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Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br
A lei ou a ética do desejo
Por: Por: Dany Al-Behy Kanaan
A LEI DO DESEJO. Para aqueles que não conhecem, este é o título de um filme de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol. Seus filmes e sua figura sempre são alvos de alguma polêmica, em virtude de seu modo singular de ler a realidade e as relações entre as pessoas. O humor, marca essencial de suas histórias, sempre é acompanhado de uma poesia devastadora. Digo "devastadora" porque ele retrata nossos dramas exagerando aqueles sentimentos mais intensos e mais negados por nós; o tom humorístico visa justamente chamar a atenção, de modo disfarçado e cômico, para o que sentimos, vivemos, mas nem sempre podemos admitir, porque tememos ou porque aprendemos que "certas coisas são proibidas" de dizer, quanto mais de sentir.
Seu filme "A lei do desejo" é dramático e bem-humorado. O filme é o retrato de nosso desejo mais secreto. Um cineasta vive uma paixão não correspondida por um rapaz. Um outro rapaz vive uma paixão "louca", obsessiva e não correspondida pelo cineasta. Este, ainda, tem uma irmã transsexual, traumatizada por ter sido abandonada pelo pai, com quem fugiu para viver um amor incestuoso e que motivou sua mudança de sexo. Com esta irmã, vive uma sobrinha, uma criança, que nutre por ambos um amor do mais verdadeiro: pela "tia", um amor filial; pelo "tio", um amor infantil erotizado.
O desfecho desta história é trágico e, ao mesmo tempo, emocionante. Um final possível, real, para esta ficção que nos deixa atônitos e cuja linguagem única para comunicar seu drama é servindo-se, travestindo-se, do humor. Para não chocar os corações mais sensíveis e para não ferir os mais suscetíveis.
A única lei possível, em se tratando das relações amorosas - sejam elas entre amantes, não importando o sexo, irmãos, pais e filhos, amigos... - é "a lei do desejo". Desta lei, não podemos fugir.
Podemos, talvez, e nos esforçamos nesta direção, tentar negá-la, adiar nosso confronto com ela, mas escapar-lhe, nunca conseguiremos. Em algum momento da vida, da nossa vida, seremos chamados diante desta lei e teremos de prestar-lhe contas.
O PRESENTE DA VIDA. A nossa vida realmente é cheia de surpresas! E a surpresa é algo que ao mesmo tempo desejamos e tememos, porque nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente.
Uma vida sem surpresas deve ser como Clarice Lispector certa vez escreveu: é como ter em mãos um presente todo embrulhado em papel de presente e não ter a quem dá-lo; ou receber um presente e não conseguir abrir. Penso que estas situações devem ser de uma das piores solidões: ter algo e não ter a quem dar; ou receber e não saber o que fazer com o que se recebe. E quantas vezes não nos furtamos às surpresas, por algum tipo de medo ou insegurança sem sentido. Quando nos damos conta, estamos parados sozinhos com o presente nas mãos e sem saber o que fazer com ele.
O pior é quando o presente do qual se trata não é um objeto e sim nossos sentimentos. E quantas vezes não brigamos para manter as coisas como estão, com receio de desestruturar uma forma de vida a qual estamos acostumados, acomodados. Aí tentamos embrulhar nossos sentimentos e ficamos com uma sensação de vazio que vai nos consumindo e nem sequer conseguimos nomear.
Não, não é fácil nos darmos conta de quem somos, o que somos, o que queremos e, sobretudo, o que "desejamos". O processo de autodescoberta, de autoconhecimento, é cheio de surpresas, como a vida, porque trata-se da nossa vida. Somos seres repletos de possibilidades, cheios de surpresas, plenos de "presentes". Sendo assim, estamos sujeitos continuamente a nos defrontarmos com "a lei do desejo", que é o nosso desejo, ou sermos "traídos pelo desejo", que também é o nosso desejo.
Este "nosso desejo", no entanto, é que pode nos fazer ver que esse "presente em nossas mãos" pode bem ser o "momento presente", que corremos o risco de deixar de viver por julgarmos que não temos o direito, por receio ou mesmo por um tipo qualquer de 'trauma'. Tornamo-nos reféns do passado e esperamos que o futuro responda ou resolva por nós o que tanto nos ameaça, sem sequer termos nos dado a chance de conhecer ou de nos conhecermos o suficiente para decidir por nós, em nome de nosso desejo, o que queremos.
Não podemos venerar ou "culpar" o passado pelo que somos hoje, responsabilizá-lo pelo que fazemos ou deixamos de fazer. O passado é importante sim, para nos lembrar que já vivemos muitas coisas e que temos muito ainda por viver, por construir, e temos continuamente de nos construir, obra interminável que somos.
Do mesmo modo, não devemos depositar no futuro todos os nossos sonhos, ligar o "automático" da vida e aguardar sua realização. Se fazemos isso, podemos deixar de viver o que o passado nos legou de mais importante e o que o futuro poderia nos brindar com renovadas alegrias.
Como é difícil para nós olharmos o presente e perceber que nele podem estar as coisas que queremos, precisamos, desejamos. Que nele vivemos sempre, que o passado foi nosso alicerce e o futuro é nossa construção constante e imprevisível, fascinante.
Quantos de nós procuramos embrulhar com papel de presente nossos sentimentos e somos assolados por uma solidão devastadora. E quantos de nós podemos descobrir alguém a nos estender a mão, nos ajudando a desembrulhar este pacote todo enfeitado e sem graça, nos mostrando que nossos sentimentos são para ser vividos, partilhados com os outros, no presente, e não para serem embrulhados.
A ÉTICA DO DESEJO. Um amigo me conta que está apaixonado e, em certa ocasião, diante de sua nova paixão, diz: "Eu gosto de estar com você e não me arrependo, mas fico preocupado, sinto-me infiel, apesar de não ter uma vida amorosa, sexual, há muito tempo com quem ainda tenho um relacionamento. Não quero magoar ninguém".
Só há uma infidelidade ou traição possível neste caso: contra a lei do desejo. A traição ou infidelidade a esta lei é mortal. É a morte em vida. Quando estamos do lado desta lei, nunca pecamos, nunca somos infiéis, nunca traímos. A única traição possível seria aquela contra o desejo e, portanto, contra nós.
O desejo é, por sua natureza, aquilo que em nós exige sempre um passo a mais, que nos impulsiona em direção aos outros, à verdade e à vida. Uma vida verdadeira e justa.
É de nossa condição humana e desejante o erro, mas não pecamos contra o desejo, não recuamos diante dele, nem o traímos e nem lhe somos infiéis quando respondemos às suas demandas com a nossa verdade humana, a sua verdade. O desejo quer que corramos o risco de ir ao encontro de nossa felicidade e não admite acomodação e nem conformismo: ele é sempre inédito. O desejo é subversivo!
Para o desejo, trair alguém com quem convivemos é não dar a ele a oportunidade, como a nós, de seguir sua vida, descobrir em si novas possibilidades de ser feliz, de viver, de desejar, de sentir-se capaz e de fazer outras escolhas, de poder estar, também, ao lado de um outro, de si mesmo apenas, seja qual for a sua escolha. O desejo nos ensina que precisamos apostar mais no outro e em nós, respeitar o que somos, capazes sim de uma nova vida, pois não estamos presos, condenados, ao outro e nem aos nossos medos. A traição imperdoável para o desejo é trair as novas e infinitas possibilidades de vida, pois estaríamos traindo a nossa vida, a Vida.
Como nos ensina o Evangelho segundo são João, 4, 1-42, na passagem em que Jesus encontra com uma samaritana na fonte, o pecado desta mulher não é ter amantes, e sim não se apropriar de seu desejo. Não há por que condená-la ou o que condenar-lhe; apenas fazê-la ver que está se condenando a um modo de vida que não a satisfaz, que impede seu crescimento humano, suas perspectivas de uma vida mais intensa e feliz, e que ela pode desejar coisas diferentes daquelas que já tem. Quando descobre isto e que a responsabilidade por suas escolhas recai apenas sobre ela, descobre que a fonte de "água viva" da qual lhe fala Jesus está dentro dela; ela é a fonte desta "água viva" e sempre renovada que é o desejo.
O que meu amigo descobre é que ele também pode vir a ser a fonte desta água viva. Quando decidiu assumir esta paixão e contar como se sente e como está ainda preso a um relacionamento antigo, ele se deu a oportunidade de viver seu desejo e desafiar aquilo que o vem sufocando. Não o sentimento de "traição" porque está envolvido afetivamente com outra pessoa, mas o receio que o impede de dar a ele e à pessoa com quem ainda mantém um certo vínculo a chance de uma nova vida, de um novo relacionamento.
Como a samaritana, precisamos descobrir em nós esta fonte oculta e ter a coragem de beber desta água viva, a única que pode verdadeiramente nos saciar a sede do corpo e do espírito, enaltecendo nossa condição humana, até a alma. A única, também, que pode saciar a sede daquele (daqueles) que amamos.
Como a samaritana, precisamos nos dar a chance de escutar essa voz estrangeira em nós - a voz do desejo - e seguir o seu chamado, e ter a coragem de dar o salto em direção à vida, essa nova vida desconhecida que tememos e, no entanto, nos fascina e seduz. Como a samaritana, precisamos acreditar, enfim, nesta lei maior que nos desafia, nos inquieta e, por vezes, nos angustia: a lei do desejo. O desejo de ser feliz, porque merecemos, porque precisamos, porque estamos vivos!
SOBRE O AUTOR: É psicólogo clínico. Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Professor da Faculdade de Fonoaudiologia da PUC-SP. Membro-diretor do Subjectum, Grupo de Estudo e Pesquisas sobre Linguagem e Constituição do Sujeito.
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Mossoró-RN, de 2005