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Entrevista

Atravesse, correndo, que dá!

LÍRIA NOGUEIRA ALVINO
Escritora –
antonialiria@uol.com.br

Quando a gente é criança tem menos medo de fazer as coisas. Pela pouca experiência, por causa da idade, por ter vivido tão pouco, não temos tanto medo do que temos hoje.

A vida adulta nos traz o medo da morte, principalmente. E não exatamente nessa ordem vêm os medos de ficar sozinha, de perder o emprego, de ficar sem os pais, de ficar sem dinheiro.  Aos mais ajustados somam-se os medos de não terem paz, ou de não terem saúde, para si ou para os filhos. E cada medo desses vem acompanhado de um pacote completo de recomendações.

A minha mãe, por exemplo, quando eu era criança, não raro, quer dizer, quase nunca, me deixava tomar banho de chuva. Cidadã mossoroense desde sempre, ela sabia que as primeiras chuvas são as mais perigosas, por conta do calçamento quente, que naquele tempo não havia asfalto em minha rua ainda, e, por vezes, eu me via obrigada a esperar o "calçamento esfriar" para poder ser feliz na chuva.  E eu ficava perguntando:

- Esfriou?

- Ainda não.

- E agora, está frio?

- Não. Quando estiver, eu deixo.

O fato é que muitas das vezes quando o asfalto vinha dar a graça do resfriamento, a chuva estava se acabando. Então ela deixava. E eu ia de qualquer maneira. Como os pingos de fim de chuva são fraquinhos, eu nem me molhava, nem deixava de me molhar. O que me ensopava mesmo eram as lágrimas, vertidas aos borbotões, e você, amigo leitor, já sabe porque.

Comecei a ter medo de atravessar rua depois que cresci. Sendo pequena não via nada de perigoso em atravessar a rua correndo. Que delícia! Olhava rapidamente para um lado e para o outro e, na minha inocência de criança, poderia vir um trem que eu não estava vendo, olhava mesmo só para olhar, como quem diz: "Olhem para mim, já sou adulta, olho para os lados da rua quando atravesso!"

Até que um certo dia, mesmo com os medos de minha mãe, minha prima Nara me chamou do outro lado da rua. Ela estava participando de um grande evento de cozinhadinho de folhas de goiabeira em panelinhas de barro compradas no mercado velho, veja só que fato simplesmente imperdível! Com uma mão ocupada com uma panelinha e com a outra acenando para mim, ela fazia um movimento de mão espalmada em direção dela própria, me chamando. Venha!

- Não dá tempo, vem um ônibus.

- Atravesse, correndo, que dá.

Sabe assim quando não se pensa duas vezes? Estávamos todos na calçada, eu, minha mãe, uma tia minha e uma vizinha, mas nem uma delas, nem eu mesma, foi capaz de me frear nesse ato impensado. Eu tinha cinco anos e o mundo acabaria ali mesmo se naquele momento eu não atravessasse a rua correndo para ir brincar com as panelinhas de Nara. Nesse dia nem olhei direito para os lados e passei, correndo, como Nara mandou. Eu poderia ter esperado, poderia ter olhado para os lados, mas eu estava tão agradecida por minha prima me oferecer seus brinquedos que a única coisa lógica que me ocorreu foi atravessar correndo do jeito que ela mandou. Era quase uma retribuição por suas panelinhas.

Esqueci o ônibus que vinha, mas ele não esqueceu de mim. Um freio horrível, absurdo, e olhei para o meu lado direito espantada!

-Meu Deus!  Matou Lirinha!

Deu para ouvir a voz de escândalo de minha tia, antes de ela mesma desmaiar. Eu estava imóvel, paralisada, mas sem um arranhão. A linha Boa Vista-Doze Anos quase me leva desta para melhor. Só não levou graças à agilidade do motorista, chamado Nego, que prevendo minha carreira amorteceu a velocidade e freou. Muitos passageiros de dentro do veículo foram jogados de suas cadeiras, e o motorista desceu irado.

- Cadê a mãe dessa peste?

Mamãe já se apresentou dando-me uns consistentes safanões, em vez de me acalmar. Juntou gente na rua.

- Pegou?  Matou a menina?

Era tanto barulho, tanta conversa, o ônibus parado no meio da rua, o motorista gesticulando com a minha mãe e o chão sumindo sob meus pés. Fui levada para casa com passos de bailarina. Eu não conseguia tocar o chão porque mamãe praticamente me arrastava pelo braço direito. Eu estava quase pendurada.

Quando cheguei em casa o que se passou não se descreve. Apanhei como não se bate em uma criança de cinco anos. E talvez algumas loucuras que eu cometa hoje sejam ainda justificadas pelos "cocorotes" que levei na cabeça naquele dia. Não ficaram marcas, é verdade, não no corpo. Mas entendo hoje que o desespero dela em me ver atropelada só se manifestou daquela maneira. E sempre penso nisso quando estou em ares de perder a paciência com meu Heitor.  Para uma criança os valores são outros. Para mim pouco importa o tamanho do carrinho, mas para ele a fantasia é do tamanho do universo. ...E aos namorados, tudo.

Por um pacto nacional contra a corrupção

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA - Mestre em comunicação pela Michigan State University (EUA)

A sociedade brasileira vive novo surto de inconformismo com a corrupção, similar a diversos outros no passado. Antes assim. Pior seria se deixasse de se indignar diante desses episódios, tão comuns na história do país, em todos os níveis da administração (federal, estadual e municipal), em todos os Poderes e sob a direção de todos os partidos políticos.

Chama a atenção que o foco da maioria absoluta das análises se concentre em aspectos morais e em apenas uma das pontas do processo -a que vende ilegalmente serviços, acesso, facilidades ou produtos. Nela, em geral, estão políticos e funcionários públicos.

A corrupção é nefasta não apenas por ser imoral. Ela é uma das causas mais profundas de ineficiência e aumento de custos em qualquer organismo no qual ocorra. Energia, tempo, recursos humanos e materiais em grande monta são desperdiçados para manter operações de suborno, tráfico de influência, favorecimento ilegal e fornecimento de informações sigilosas.

Há um efeito colateral muito nocivo à democracia. Boa parcela da opinião pública confunde procedimentos extralegais com o direito legítimo e saudável de setores privados e não-governamentais influírem na formação de políticas públicas por meio dos canais que as instituições lhes oferecem.

Acabam sendo colocados no mesmo balaio o crime e a expressão de argumentos favoráveis ou contrários a projetos ou práticas de governo. O jogo de pressões na defesa de interesses específicos de estratos sociais ou mesmo de entidades individuais (como um sindicato ou uma companhia particular) enriquece e legitima o processo de formação de políticas públicas e deve ser estimulado, jamais confundido com atos ilícitos.

O outro fator surpreendente no debate a respeito da corrupção no Brasil é a pequena atenção que se costuma dar ao agente corruptor, muitas vezes procedente do ambiente empresarial. É como se a perversão se resumisse ao que recebe vantagens para praticar uma ilegalidade.

É evidente que o problema não se resume ao outro lado do balcão. Registra-se um grande clamor pela punição dos que se vendem. É natural que seja assim e talvez benéfico que castigos sejam aplicados exemplarmente. Mas muitos não percebem que eles próprios podem infligir pena severa à outra parte da mesa da corrupção, sem a qual ela não se concretiza: o corruptor.

Há três semanas, foi assinado em Brasília o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, iniciativa do Instituto Ethos e da Organização Internacional do Trabalho.

O pacto foi assinado por presidentes de algumas das maiores empresas do país e dirigentes de diversas entidades de classe. Ele prevê medidas como restrições comerciais e financeiras a empresas ou pessoas que fizerem uso de condições de trabalho caracterizadas como escravidão, além de diversas outras para ajudar trabalhadores libertados de tais condições.

Quem assinou o pacto se comprometeu a, no caso de descobrir na cadeia produtiva de que participa ocorrência de trabalho escravo, aplicar corretivos contra o responsável pela prática, que pode chegar inclusive à sua eliminação de tal cadeia. Essa simples possibilidade, se os maiores grupos empresariais do país prometem concretizá-la, já funciona como séria inibição a quem precisa de negócios com esses grupos.

Por que não é viável alcançar acordo similar para combater a corrupção? Os males decorrentes da corrupção para a sociedade brasileira são atualmente muito superiores aos advindos da escravidão, embora ambos sejam igualmente execráveis.

O ministro Gilson Dipp, do STJ, apresentou estudo ao Fórum Global de Luta Contra a Corrupção, promovido pela ONU, no qual estima que a corrupção seja a origem de 70% de todo o dinheiro lavado no Brasil. Isso sem contar os incalculáveis custos mencionados acima para a administração pública e privada em todos os seus níveis.

Apenas discursos e ações dos agentes do Estado são insuficientes para mitigar o problema, embora o investimento em metodologias eficientes de processo (leilão eletrônico, por exemplo) contribua para cercear espaço e diminuir oportunidades de corrupção.

A adesão formal de grandes empresas, sindicatos, entidades de classe e ONGs a um pacto solene pode ser muito eficaz. O efeito de um compromisso desses, pelo qual uma firma pega em ato de corrupção poderia ser sumariamente excluída de cadeias de produção vitais para sua sobrevivência, pode tolher ilegalidades em grande escala.

Qualquer cidadão pode participar de um pacto desses, na sua condição de consumidor. Ele também é capaz de assumir a obrigação de boicotar produtos e serviços de empresas corruptoras. O resultado desse tipo de ação já foi observado quando o público deixou de adquirir bens produzidos por indústrias que se valiam de mão-de-obra infantil.

Em vez de protestar contra a ineficiência e a morosidade da Justiça, de sair às ruas em protestos violentos, de cair no conformismo cínico de aceitar a inevitabilidade da corrupção endêmica, a sociedade pode fazer algo rápido e eficiente para reduzi-la substancialmente.

 

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