O Brasil sobre duas rodas

 Por MARCOS FERREIRA

JOSÉ CÂNDIDO  Viajar nas condições que viajo não se trata apenas de coragem, mas, sobretudo, de amor ao meu país.Trinta e três mil, setecentos e oitenta e quatro quilômetros percorridos de Norte a Sul, de Leste a Oeste do Brasil. Uma distância até razoável para muito viajante dos tempos de agora, não fosse pelo meio de transporte que o pernambucano José Cândido de Lima, de 51 anos de idade, vem utilizando para percorrer tanto chão — uma simples Mobilete de cinqüenta cilindradas que já se encontra com vinte e cinco anos de uso.

Mas essa quilometragem é ainda maior. Segundo José Cândido, ele já deve ter ultrapassado com sua “valente” Mobilete a marca dos cinqüenta mil quilômetros rodados. A distância que registramos anteriormente conta apenas até a quebra do velocímetro da moto, acorrida há cerca de um ano. Segundo explicou à nossa reportagem, a reposição da peça ainda não foi feita devido às dificuldades financeiras que enfrenta.

Desde de que ganhou a estrada aos 14 de março de 2000, José Cândido já percorreu todos os Estados brasileiros, centenas de cidades e lugarejos, passando por cinco fronteiras nacionais e por duas Guianas, numa jornada empreendida sempre com recursos próprios. Diante dos custos com a viagem e devido à falta de patrocínio, ele conta que não pôde ainda comprar nem mesmo o velocímetro novo para sua Mobilete.

“Como o dinheiro é muito escasso e as despesas estão sempre se multiplicando, a gente procura dar prioridade a coisas que sejam de extrema importância para a continuidade da viagem, a exemplo de gastos com a reposição de pneus, de câmaras de ar, combustível, et cetera. Além disso, existe a nossa própria manutenção, que podemos resumir como café da manhã, almoço e jantar”, explica o viajante.  

DIFICULDADES — Devido ao pouco dinheiro, José Cândido passa a maior parte de suas noites alojado nos abrigos dos postos de combustível, ele que viaja sempre com duas redes e lençóis. Só em locais muito inconvenientes, é que ele se dá ao “luxo” de procurar alguma pousada ou pensão, desde que o preço do pernoite seja bastante popular. “Eu já dormi em muito pardieiro por este Brasil afora”, confessa.

Só de pneus, ele revela que o asfalto já consumiu vinte, além de várias outras peças que precisam ser repostas com certa regularidade, a exemplo de correntes, coroas, piões, câmaras de ar, cabos de freio e de aceleração, etc. Mecânico profissional há mais de vinte anos, todos os reparos e ajustes do veículo são feitos pelo próprio viajante. No pequeno bagageiro da moto, a pesada caixa com ferramentas e outros utensílios.    

A REPERCUSSÃO — Simpatizante do Partido dos Trabalhadores (PT) há vários anos, tendo trabalhado na campanha de Lula no interior do Acre, José Cândido só veio a contar com alguma ajuda de custo a partir de janeiro último, quando passou a ser fotografado ao lado de pessoas importantes da política, a exemplo de prefeitos, governadores, e do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva.  

Após aparecer nos jornais e na tevê ao lado do presidente da República, José Cândido vem contando mais com a atenção do meio político. É de prefeitos, governadores, deputados e demais pessoas públicas que ele consegue o mínimo patrocínio para sua longa e paciente viagem pelo Brasil, tendo sido destaque em importantes revistas como a Caras, Veja, IstoÉ, Época, entre outras de circulação nacional.

Livro dos Recordes será a última parada
de José Cândido  

Segundo explicou a O Mossoroense na tarde de ontem, sua inclusão no mundo dos recordes deve ser como a maior distância percorrida por um transporte de apenas cinqüenta cilindradas. “Agora que praticamente realizei o meu sonho de viajar o Brasil inteiro, só vou descansar quando minha Mobilete estiver no Livro dos Recordes”, acrescenta o solitário viajante que chama a atenção de todos por onde passa.

Tendo afixadas em sua moto as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Norte e a do PT, partido ao qual se diz fiel desde 1980, José Cândido deixou a frente do jornal em meio a uma grande concentração de estudantes, curiosos com sua presença e seu espírito de aventureiro. Ele diz que permanece em Mossoró só até o dia de hoje, especificamente até a hora de adquirir um exemplar de O Mossoroense na banca.

A PRÓXIMA PARADA — Vindo de Natal, onde chegou a morar por cerca de quatro anos, José Cândido seguirá ainda hoje para a cidade de Grossos, de onde partirá para o município cearense de Icapuí. Indagado sobre sua coragem para uma jornada dessas, ele responde modestamente: —Viajar nas condições que viajo não se trata apenas de coragem, mas, sobretudo, de amor ao meu país.

 

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Mossoró-RN, terça-feira, 15 de abril de 2003