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De lamparina na mão

Certo mal-estar tem invadido meu lado profissional nesses últimos dias. Enfermeira de formação, deparei-me como o desencanto de ver meu trabalho imprensado na porta que abre para o século vinte e um.

Comecei uma busca na história e a vontade era achar um motivo que justificasse minha angústia. Ladeada por profissionais de Saúde, queria que minha enfermagem fosse mais bem vista e mais aceita pelo grupo e compreendida pelas próprias colegas como sendo uma profissão em franco acontecimento.

Somos persistentes. A enfermagem passou por um período escuro, coisa de três séculos e meio de decadência mesmo. Por um bom tempo, o cuidado era dispensado por quem fazia caridade e as monjas da época se encarregavam da tarefa. Só que, com a evolução dos tempos, o desinteresse pela vida monástica tornou-se crescente, e, para completar, havia também um movimento pela supressão dos mosteiros liderado pela reforma religiosa.

O número de monjas diminuiu. O professor Lutero vinha com tudo. Contribuindo, e muito, para que no século XVI a assistência à saúde aos pobres caísse, quase desaparecendo.

Enquanto a Inglaterra fervilhava, o feudalismo rendia-se ao capitalismo, a enfermagem recuou-se.

Auge do século XVII, as mulheres que eram postas a servir nos hospitais como enfermeiras eram as que não serviam para coisa alguma na indústria. Regularmente, essas mulheres eram imorais, analfabetas e bêbadas.

Os serviços de saúde estavam completamente por fora dos domínios da intelectualidade. Arrisco concluir que por serem identificados como os serviços domésticos, por serem manuais e por serem exercidos por mulheres.

A transformação veio a muito custo, só quando o dinheiro tornou-se imperativo e o setor produtivo começou a exigir uma reprodução ampliada. Por conta da economia vigente, os profissionais da saúde, que antes salvavam almas, tinham que salvar corpos para pegar no pesado; adaptar e conservar as forças do trabalho às exigências da situação era a lei da hora.

Meados do século XVIII e a coisa começava a mudar. A enfermagem profissional desponta na Inglaterra mais ou menos na segunda metade do século XIX. Supervisão, administração e ensino. Florense mudou o perfil do serviço e das servidoras e exigia seriedade, honestidade, lealdade, pontualidade, meio mundo de ades, espírito de organização e elegância para quem quisesse no final do curso receber o título de enfermeira.

Ela saía durante a noite pelo hospital com uma lamparina parecida com a de Aladim em busca de pacientes terminais para oferecer-lhes conforto e bem-estar. Estávamos evoluindo bem.

Da década de sessenta para cá, os enfermeiros começaram a revelar seu perfil administrativo, pesquisador e assistencial.

A miserabilidade do ensino universitário de cada dia que nos falta é ainda muito forte e a pedagogia atual propondo competição, intelectualização, aprovação exterior e uma ausência de criatividade avassaladora, dificulta, e muito, as coisas.

A enfermagem compreende que a doença é a cidadania do indivíduo ao avesso e que, por conta disso, com ou sem lamparina, as enfermeiras vão levando um facho de luz à vida dos doentes internados nos hospitais.

 

   

Príncipe da vaidade

Caio César Muniz
Presidente da Poema - Poetas e Prosadores de Mossoró

O que não faz a vaidade humana!

O poeta Jomar Rêgo, respeitado por muitos intelectuais mossoroenses e até de outras regiões, vem "se queimando" perante o meio literário local devido à infeliz idéia de auto-intitular-se "O Príncipe dos Poetas Mossoroenses" – que me desculpe o nobre poeta, mas, para mim, uma grande besteira.

Esse título, na verdade, tem várias razões para ser desconsiderado: primeiro, que há muito tempo perdeu o sentido, tendo em vista que a grande variedade de manifestações poéticas existentes nos nossos dias torna muito difícil, quase impossível, designar quem é melhor ou pior nesse ou naquele gênero. Acho que a poesia não precisa de príncipes, nem reis, nem duques, nem nada dessa espécie, precisa de poetas mesmo.

Segunda questão: nunca foi realizado, em Mossoró, uma eleição entre os literatos para a escolha de um representante da nossa poesia, como fora feito com o grande Olavo Bilac, este, sim, nomeado no início do ano de 1913, pela revista ilustrada "Fon Fon", como "O Príncipe dos Poetas Brasileiros", eleição feita por meio de uma votação nominal, aberta, tendo como votantes 124 escritores, dos quais 20 se abstiveram.

Como pode se perceber, lá se vão 88 anos, e de lá para cá não lembro de alguém ter tido a honra de receber o mérito outra vez. E em se tratando de Mossoró, muito menos.

Fizéssemos aqui coisa semelhante, tenho cá minhas dúvidas de que o "último dos parnasianos", como o poeta Jomar também costuma se autodefinir, realmente fosse nomeado "Príncipe dos Poetas Mossoroenses". Eu mesmo conto vários poetas de nossa cidade com capacidade suficiente para pleitear com iguais condições o título em questão, e até de ganhá-lo.

O fato de Jomar pertencer à Academia Mossoroense de Letras não o faz detentor desse título, até mesmo por que, dentro da própria Academia, encontro muitos outros nomes fazendo versos à altura do seu versejar. Além disso, fazer parte de Academias não significa ser o melhor em nada.

Portanto, o que temos aí é um caso de extrema vaidade, somente isso. Claro, essas são minhas considerações pessoais, não sei o pensamento dos outros confrades mossoroenses.

Não pretendo mais futricar nessa história, nem concorrer a nenhum pleito com o poeta Jomar, mas precisava desengasgar este nó em nome da poesia e dos poetas que, desinteressadamente, venho arrebanhando desde 1996, além de poupar-me de dar a cada um deles que encontro pelas ruas uma explicação sobre o título de "Príncipe dos Poetas Mossoroenses".

Digo-lhes que esse título não existe, ninguém o outorgou ao poeta Jomar Rêgo, nenhuma instituição, nenhum grupo de intelectuais, nenhum concurso, apenas a sua vaidade pessoal.

Digo ainda, nós não precisamos disto para mostrar que os nossos versos são grandes aos olhos dos nossos leitores. Mas, se um dia tivermos que ganhar tamanho reconhecimento, que venha de quem nos ouve, de quem nos lê, de quem realmente admira os nossos versos. Não nos façamos a vergonha de ostentar títulos criados por mera vontade própria. Esses não nos valem de nada, pelo contrário, podem nos remeter ao ridículo.

 

Terrorismo S.A

Alberto Montenegro
Historiador, pós-graduado em Economia
montenegro03@bol.com.br

Graças à globalização, o terrorismo conseguiu feitos inéditos, através da Internet ou dos avançados meios de comunicação, arquitetar um dos maiores planos terroristas da história. Utilizou-se tecnologia americana contra os americanos e os seus meios de transações econômicas, como bolsa de valores e acessos bancários, foram e ainda são utilizados pelos terroristas. Afinal, a globalização traz benefícios a todos?

Sim, a globalização trouxe uma melhora de vida para muitas pessoas. Mas também é verdade de que muitas outras têm sido vítimas dela. Prova disso é a exploração dos países periféricos, um abuso e falta de respeito aos seres humanos que habitam essas regiões.

As estatísticas são quase sempre frias e difíceis de entender para a maioria de nós, porém, a maioria mostra que os países desenvolvidos sempre estiveram no comando do mundo e que nesta nova era de conexões econômicas globais cada vez mais vastas, cerca de 1 bilhão de pessoas continuam desempregadas ou subempregadas, 850 milhões são subnutridas e centenas de milhões de pessoas não dispõem de suprimento adequado de água potável ou de combustível suficiente para aquecer suas casas.

Metade da população do mundo acha-se totalmente excluída da economia formal, sendo obrigada a trabalhar na economia informal do es-cambo e da subsistência. Outros procuram suprir suas necessidades no mercado negro, por meio do crime organizado. Esta é a triste realidade do mundo hoje.

As repercussões estão aparecendo, o terrorismo cresceu e se modernizou, e está conseguindo chamar a atenção do mundo. Os países não islâmicos (Américas, Europa,África e parte da Ásia) encontram-se em um ponto decisivo de sua história. As nações do mundo estão se unindo com o propósito de dar uma resposta militar unificada ao perigo muito real de ameaças feitas por movimentos terroristas.

Tenho uma grande convicção e um temor que esta guerra entre os EUA e o Afeganistão (leia-se Osama Bin Laden) transforme-se em uma nova guerra israelense, ou seja, judeus israelense contra palestinos islâmicos. Seria uma guerra sem fim, pois, mesmo que os EUA consigam eliminar Bin Laden, outros virão cada vez mais fortes e mais fanáticos.

Contudo, é preciso que sejamos igualmente audaciosos e unidos em nossa determinação de preservar o espírito democrático de abertura e tolerância, debruçando-se sobre as injustiças econômicas que permitem o florescimento do pensamento extremistas e dos atos terroristas.

Essa segunda iniciada é a única forma de assegurar, de fato, que o terrorismo seja efetivamente derrotado nos próximos anos.