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Irmã
Ellen
Uma lição de fé em
Deus, de abnegação e de amor ao próximo. Assim pode
ser sintetizada a entrevista concedida ao O Mossoroense
pela freira franciscana Liselotte Elfriede Scherzinger,
a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança
Pobre. Agraciada no último 8 de março, Dia Internacional
da Mulher, com a Medalha do Mérito Social Maria do Céu
Fernandes, concedida pela Assembléia Legislativa do
Rio Grande do Norte por indicação da deputada estadual
Larissa Rosado (PSB), ela que nasceu em Augsburg, Sul
da Alemanha, fala sobre o chamado para ajudar os pobres,
conta porque resolveu morar em Mossoró, comenta a situação
das crianças abandonadas na cidade e afirma que "Jesus
vai nos julgar segundo as obras de caridade que praticamos
em nossa vida".
Por Caio César Muniz
O Mossoroense -
Como a senhora decidiu sair da Alemanha para ajudar,
de forma voluntária, as pessoas do Brasil, mais especificamente
de Mossoró, tão carentes de atenção por parte dos poderes
públicos?
Irmã Ellen - Desde
a idade de 13 anos eu queria ir para as Missões e ajudar
aos pobres. As Irmãs Franciscanas, com quem estudei,
tinham missões no Brasil. Através delas cheguei a este
grande país.
O bispo de Mossoró,
dom Gentil, já falecido, conheceu nossas Irmãs e nos
convidou a trabalhar em Mossoró.
OM - Existe um culpado
pela grande incidência de crianças que são abandonadas?
Quem seria este responsável?
IM- Vejo principalmente
dois fatores que contribuem para o abandono de crianças:
as injustiças socioeconômicas que têm suas raízes na
história e o desmoronamento moral da família hoje em
dia que tem sua raiz no desrespeito à Lei de Deus.
A culpa porque existem
tantos meninos abandonados é coletiva, cometida
por centenas de milhares de pessoas, não somente em
nosso tempo, mas já desde o tempo da colonização:
as guerras da conquista do país e depois o sistema de
escravatura, realidades que muitas vezes destruíram
a família, e depois, como conseqüência, as grandes diferenças
socioeconômicas entre as raças e classes sociais - que
freqüentemente fizeram necessária a separação entre
os pais e entre pais e filhos para cada um sobreviver.
(Por exemplo: o pai não acha emprego no lugar onde moram
a esposa e os filhos; procura ganhar seu pão longe da
família e demora a voltar; a mulher sem recursos procura
um emprego doméstico; e as crianças vão para a rua).
Hoje em dia se
acrescenta ainda um outro fator: o desmoronamento moral
da família por falta de compromisso com a Lei de Deus.
Muitos pais e mães de hoje não assumem o compromisso
de fidelidade mútua que Jesus Cristo propõe. A criança
não tem mais um lar com seus pais biológicos, mas com
padrasto e madrasta.
Ela se sente rejeitada,
desprezada, não tem uma pessoa de referência segura
em que pode confiar - assim procura resolver o problema
de sua maneira: ela vai para a rua ou um outro lugar
onde se sente melhor.
Na reconstrução das
famílias os próprios meios de comunicação, especialmente
a TV, poderiam ajudar muito, já que eles contribuíram
bastante para a falta de compromisso entre os
casais, desprezando os ideais de fidelidade e de maternidade
responsáveis.
OM - O que faz ver
que vale a pena dedicar a vida a um trabalho desta natureza?
IM - Jesus vai nos
julgar segundo as obras de caridade que praticamos em
nossa vida. A Ele mesmo fazemos tudo que fazemos
ao nosso próximo necessitado. A palavra: "O que
fizerdes ao menor de meus irmãos a MIM o fizestes"
(Mt 25,46), é uma palavra de Jesus que norteia
minha vida.
OM - Quais as dificuldades
encontradas pela senhora para administrar o Lar da Criança
Pobre, ou não tem alguma?
IM - Dificuldades desde
sempre: encontrar pessoas que não trabalham somente
pelo dinheiro, mas pela causa ou seja, pelo bem do próximo
necessitado.
É difícil achar funcionários
e voluntários que tenham um espírito de verdadeira caridade.
E que também sejam competentes no seu trabalho profissional.
Dificuldades financeiras:
apareceram seriamente na 2ª parte do ano passado: o
valor das doações alemães no Brasil diminuiu por um
terço (o Euro passou de 3,6 para 2,5 reais)- e assim
foi necessário diminuir os funcionários e o número de
assistidos pela mesma proporção - este ano um
terço a menos. A maior parte de nossas doações financeiras
ainda vêm de pessoas particulares alemães que querem
ajudar.
OM - Quantas pessoas,
entre crianças e adultos, são atendidas pela senhora
e de que forma elas são beneficiadas?
IM- Na educação de
crianças pobres.
No ano passado eram
mais do que 4.000 alunos em escolas para crianças pobres,
650 crianças em creches e educação integrada, 1.200
em cursos profissionais e 90 em lares substitutos -
presentes todo dia.
Este ano diminuímos
os números em um terço por motivo das dificuldades financeiras.
Na assistência social
e saúde: projeto S.Lucas: assistência aos pobres mais
pobres.
Assistência nas favelas
e aos pedintes da rua, visitando todos que parecem muito
necessitados nas suas casas e barracos e, conforme suas
evidentes necessidades, lhes ajudamos com alimentação,
vestuário, remédios, moradia, transportes, documentos,
etc. - (2.500 pessoas cadastradas, 150 constatadas
como vivendo na miséria, estes recebendo quinzenalmente
cestas de alimento e outras coisas necessárias.
Também realizamos Evangelização
nas favelas.
Projeto Emaús: abrigando
pessoas de outros lugares, especialmente familiares
de pessoas internadas do interior, levando diariamente
2 refeições para os acompanhantes pobres nos hospitais,
fornecendo remédios, cadeiras de roda e dando outras
ajudas em casos que o hospital não os providencie.
Atendimento diário
com refeições e doações materiais para cerca de 30 pessoas
em vários hospitais.
Na parte espiritual:
Visitas e orações com os doentes, individualmente e
em grupo.
Projeto S.Pedro e Paulo:
visitas aos presos, especialmente aos abandonados pela
família, nas delegacias, cadeia pública e penitenciária,
2 a 3 vezes por semana, em grupos formados por funcionários
e voluntários:
Conversas com os presos,
evangelização, contatos com a família e a Justiça, fornecimento
de materiais necessários: material de higiene, calções,
remédios, leituras, etc.
Todos os presos em
Mossoró e arredores são incluídos neste projeto, doações
materiais doados somente para os mais abandonados e
carentes.
Nº de presos total:
cerca de 500
Projeto S.Bakhita:
Pessoas moradoras de rua e/ou abandonadas pela família:
oferecemos dormida à noite, as 3 refeições, semanalmente
há reunião com diálogo, meditação da Palavra de
Deus, evangelização e atendimento das necessidades materiais
básicas. Nº de assistidos atualmente: 25.
Consultório dos Pobres
com dra. Ir.Cristina, médica clínica. Somente para indigentes;
se for necessário: doação de remédios. Cadastrados:
uns 25.000 pacientes no decurso de 25 anos.
Consulta médica semanal
no Abrigo dos Idosos: com dra. Ir.Cristina. Freqüentemente
com doação de remédios. Cerca de 70 idosos no abrigo.
APAM: Associação de
Protetores de Animais de Mossoró: esta instituição (desde
1998) visa educar crianças e adultos para atitudes de
mais responsabilidade para com os animais, salvando
estes, na medida do possível, de torturas, maus-tratos
e morte cruel desnecessária (comp. a Lei: 9.605/98,Art.32).
Programa quinzenal na Rádio Rural.
OM - Ao longo deste
tempo, algum fato lhe trouxe uma emoção especial? Qual?
IM - Motivos
de alegria: Sempre uma grande alegria se vejo
crianças pobres reunidas e organizadas em nossas escolas
e lares: cantando, rezando, respeitando, aprendendo
e brincando.
Sempre quando conseguimos
ajudar a uma pessoa verdadeiramente necessitada.
Tristeza: se há crianças
e adolescentes que estão no caminho da perdição; não
aceitando as boas propostas para eles, mas querendo
fazer o mal na rua e se entregando aos vícios.
Medo: - que aconteçam
acidentes ou crimes com as crianças e adultos assistidos,
que os animais inocentes sejam torturados e mortos.
Esperança: - que todas
as crianças e jovens assistidos encontrem o caminho
certo na vida. Que todos se salvem. Que a sociedade,
cada um, tenha mais compaixão com os que sofrem e ajude
sempre quando puder.
OM - O que se pode
fazer para reduzir o número de abandonos de crianças?
IM - Boa orientação
dos jovens, antes que eles se tornem pais. Que
se fortifique com programas adequados o senso de família,
a consciência de responsabilidade sobre os filhos gerados,
que se anime o amor e a fidelidade dos pais existentes,
que se facilite a manutenção dos filhos da mãe abandonada
carente para que ela não precise deixar os filhos sozinhos
para ganhar seu pão. Mais do que tudo as crianças precisam
de mãe.
OM - O Lar vai engajar-se
na Campanha da Fraternidade? De que forma?
IM - Em nossos educandários
(escolas,creches, lares) estamos tratando o assunto
da Campanha de Fraternidade todo ano nas aulas de religião
e nos momentos de oração diária.
A respeito da inclusão
dos deficientes: Toda vida tivemos entre nossos alunos
e assistidos e também entre nossos funcionários pessoas
deficientes, sem destacá-los especialmente.
Durante muitos anos
tínhamos 2 turmas de deficientes; atualmente não são
separados dos chamados normais.
Sem ter recursos especiais
para uma educação específica de deficientes convivemos
com eles dentro de nossa instituição. Num levantamento
realizado há 2 anos contamos 51 alunos deficientes físicos
e mentais em nossa instituição.
OM - De que forma
a sociedade pode apoiar o trabalho realizado pelo Lar
da Criança Pobre?
IM - De toda forma.:
com um olhar de benevolência, como percebo nesta entrevista
da parte do jornal O Mossoroense através do sr. Caio
César. Muitas pessoas pensam que não têm condições para
ajudar. Mas sabemos todos: o que mais nos ajuda é a
aceitação pelos outros, um olhar de bem-querer, um sorriso
sincero, um pequeno gesto de simpatia. Todos nós precisamos
disso, também o Lar da Criança Pobre como conjunto de
pessoas que trabalham ou sejam assistidas.
Concretamente: que
a população não se aborreça com as fraquezas humanas
que nós adultos e nossas crianças têm, que não julgue
mal se vê uma criança nossa com piolhos (que trouxe
de casa), que não pense cada vez que o educador é cruel
se uma criança chora (ela pode ter manha), que não condene
nossa limpeza se uma vez um freezer não funciona e por
isso o mau cheiro se espalha, que não ache a nossa instituição
culpada se algumas crianças roubam e outros assistidos
brigam no meio da rua. Não conseguimos transformar o
mundo num instante. Sofremos com os males de nossos
assistidos e pedimos a paciência de todos.
A respeito de ajuda
em termo de serviços: quem quiser ser voluntário para
algumas horas regularmente, com compromisso de responsabilidade
e integração na ordem geral do Lar da Criança, que fale
comigo - Seja bem-vindo.
Quem quiser nos ajudar
materialmente:com alimentos: Ótimo. Servirá muito. Roupa
usada, mas que ainda presta para usar: Agradecemos.
Outros objetos de uso,
quaisquer que sejam necessários para uma vida normal
e digna: gostaremos de receber.
Ajuda financeira: necessária
para pagar os funcionários indispensáveis para o funcionamento
do Lar da Criança com escolas de favela, creches, lares
substitutos e projetos de assistência: absolutamente
necessária esta doação.
Desde o primeiro dia
de existência dependemos 100% de doações de boa vontade.
OM - Nós vivemos
uma realidade diferente do restante do país, ou esta
questão de abandono de crianças é algo vivido em todo
o Brasil?
IM - A questão da criança
abandonada é de todo o país. Mas já está sendo tomada
uma série de medidas para amenizar o problema.
"Quem acolher
uma destas crianças, a MIM é que acolhe," diz nosso
Mestre.
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