Câmara de Campo Grande aprova CPI contra ex-presidente

MÁRCIO COSTA
Da Editoria do Regional

Vereadores cobram documentos e prestações de contas da gestão 2000/2001 e vereador pode perder o mandatoCAMPO GRANDE - A manhã de ontem foi marcada por muita movimentação em torno da aprovação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o mandato do ex-presidente da Casa, o vereador João Fernandes da Costa, ‘João Pisco’.

A sessão marcada para iniciar às 9h, começou com 50 minutos de atraso e diante de uma forte presença popular, nas imediações da sede do poder Legislativo, foi aberta com o esclarecimento do atual presidente da Câmara, vereador Jacy Carlos, abordando os motivos que levaram à necessidade de instalação da CPI.

“Estranhamente não fui informado da situação financeira da Câmara. Ao assumir a presidência, juntamente com minha equipe financeira, detectamos a inexistência de documentos e prestações de contas referentes aos anos de 2000 e 2001. A falta de informação está gerando constrangimentos”, destaca Jacy Carlos.

Reforçando as explicações, o vereador destacou que não teve como atender um pedido de esclarecimentos encaminhado pelo prefeito da cidade, Edilberto de Almeida, e está sob ameaça de apreensão da viatura da Câmara, adquirida no final da gestão de ‘João Pisco’ de forma irregular.

“Além de não existir como gerar explicações que estão sendo exigidas recebi um mandado de busca e apreensão do carro da Câmara por falta de pagamento”, reforça o vereador.

O veículo, que corre o risco de ser apreendido, foi comprado em período proibido pela lei de responsabilidade fiscal, segundo os vereadores, repassando débito para a atual gestão administrativa.

O débito de R$ 6.000,00 repassado para a atual gestão não poderá ser pago pela Câmara e o problema deverá para na Justiça.

“Não tenho com o pagar o débito do carro e este problema deverá parar na Justiça”, destaca o presidente da Câmara.   

A CPI foi aprovada por 8 dos 9 vereadores presentes à sessão. Com a ausência do vereador Chiquinho do Salgado que justificou o não-comparecimento na reunião, apenas o vereador Franciene Pedro optou pela abstenção de voto.

A comissão que abrirá os trabalhos na próxima segunda-feira será composta pelos vereadores Mário Veras (presidente), Pedro Paulo (vice), Adriana Alves (relator), Chiquinho do Salgado e Branquinha (membros)  

Vereador poderá processar a Câmara

Sem a abertura de espaço para a explanação do contador da última gestão administrativa, o vereador ‘João Pisco’ antecipou os motivos que levaram ao atraso da prestação de contas da sua gestão.

“É do conhecimento de todos que o meu contador enfrentou graves problemas de saúde e teve que se deslocar às cidades de Natal e São Paulo para fazer exames do coração”, destaca o vereador.

O vereador ‘João Pisco’ explicou que recebeu a prestação de contas do seu antecessor com 4 meses de atraso e que mesmo assim não optou pela perseguição que está sendo direcionada à sua pessoa.

O vereador antecedeu a sua defesa e pediu para que o povo o julga-se diante dos fatos que estão sendo registrados.

“Será que ‘João Pisco’ fez o que estão dizendo? A população de Campo Grande tem a consciência do que estão fazendo comigo”, reforça o vereador.

Segundo ‘João Pisco’, após a comprovação da lisura de todos os seus atos, será iniciado um trabalho.

“Tenho fé em Deus e vou me recuperar de tudo que estão fazendo comigo. Após comprovar que não devo nada irei iniciar um trabalho para limpar a minha imagem que está arranhada com o episódio”, destaca o ex-presidente.

‘João Pisco’ não descarta a possibilidade de processar a Câmara pelos danos morais que estão sendo acumulados em função do atual processo de investigações e irá conversar com o seu advogado para saber detalhes sobre o modo de condução após o processo de investigações”, conclui o vereador.

A Comissão de Constituição e Justiça solicitou do ex-presidente da Câmara uma lista contendo 13 documentos e relatórios referente à gestão 2000/2001, que será analisada a partir da próxima segunda-feira.

Vereador diz que está sendo ‘sacaneado’

Durante toda a reunião, uma verdadeira guerra de nervos foi travada pelos vereadores. De um lado, o ex-presidente da Casa, o vereador ‘João Pisco’, destacou não haver nenhuma irregularidade, e sim um processo de perseguição a qual qualificou como ‘sacanagem política’.

“Estou sendo colocado a prova. Estão com ‘sacanagem política’ para me enfraquecer junto ao povo. Se eu errei, foi por ter ajudado o povo em minha gestão e não me deram nem a oportunidade de defesa”, afirma o vereador.

Do outro lado o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, vereador Pedro Paulo, esclarece destacando que a Câmara está apenas cumprindo a sua obrigação de esclarecer os fatos.

“Jamais houve da minha parte ou da comissão o desejo de prejudicar o vereador citado. Nós temos a obrigação de fazer cumprir o regimento interno. Existem indícios de irregularidades na gestão passada. A comissão foi solicitada para fazer este trabalho e estamos cumprindo”, afirma Pedro Paulo que destaca a imparcialidade no processo.  

“Não estamos afirmando que o vereador cometeu irregularidades, mas existem indícios e será necessária a averiguação”, conclui o vereador.

Dos 9 vereadores presentes apenas o edil Franciene Pedro ocupou a tribuna para defender o ex-presidente.

“Esta comissão foi criada com o intuito de julgar o nosso companheiro de trabalho. Ele e o seu contador não tiveram nem mesmo o direito a apresentar a defesa prévia”, afirmou o vereador em plenário.

Paralelamente o vereador Iran Veras esclareceu que o processo de instalação da CPI era irreversível diante do cenário de dúvidas existentes em função da falta de documentos que comprovem a lisura das ações da última gestão.

“Chegamos a uma situação onde a CPI tem que ser criada. Nenhuma das solicitações de documentos foi atendida. A Lei de Responsabilidade Fiscal é clara, ou os vereadores fiscalizam ou são punidos. Não estamos perseguindo. Nós não podemos ser coniventes”, conclui Iran Veras.      

 

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Mossoró-RN, sábado, 15 de março de 2003