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Zé
Leão: O rei da panelada
Mossoró
nos revela diariamente personagens que se identificam com o cotidiano da
cidade e acabam conquistando o coração de todos e engrandecendo ainda
mais a geografia humana da cidade.
O Mossoroense enfoca hoje um pouco da
história de um desses personagens genuinamente mossoroenses, o
comerciante José Bezerra Leão ou, como ele é popularmente conhecido, o
Zé Leão da Cobal.
Casado, pai de dois filhos e avô de um
neto, Zé Leão vem dedicando quatorze dos seus 51 anos a oferecer,
tradicionalmente, durante a madrugada, aquela que é considerada por
muitos como a melhor panelada de Mossoró.
Do rico ao pobre, do político ao
verdureiro, todos freqüentam a lanchonete J. Leão, na Conab (antiga
Cobal), que, devido à reforma no prédio, está funcionando
temporariamente na rua Marechal Deodoro, nos Paredões.
Zé Leão acorda diariamente à
meia-noite, horário em que abre o seu estabelecimento. O horário nada
convencional de funcionamento da sua lanchonete é uma das receitas do
sucesso, que vem se perdurando por 14 anos. "Enquanto as outras
lanchonetes estão fechando, eu tô abrindo", brinca, sempre que
indagado sobre sua rotina diária.
Justamente por esse horário de trabalho
que Zé Leão costuma ter como cliente alvo a chamada rebarba das festas.
Segundo ele, a maioria dos fregueses já chega embriagado, fato esse que
gera muita história hilária, além de várias lendas em torno do nome
Zé Leão. Lendas que ele faz questão de dizer que não passam de
brincadeira do pessoal.
Zé Leão, que hoje tem uma vida
tranqüila, não esconde de ninguém a origem de tudo. "Tudo que eu
tenho hoje na minha vida eu agradeço a Deus e à panelada", disse,
em tom emocionado.
Confira, então, um pouco da trajetória
desse mossoroense que é o "rei da panelada".
Por: LUIS JUETÊ – Foto: Luciano
Lellys
O Mossoroense – Quando
foi que você iniciou nessa atividade de comerciante?
Zé Leão
– Eu comecei minha vida como dono de mercearia. Um dia, um rapaz chegou
para mim e ofereceu um ponto na Conab (antiga Cobal). Na hora, eu confesso
que não estava muito interessado, mas o rapaz acabou insistindo tanto que
eu fechei o negócio.
OM – Quando foi isso?
ZL
– Isso está com 14 anos.
OM – E como foi a
negociação?
ZL – Eu
fui olhar a lanchonete lá na Conab e me surpreendi com o movimento da
lanchonete, acabei achando interessante. Então eu disse a Haroldo que eu
fecharia o negócio desde que ele me desse algumas orientações, já que
eu era iniciante naquela atividade. Ele aceitou a proposta. Então, no
outro dia, eu dei o dinheiro a ele. Também depois disso eu nunca mais o
vi, porque ele não cumpriu o prometido, e eu acabei tendo que me virar
sozinho. E devagar eu fui ajeitando a estrutura, colocando azulejo...
OM – O que o senhor
levou em conta para mudar da mercearia para a lanchonete?
ZL –
Na mercearia, eu recebia muito fiado, por isso que já estava querendo
sair do ramo. E como naquele tempo havia poucas lanchonetes em Mossoró,
eu acabei me identificando com o ramo. E foi justamente aí que eu resolvi
abrir minha lanchonete de madrugada, porque é o horário que o pessoal
volta das festas e geralmente não existe opção para as pessoas se
alimentarem. Mossoró tem uma coisa que é importante. Em todo canto tem
sua tradição. Em Mossoró, é a panelada, por exemplo, que é uma
alimentação barata e que todo mundo gosta. Então, eu acabei me
especializando nisso. Hoje eu digo a você que eu agradeço, primeiro a
Deus, depois à panelada por tudo que eu tenho na vida.
OM – Você abre o seu
estabelecimento por volta da meia-noite. Por que você optou por esse
horário nada convencional?
ZL
– Porque, geralmente, as lanchonetes abrem às 18h, e quando dá
meia-noite a maioria está fechando. Eu aproveito esse embalo que eles
estão fechando e abro a minha lanchonete, e assim vai dando certo.
Existem também aquelas pessoas que vão à minha lanchonete para fazer a
primeira refeição do dia.
OM – Há 14 anos,
então, você costuma acordar por volta da meia-noite para abrir seu
estabelecimento. Houve algum tipo de alteração no seu relógio
biológico devido a esse seu horário bem diferente?
ZL
– Não. Eu tenho essa idade todinha, mas eu sou forte. Eu sou forte da
seguinte maneira: Deus me deu muita saúde, não sou estragado, tomo minha
cervejinha de sábado. Eu tenho essa rotina diferente quanto ao sono, mas,
ao meio-dia, eu recupero. Eu saio da lanchonete às 11 horas da manhã e
deixo meu filho lá cuidando até as 17h. Mas o principal é porque eu
não sou estragado. Porque se eu fosse beber, beber e beber, meu amigo,
não tinha quem agüentasse esse meu rojão todo dia. Eu não sou
estragado, não fumo e bebo muito pouco.
OM – Você vende bebida
alcoólica?
ZL
– Não. Ave-maria!...
OM – Por que?
ZL – Bebida
só é para quem é valente. Eu não sou de nada. Às vezes, o cara bebe,
bebe e bebe e no final vem dizer que é fiado e vai embora. Aí, desse
jeito, o comerciante quebra. Eu mesmo já quebrei por causa disso. Se eu
vendesse bebida, eu já tinha quebrado. Geralmente, a pessoa chega, pede
uma, duas cerveja e paga. Depois, na terceira ou quarta vez, ele vem tomar
cinco cervejas, come e depois vem dizer que é fiado. Aí pronto, vai cair
a minha margem de lucro. Eu não tenho condições de repor o dinheiro
para cobrir aquela venda fiado.
OM – Qual o perfil dos
seus fregueses? Eles pertencem a alguma classe social específica?
ZL –
Qualquer pessoa, independente de classe social, não tem escolha. Todos
são bons, tanto faz classe alta, média ou pobre. Todo mundo freqüenta a
minha lanchonete. Brincam comigo, mas me respeitam e eu os respeito.
OM – Quais são as
pessoas influentes na cidade que freqüentam habitualmente a sua
lanchonete?
ZL
– Tem vários políticos que vêm à minha lanchonete.
OM – Quem são?
ZL
– A prefeita Rosalba Ciarlini já veio à minha lanchonete. Dr. Laíre
Rosado e Dona Sandra vêm sempre. Dos vereadores, tem Marcos Medeiros,
Jório Nogueira e tantos e tantos outros. O governador Garibaldi Alves
também esteve em minha lanchonete. Fernando Bezerra também, o reitor
Walter Fonsêca, o secretário Pedro Almeida, o juiz Expedito Ferreira.
Todo esse pessoal gosta da minha panelada. O falecido vereador Vingt Neto
era um excelente freguês. Não porque ele fosse filho de deputado, mas
porque tinha respeito pelas pessoas. Ele deixou muitas saudades.
OM – Você é
personagem do folclore mossoroense, existem muita lenda em torno do seu
nome. Conte alguma dessas histórias.
ZL
– É, realmente existe muita lenda sobre mim. Eu tenho muita história
para contar sobre a rapaziada de Mossoró. Teve a época do pessoal do
bloco de carnaval chamado Macharal. Eles deram muito trabalho a mim na
lanchonete.
OM – O que eles faziam?
ZL
– Ave-maria, rapaz!... eles viravam tudo de cabeça para baixo. Graças
a Deus, eu tenho um coração bom, caminho muito, porque, senão, eu já
tinha morrido. Eles rebolavam maionese nas paredes, rebolavam panelada,
tudo isso eles faziam...
OM – Você nunca pensou
em procurar o auxílio da polícia por causa dessa badernas no seu
estabelecimento?
ZL
– Não, porque isso é uma fase, muitos deles hoje são pais de
família, até se envergonham do que fizeram (risos).
OM – Zé Leão, você
é conhecido por ser uma pessoa pacata e, exatamente por isso, umas das
lendas que corre na cidade é que muitas pessoas, na primeira vez em que
vão à sua lanchonete, consomem e pedem para você colocar a conta no
vale. Qual o critério que você usa para aprovar ou não o crédito, já
que você, na maioria dos casos, não conhece a pessoa?
ZL
– Não, rapaz... chega um cara, com boas maneiras, aí come... Depois,
vem e diz para mim que não tem dinheiro.
OM – E o que você faz?
ZL
– Eu digo: rapaz, era para você ter me avisado antes que não tinha
dinheiro. Aí eu mando a pessoa ir embora e digo que quando tiver dinheiro
venha me pagar.
OM – E as pessoas
voltam para te pagar?
ZL
– Sempre. Eu não vou fazer confusão com um rapaz desses só por causa
de uma panelada, um cachorro-quente. Geralmente, as pessoas já estão
embriagadas, não estão com a cabeça boa, sabe como é, né? (risos).
OM – A propósito, sua
freguesia, em geral, é composta justamente pela chamada rebarba da
boemia. Como você mesmo diz, muitos chegam ao seu estabelecimento em alto
estágio de embriaguez. Como você lida com isso?
ZL
– Tem que ter a cabeça fria. Senão, meu amigo, não agüenta. Eu vou
contar uma história engraçada que ocorreu. Uma vez, o pessoal do bloco
Macharal chegou à lanchonete. Aí eles pediram cachorro-quente,
panelada... Um deles, que eu não sei nem quem foi, se aproveitou de um
descuido meu e colocou uma pedra na sopa, dessas pedras de
paralelepípedo. Quando foi mais tarde, chegou um senhor, um carroceiro, e
pediu uma sopa. Quando eu enfiei a concha, tinha uma pedra que não tinha
tamanho.
OM – Qual a sua
reação?
ZL
– Eu tive foi medo... Tive que jogar a sopa no mato (risos).
OM – Você tem outras
histórias engraçadas?
ZL
– Um dia, Paulo Pinto, ex-bancário, chegou à minha lanchonete
embriagado e fez a maior bagunça, derramou uma garrafa de refresco, fez a
maior sebozeira. E para completar, depois ele ainda queria tirar a roupa.
OM – Mesmo com toda
essa ´brincadeira´ que o pessoal faz, você guarda mágoa de alguém?
ZL – Não.
Eu não guardo mágoa de ninguém.
OM – E quem foram as
pessoas que mais deram trabalho na sua lanchonete?
ZL
– Cláudio Cabeção, Gilsinho, Edglay Gurgel, William e Michelson da
Repet, Lahyrinho (Lahyre Rosado Neto), e outros que eu não me recordo o
nome no momento.
OM – Mudando de
assunto, então quer dizer que o forte na sua lanchonete é a penelada?
ZL
– É sim, a panelada foi quem me deu sustento, graças a Deus, e o
pessoal também gosta muito. E outra, eu não tenho besteira comigo.
Qualquer pessoa pode chegar e despachar lá dentro. Pode chegar, meter a
mão na panela, se servir. A única coisa que eu não deixo colocar é a
maionese e o catchup. Pode colocar isso no jornal: a maionese e o catchup
é comigo. Você sabe disso, eu não deixo ninguém botar.
OM – Por que?
ZL
– Porque eu compro. Se fosse maionese caseira, eu deixava em cima da
mesa. Mas, como eu compro, não dá certo. Se eu colocar em cima da mesa,
eles botam todinho, aí eu vou levar prejuízo. O pessoal toma da minha
mão, me melam, mas eu não deixo em cima da mesa. Agora o resto das
coisas, tipo refrigerante, cachorro-quente, a pessoa pode se servir.
OM – Mas essa questão
do freguês se servir não pode vir a prejudicar a lanchonete na questão
da higiene?
ZL
– Não, eu fico de olho. A pessoa pode se servir, desde que seja com uma
concha.
OM – Alguém já chegou
a se queixar que alguma refeição da sua lanchonete fez mal?
ZL
– Acontece, porque muitas pessoas já vêm embriagadas e o estômago já
cheio de bebida. Desse jeito, tanto faz comer uma panelada, um
cachorro-quente ou um cavaco chinês. Uma vez o vereador Marcos Medeiros
estava hospitalizado. A enfermeira foi levar uma sopa, aí ele disse que a
sopa do hospital era melhor que a de Zé Leão. Quer dizer, se eu perdi
para a sopa do hospital, eu vou ganhar para quem?
OM – E qual a sua
expectativa para essa reforma que está sendo feita na Conab. Vai ser bom
para você?
ZL
– Vai sim. Com a reforma que está sendo feita, vai ser bom para todo
mundo. A prefeita, realmente, está fazendo um ótimo trabalho, todo mundo
está gostando. Vai ser bem mais higiênico e todo mundo vai ganhar.
OM – Desde que você
abriu a lanchonete, a cozinheira Lúcia trabalha com você?
ZL
– Não. Mas faz dez anos que ela trabalha comigo. Para você ver o que
é funcionário, antes eu era quem dava carão nela. Hoje é Lucia quem
dá carão em mim. Eu quem levo carão dela, afinal, ela tem dez anos na
casa e manda mais do que eu. Eu sou o patrão, mas tenho medo dela. A
ordem agora é dela (risos).
OM – Qual a mensagem
que você deixa aos mossoroenses que fizeram de Zé Leão um personagem da
geografia humana da cidade?
ZL
– Eu agradeço a Deus, primeiro. Depois, a toda a sociedade de Mossoró.
O humilde, o pobre, o rico, enfim, todos que me ajudaram muito. Que Deus
dê muito trabalho e muita saúde para que eles possam retornar sempre ao
meu comércio.
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