Mossoró-RN, domingo 12 de março de 2006

Irmã Ellen

Uma lição de fé em Deus, de abnegação e de amor ao próximo. Assim pode ser sintetizada a entrevista concedida ao O Mossoroense pela freira franciscana Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Agraciada no último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com a Medalha do Mérito Social Maria do Céu Fernandes, concedida pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte por indicação da deputada estadual Larissa Rosado (PSB), ela que nasceu em Augsburg, Sul da Alemanha, fala sobre o chamado para ajudar os pobres, conta porque resolveu morar em Mossoró, comenta a situação das crianças abandonadas na cidade e afirma que "Jesus vai nos julgar segundo as obras de caridade que praticamos em nossa vida".

Por Caio César Muniz

O Mossoroense - Como a senhora decidiu sair da Alemanha para ajudar, de forma voluntária, as pessoas do Brasil, mais especificamente de Mossoró, tão carentes de atenção por parte dos poderes públicos?

Irmã Ellen - Desde a idade de 13 anos eu queria ir para as Missões e ajudar aos pobres. As Irmãs Franciscanas, com quem estudei, tinham missões no Brasil. Através delas cheguei a este grande país.

O bispo de Mossoró, dom Gentil, já falecido, conheceu nossas Irmãs e nos convidou a trabalhar em Mossoró.

OM - Existe um culpado pela grande incidência de crianças que são abandonadas? Quem seria este responsável?

IM- Vejo principalmente dois fatores que contribuem para o abandono de crianças: as injustiças socioeconômicas que têm suas raízes na história e o desmoronamento moral da família hoje em dia que tem sua raiz no desrespeito à Lei de Deus.

A culpa porque existem tantos meninos abandonados é coletiva,  cometida por centenas de milhares de pessoas, não somente em nosso tempo,  mas já desde o tempo da colonização: as guerras da conquista do país e depois o sistema de escravatura, realidades que muitas vezes destruíram a família, e depois, como conseqüência, as grandes diferenças socioeconômicas entre as raças e classes sociais - que freqüentemente fizeram necessária a separação entre os pais e entre pais e filhos para cada um sobreviver. (Por exemplo: o pai não acha emprego no lugar onde moram a esposa e os filhos; procura ganhar seu pão longe da família e demora a voltar; a mulher sem recursos procura um emprego doméstico; e as crianças vão para a rua).

 Hoje em dia se acrescenta ainda um outro fator: o desmoronamento moral da família por falta de compromisso com a Lei de Deus. Muitos pais e mães de hoje não assumem o compromisso de fidelidade mútua que Jesus Cristo propõe. A criança não tem mais um lar com seus pais biológicos, mas com padrasto e madrasta.

Ela se sente rejeitada, desprezada, não tem uma pessoa de referência segura em que pode confiar - assim procura resolver o problema de sua maneira: ela vai para a rua ou um outro lugar onde se sente melhor.

Na reconstrução das famílias os próprios meios de comunicação, especialmente a TV, poderiam ajudar muito, já que eles contribuíram bastante para a falta de compromisso  entre os casais, desprezando os ideais de fidelidade e de maternidade responsáveis.

OM - O que faz ver que vale a pena dedicar a vida a um trabalho desta natureza?

IM - Jesus vai nos julgar segundo as obras de caridade que praticamos em nossa vida.  A Ele mesmo fazemos tudo que fazemos ao nosso próximo necessitado. A palavra: "O que fizerdes ao menor de meus irmãos a MIM o fizestes" (Mt  25,46), é uma palavra de Jesus que norteia minha vida.

OM - Quais as dificuldades encontradas pela senhora para administrar o Lar da Criança Pobre, ou não tem alguma?

IM - Dificuldades desde sempre: encontrar pessoas que não trabalham somente pelo dinheiro, mas pela causa ou seja, pelo bem do próximo necessitado.

É difícil achar funcionários e voluntários que tenham um espírito de verdadeira caridade. E que também sejam competentes no seu trabalho profissional.

Dificuldades financeiras: apareceram seriamente na 2ª parte do ano passado: o valor das doações alemães no Brasil diminuiu por um terço (o Euro passou de 3,6 para 2,5 reais)- e assim foi necessário diminuir os funcionários e o número de  assistidos pela mesma proporção - este ano um terço a menos. A maior parte de nossas doações financeiras ainda vêm de pessoas particulares alemães que querem ajudar.

OM - Quantas pessoas, entre crianças e adultos, são atendidas pela senhora e de que forma elas são beneficiadas?

IM- Na educação de crianças pobres.

No ano passado eram mais do que 4.000 alunos em escolas para crianças pobres, 650 crianças em creches e educação integrada, 1.200 em cursos profissionais e 90 em lares substitutos - presentes todo dia.

Este ano diminuímos os números em um terço por motivo das dificuldades financeiras.

Na assistência social e saúde: projeto S.Lucas: assistência aos pobres mais pobres.

Assistência nas favelas e aos pedintes da rua, visitando todos que parecem muito necessitados nas suas casas e barracos e, conforme suas evidentes  necessidades, lhes ajudamos com alimentação, vestuário, remédios, moradia, transportes, documentos, etc.  -  (2.500 pessoas cadastradas, 150 constatadas como vivendo na miséria, estes recebendo quinzenalmente cestas de alimento e outras coisas necessárias.

Também realizamos Evangelização nas favelas.

Projeto Emaús: abrigando pessoas de outros lugares, especialmente familiares de pessoas internadas do interior, levando diariamente 2  refeições para os acompanhantes pobres nos hospitais, fornecendo remédios, cadeiras de roda e dando outras ajudas em casos que o hospital não os providencie.

Atendimento diário com refeições e doações materiais para cerca de 30 pessoas em vários hospitais.

Na parte espiritual: Visitas e orações com os doentes, individualmente e em grupo.

Projeto S.Pedro e Paulo: visitas aos presos, especialmente aos abandonados pela família, nas delegacias, cadeia pública e penitenciária, 2 a 3 vezes por semana, em grupos formados por funcionários e voluntários:

Conversas com os presos, evangelização, contatos com a família e a Justiça, fornecimento de materiais necessários: material de higiene, calções, remédios, leituras, etc.

Todos os presos em Mossoró e arredores são incluídos neste projeto, doações materiais doados somente para os mais abandonados e carentes.

Nº de presos total: cerca de 500

Projeto S.Bakhita: Pessoas moradoras de rua e/ou abandonadas pela família: oferecemos dormida à noite, as 3 refeições, semanalmente há reunião  com diálogo, meditação da Palavra de Deus, evangelização e atendimento das necessidades materiais básicas. Nº de assistidos atualmente: 25.

Consultório dos Pobres com dra. Ir.Cristina, médica clínica. Somente para indigentes; se for necessário: doação de remédios. Cadastrados: uns 25.000 pacientes no decurso de 25 anos.

Consulta médica semanal no Abrigo dos Idosos: com dra. Ir.Cristina. Freqüentemente com doação de remédios. Cerca de 70 idosos no abrigo.

APAM: Associação de Protetores de Animais de Mossoró: esta instituição (desde 1998) visa educar crianças e adultos para atitudes de mais responsabilidade para com os animais, salvando estes, na medida do possível, de torturas, maus-tratos e morte cruel desnecessária (comp. a Lei: 9.605/98,Art.32). Programa quinzenal na Rádio Rural.   

OM - Ao longo deste tempo, algum fato lhe trouxe uma emoção especial? Qual?

IM -  Motivos de alegria:  Sempre uma grande alegria se vejo crianças pobres reunidas e organizadas em nossas escolas e lares: cantando, rezando, respeitando, aprendendo e brincando.

Sempre quando conseguimos ajudar a uma pessoa verdadeiramente necessitada.

Tristeza: se há crianças e adolescentes que estão no caminho da perdição; não aceitando as boas propostas para eles, mas querendo fazer o mal na rua e se entregando aos vícios.

Medo: - que aconteçam acidentes ou crimes com as crianças e adultos assistidos, que os animais inocentes sejam torturados e mortos.

Esperança: - que todas as crianças e jovens assistidos encontrem o caminho certo na vida. Que todos se salvem. Que a sociedade, cada um, tenha mais compaixão com os que sofrem e ajude sempre quando puder.

OM - O que se pode fazer para reduzir o número de abandonos de crianças?

IM - Boa orientação dos jovens, antes que eles se tornem pais.  Que se fortifique com programas adequados o senso de família, a consciência de responsabilidade sobre os filhos gerados,  que se anime o amor e a fidelidade dos pais existentes, que se facilite a manutenção dos filhos da mãe abandonada carente para que ela não precise deixar os filhos sozinhos para ganhar seu pão. Mais do que tudo as crianças precisam de mãe.

OM - O Lar vai engajar-se na Campanha da Fraternidade? De que forma?

IM - Em nossos educandários (escolas,creches, lares) estamos tratando o assunto da Campanha de Fraternidade todo ano nas aulas de religião e nos momentos de oração diária.

A respeito da inclusão dos deficientes: Toda vida tivemos entre nossos alunos e assistidos e também entre nossos funcionários pessoas deficientes, sem destacá-los especialmente.

Durante muitos anos tínhamos 2 turmas de deficientes; atualmente não são separados dos chamados normais.

Sem ter recursos especiais para uma educação específica de deficientes convivemos com eles dentro de nossa instituição. Num levantamento realizado há 2 anos contamos 51 alunos deficientes físicos e mentais em nossa instituição.

OM - De que forma a sociedade pode apoiar o trabalho realizado pelo Lar da Criança Pobre?

IM - De toda forma.: com um olhar de benevolência, como percebo nesta entrevista da parte do jornal O Mossoroense através do sr. Caio César. Muitas pessoas pensam que não têm condições para ajudar. Mas sabemos todos: o que mais nos ajuda é a aceitação pelos outros, um olhar de bem-querer, um sorriso sincero, um pequeno gesto de simpatia. Todos nós precisamos disso, também o Lar da Criança Pobre como conjunto de pessoas que trabalham ou sejam assistidas.

Concretamente: que a população não se aborreça com as fraquezas humanas que nós adultos e nossas crianças têm, que não julgue mal se vê uma criança nossa com piolhos (que trouxe de casa), que não pense cada vez que o educador é cruel se uma criança chora (ela pode ter manha), que não condene nossa limpeza se uma vez um freezer não funciona e por isso o mau cheiro se espalha, que não ache a nossa instituição culpada se algumas crianças roubam e outros assistidos brigam no meio da rua. Não conseguimos transformar o mundo num instante. Sofremos com os males de nossos assistidos e pedimos a paciência de todos.

A respeito de ajuda em termo de serviços: quem quiser ser voluntário para algumas horas regularmente, com compromisso de responsabilidade e integração na ordem geral do Lar da Criança, que fale comigo - Seja bem-vindo.

Quem quiser nos ajudar materialmente:com alimentos: Ótimo. Servirá muito. Roupa usada, mas que ainda presta para usar: Agradecemos.

Outros objetos de uso, quaisquer que sejam necessários para uma vida normal e digna: gostaremos de receber.

Ajuda financeira: necessária para pagar os funcionários indispensáveis para o funcionamento do Lar da Criança com escolas de favela, creches, lares substitutos e projetos de assistência: absolutamente necessária esta doação.

Desde o primeiro dia de existência dependemos 100% de doações de boa vontade.

OM - Nós vivemos uma realidade diferente do restante do país, ou esta questão de abandono de crianças é algo vivido em todo o Brasil?

IM - A questão da criança abandonada é de todo o país. Mas já está sendo tomada uma série de medidas para amenizar o problema.

"Quem acolher uma destas crianças, a MIM é que acolhe," diz nosso Mestre.

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