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Pé quente
No
Natal ele vira Papai Noel. No São João ele vira Lampião... Impossível
passar despercebido. Com o seu visual pra lá de chamativo, vive
atraindo a atenção dos curiosos. Mas ele não está nem aí para o
que os outros dizem ou pensam a seu respeito. Raclenilson Lopes
Galvão, ou melhor, o Pé Quente, que também se intitula de “marqueteiro”,
por fazer um trabalho publicitário em porta de lojas e através de
flashs ao vivo nas rádios da cidade, quer mais é aparecer. Acredita
que um dia será uma estrela reconhecida nacionalmente. Alguém dúvida?
O MOSSOROENSE – Quando você descobriu que tinha tino para negócio?
PÉ QUENTE – Foi quando a família decidiu vir embora para Mossoró em busca de uma vida melhor. Aqui, a minha mãe começou a fazer bolo para sobreviver. Passei uns dez anos vendendo bolo para ela, de 1976 até 1986. Nessa época, meu pai se separou da minha mãe, que teve que criar a família de sete filhos sozinha. Eu saía do Alto do São Manoel para o Centro com um balde na cabeça vendendo bolo e pastel nas oficinas e por onde passava.
OM – De onde vocês vieram?
PQ – Cheguei em Mossoró em 1975, sou filho de agricultor e morava no sertão da cidade de Jucurutu. Desde os cinco anos e até os nove anos, vivi na roça, trabalhando na enxada, pastorando e tirando leite do gado, de sol a sol. Mas desde sempre eu gostei de ser independente. Nunca pedi nada aos meus pais.
OM – Você trabalhou por muito tempo vendendo bolo?
PQ – Quando a gente já estava com uma condição de vida melhor, eu montei meu próprio negócio, uma banca de verdura na antiga Cobal, por volta de 1989. Com mais um tempo, eu coloquei um carrinho de vender confeito na esquina do antigo INSS, lá na rua Wenceslau Brás. Em seguida, eu abri uma lanchonete e em 1992 tive a idéia de se fazer o primeiro forró no asfalto de Mossoró, que começou na Wenceslau Brás, com o companheiro Nazareno Martins, que, na época, comandava um programa na Libertadora chamado Rádio Baile.
OM – Então, você é um precursor?
PQ – Da Wenceslau Brás, eu transferi o forró no asfalto para a rua Marechal Deodoro. Interditava-se um trecho do quarteirão até a Campos Sales e colocava as mesas. Tinha noite que a gente vendia 50 caixas de cervejas.
Foi quando começaram a copiar minha idéia. Então, eu inventei de criar o forróresta, que era uma mistura de forró com seresta, no ano de 1993, 1994. Copiaram de novo e aí eu criei a lambaforesta, que misturava lambada, forró e seresta. Era só eu e meu irmão Raclení, da antiga casa de show Babilônia, que criávamos essas festas.
OM – Quando você começou a trabalhar no ramo de divulgação?
PQ – A primeira publicidade que eu inventei na cidade causou o maior frisson. Eu ia fazer uma festa grande e não tinha noção de publicidade. O primeiro empresário a quem pedi apoio foi Ivo Lopes, que, na época, tinha o Armazém Vitória. Então, eu coloquei um carro de som nas ruas fazendo propaganda da festa: ‘Apoio: Armazém Vitória. Apoio: Ivo Lopes. O homem endoidou, o homem endoidou. Deu a biloura. O homem foi pro São Camilo, tá baixando tudo’. Isso deu a maior repercussão na época. Os empresários mossoroenses todos preocupados ligaram para Ivo Lopes pedindo para que ele suspendesse a propaganda que isso era coisa de doido. Fui eu que criei em Mossoró o flash ao vivo. Desde sempre eu gostei de ser independente. Nunca pedi nada aos meus pais.
OM – Você já fez muitas campanhas de divulgação para lojas em Mossoró?
PQ – A primeira loja mesmo que eu fiz publicidade foi para o Lojão das Fábricas, de José Maria Viana. Comecei lá por brincadeira. Eu tinha um equipamento de som que emprestei a ele, que na época tinha a Zé Maria Pronta-Entrega, na rua Idalino de Oliveira, e que ia fechar as portas. Tinha um locutor na loja chamado Marcos Locutor, mas que era um pouco lento, não empolgava. Cheguei para Zé Maria e disse que se pegasse o microfone enchia a loja dele de clientes e comecei: ‘Gente, vai fechar! O lojão aqui vai fechar! Zé Maria pirou! O bicho vai fechar! Tudo aqui pela metade do preço’.
De repente, começou a lotar de gente dentro da loja. Depois eu fui trabalhar com seu Santos, do Feirão dos Calçados. Lá, a gente fez uma promoção onde conseguimos vender, em duas semanas, 40 mil pares de calçados nessa promoção. Foi só em seguida que veio o contato com as Lojas Glênio, em 2000. Hoje, graças a Deus, eu sou disputado pelas empresas locais.
OM – Como foi o período em que você passou trabalhando na Bahia?
PQ – Fui convidado pelo grupo Moda K para fazer um trabalho na Bahia. Ele me liga direto chamando para voltar. Lá, também fiz um trabalho de inserções de divulgação na rádio Delmira FM e na TV Norte e Grande Rio, de Petrolina, em Pernambuco, e em Juazeiro, na Bahia. O mesmo trabalho que eu faço nas rádios de Mossoró, eu fazia lá, só que na TV, em programas populares, policiais e jornalísticos do meio-dia. Eu fazia o flash lá ao vivo. Passei mais de oito meses na Bahia.
OM – Foi quando surgiu essa história de caceteiro?
PQ – Eu criei para mudar. Para que as pessoas não se acostumassem muito comigo. Antes, eu já havia criado um chavão chamado ‘É aqui que é aqui’. Depois disso foi que veio o caceteiro. Caceteiro é uma pessoa polivalente, que é pau para toda obra, como se diz. Nas vaquejadas, as pessoas dizem muito isso. Eu deixei a Bahia e todo mundo lá ficou com esse bordão.
OM – Por que esse visual tão extravagante?
PQ – As pessoas sempre gostaram de inovação. Uma das maiores virtudes que eu tenho é de sempre estar diferente. Eu gosto de andar com uma roupa diferente, de Papai Noel; com um cabelo de cores diferentes... Eu gosto que o pessoal fale de mim, nem que seja de mal, mas que fale.
OM – Quando você decidiu adotar esse estilo?
PQ – Desde a época em que eu inventei de trabalhar com publicidade em porta de loja. Eu acho que, na mídia, a gente tem que estar sempre diferente, inovando. A gente não pode é parar, porque, se parar no tempo, cai no esquecimento. Então, tem dias que eu pinto meu cabelo de verde, em outros eu pinto de laranja ou amarelo e assim por diante. Visto uma calça azul ou vermelha e pronto. O que não posso é deixar de estar inovando.
OM – Você se inspirou em alguém para compor seu visual?
PQ – Quando foi na Copa do Mundo de 1990, a Globo tinha um personagem chamado Araquém, todo caracterizado. Foi quando me veio à cabeça criar um personagem chamado Pé Quente, porque meu nome é muito difícil de se pronunciar: Ra-cle-nil-son [soletra], já pensou?
OM – Mas por que ‘Pé Quente’?
PQ – Eu queria fazer uma coisa diferente e os locutores esportivos das rádios costumam usar muito essa expressão: “fulano de tal é pé quente”. Então, eu criei o personagem com esse nome, todo caracterizado. Tinha uma roupa verde e amarela com uma bola na cabeça. Procurei a imprensa local para fazer uma reportagem, mas a imprensa local não deu muito destaque na época.
OM – O que você já fez para chamar a atenção das pessoas?
PQ – Eu queria aparecer na Globo, de qualquer jeito, mas eu queria era aparecer na Globo. Então, eu fiz a roupa e fui assistir a um amistoso do Brasil contra a Bolívia em Recife, no Pernambuco, em 1993. Fui pro jogo todo fantasiado, carregando uma bandeira de dois metros quadrados na mão, um chapéu bem grande e uma bola enorme. Chegando lá, subi num cabo de aço que liga a arquibancada ao gramado, e que servia para socorrer pessoas feridas nas arquibancadas; entrei dentro da maca que estava pendurada no cabo, amarrei a bandeira e desci para dentro do campo. Foi aquele alvoroço. Choveu de policiais correndo atrás de mim. Quem me salvou foi o repórter da Rede Globo, Francisco José, que aproveitou e fez uma matéria que saiu em nível nacional no Globo Esporte. O Francisco José ainda me levou para conhecer toda a Seleção Brasileira no hotel onde eles estavam hospedados. Fui destaque na Rede Bandeirantes e TV Manchete. Fui destaque em todo o Brasil pela ousadia. Depois, eu consegui um patrocínio e viajei às principais capitais do País com esse personagem para assistir aos amistosos da Copa. Eu sempre gostei de aparecer e tenho certeza que, um dia, eu ainda vou ser uma pessoa de grande repercussão nacional... O que falta é uma oportunidade. É alguém investir, por que idéias eu tenho muitas.
OM – Que história é essa de você ser entrevistado pelo Jô Soares?
PQ – Pois é. A equipe do Jô Soares mandou pedir o material sobre a minha pessoa, a história da minha vida para eles analisarem. Eu tenho certeza que, se chegar ao programa do Jô Soares, eu vou fazer um grande sucesso lá, porque eu tenho meios de me virar.
OM – Qual o trabalho como marqueteiro que você mais se orgulha em ter feito?
PQ – Criei uma campanha para as Lojas Glênio chamada de Promoção da Fartura, onde o cliente poderia trocar milho, feijão e castanha por qualquer produto que quisesse adquirir. Levei a idéia para Glênio, que topou na hora. Fiz isso pensando no homem do campo, que, muitas vezes, não tem condições de comprar no crédito. Você sabe que hoje é muito difícil para o agricultor comprar no comércio porque ele não tem como comprovar renda, endereço, entre outras dificuldades. Essa campanha repercutiu em todos os jornais da cidade, além da Tribuna do Norte, Diário de Natal, Gazeta Mercantil, O Globo e no Jornal Hoje da Rede Globo. Criei também a campanha Papai Nota Mil, em parceria com o jornal O Mossoroense, onde o leitor do jornal ganhava mil reais e deu muita repercussão.
OM – Com tanto tempo de estrada, já deu para fazer um pezinho-de-meia?
PQ – Pra quem saiu do zero, hoje eu vivo bem. Possuo um carrinho e pretendo comprar também uma casa boa para minha família. Tenho um filho de três anos maravilhoso e uma esposa excelente, que é um verdadeiro amuleto da sorte para mim, que trouxe estabilidade para a minha vida. Isso ajuda muito a gente a crescer.
OM – Dizem que você gosta muito de ajudar pessoas carentes?
PQ – Eu gosto muito de ajudar as instituições de caridade, como o abrigo Amantino Câmara e o Projeto Esperança do Padre Guido Tonelotto. Faço campanhas juntamente com as empresas da cidade, através de patrocínios. Faço isso voluntariamente. A maior campanha que já fiz até hoje foi para arrecadar alimentos, através das Lojas Glênio, em 1999. Foi o São João da fraternidade. A gente fez uma parceria com o abrigo Amantino Câmara, Projeto Esperança, o Lar da Criança Pobre, da irmã Helen. Na época, a gente conseguiu arrecadar, em parceria com as Lojas Glênio, 19,5 mil toneladas de alimentos. Cada instituição recebeu, em média, cinco toneladas de alimentos.
OM – É verdade que você já fez uma campanha para ajudar um conhecido artista local que passava por dificuldades?
PQ – Eu fui fazer um trabalho para o programa Domingo Total, de Edmundo Torres. Ele conseguiu umas cestas básicas para a gente distribuir com aquelas comunidades mais carentes, nas favelas.
Quando eu cheguei na favela do Sumaré, eu encontrei o Valdemar dos Pássaros, que já foi um grande artista de Mossoró, folclórico, que já pôs o nome de Mossoró em nível nacional no programa do Faustão, no programa de Sílvio Santos, Rede Bandeirantes e na TV Manchete.
Um cidadão que merece ser respeitado. Quando eu cheguei no Sumaré, me deparei com Valdemar num casebre, caindo aos pedaços, sem ter sequer um colchão para dormir ou o que comer. O local não tinha nem onde fazer as necessidades fisiológicas. Isso me deixou muito triste. A cena de encontrar Valdemar nessa situação me chocou bastante.
Daí, eu entrei num flash ao vivo no Programa de Edmundo, contei a situação. Levei o jornal O Mossoroense para fazer uma matéria com ele. A gente passou uns seis meses divulgando muito e, graças a Deus, a prefeitura teve um pouco de bom senso e construiu uma casinha para Valdemar.
A gente conseguiu mais de 50 cestas para ele. Eu consegui também uma cama, uma rede, roupa e um colchão para Valdemar. A gente conseguiu também material de construção, telha, tijolo, e Valdemar conseguiu construir sua casinha com a ajuda da prefeitura.
OM – O que você acha que passa pela cabeça das pessoas quando cruzam com você pelas ruas da cidade, com cabelo colorido e roupas extravagantes?
PQ – Eu pinto o cabelo e ando com roupas diferentes porque eu gosto de aparecer. Mas as pessoas, quando cruzam comigo, pensam que eu sou um maluco ou um esnobe. Alguns gritam comigo que eu sou doido, sem nem me conhecer. Mas isso não me incomoda.
OM – Antes de terminar, gostaria de saber que produto você usa nos cabelos para mudar a tonalidade?
PQ – Quem faz essa loucura no meu cabelo é uma cabeleireira chamada Maria Pereira. Ela traz essas tintas da Itália, mas as pessoas pensam que é papel crepom, lápis hidrocor, qualquer coisa desse tipo, menos tintura importada.
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Mossoró-RN, domingo, 12 de janeiro de 2003