, editor-geral deste centenário.

O livro relata cinqüenta causos contados nas ruas, mesas de bar e esquinas de Parelhas. Trata-se de uma obra que fará parte das comemorações dos 150 anos de emancipação do município e faz parte da programação cultural da Casa de Cultura do município.

O autor pretende resgatar e eternizar as histórias cômicas do folclorista Mané Bonitim, do poeta Baé, do matuto Boró, do esperto e manhoso Galego de Emídio, de Mané Diana e tantos outros parelhenses que circulam na cidade, insultando, instigando, brincando, enfim, contando o dia-a-dia do município, de maneira alegre e divertida.

Tais como este: FIADO OU À VISTA?

Jorge Tenente suava e espantava as moscas enquanto salgava carne no seu açougue, quando entrou Miguelzinho, conhecido como o maior devedor da cidade. O mesmo, de uma conversa escabreada, disparou:

- Jorge, meu amigo, me venda dois quilos dessa carne que amanhã, bem cedinho, eu venho lhe pagar?

- Ora Miguezim, eu já tô salgando pra não perder! - Rebateu o açougueiro.

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