MARCOS ARAÚJO
 

O HOMO DEMENS

A história narra que o mundo já passou por duas grandes devastações biológicas. A primeira no Período Paleozóico, a fratura da Pangéia. A segunda, no período Mesozóico, o choque com o meteoro de 9 Km de extensão, acabando com o domínio dos dinossauros há mais de 130 milhões de anos.

A terceira devastação que está por vir, enxergada por biológos e cosmólogos, está sendo provocada por um “meteoro” arrasador: o ser humano, o homo habilis e sapiens. Com sua tecnologia energívora, o homem acelera o processo de exterminação a níveis incontroláveis. Será possível evitar o colapso ecológico? Eis o desafio ético e político que se nos antolha. Estamos cercados pela natureza, e dizia Goethe, ser humano e natureza são parceiros intercorrespondentes e inter-relacionados. A terra vem servindo o homem, mas não tem merecido respeito. O homem a trata como um supermercado barato, como disse Martin Rock, tornando-a apenas um meio ao seu objetivo proposto: a dominação do Universo.

Devido à agressão ao seu próprio meio-ambiente, o homem se desencantou. Falharam as alternativas racionais de criação de um mundo novo. As estruturas de pensamento não lograram impedir carnificinas nem a multiplicação de misérias. A guerra da Bósnia e Chechênia, os bombardeios ao Sudão e ao Afeganistão, e agora a invasão do Iraque e bem logo a da Síria, só comprovam a nossa capacidade de autodestruição. Não nos sentimos protagonistas de uma história com final feliz.

A barreira do mínimo ético e a degradação social está a zero. Há sintomas de que a comunidade estaria ultrapassando a barreira do mínimo ético, abaixo da qual sobrevêm a decadência e a degradação. Só o insólito é objeto de aplauso e divulgação. O bem não atrai, nem sensibiliza. Por sinal, as pessoas não se comovem mais nem com a tragédia das ruas. Transita-se impassível pela miséria crescente, sem remorsos por se fechar os vidros aos pedintes ou por alargar os passos para não tropeçar nos excluídos. A sociedade comporta-se como desprovida de senso moral. Estamos vivendo uma cegueira e uma miopia moral. A falta de consciência social e o individualismo estão dizimando a vida humana.

É preciso ressuscitar uma nova ética, uma ética consciente e humanística, voltada para o bem e para o coletivo. Somos obrigados a propalar essa nova ordem: a da convivência ética e o ressurgimento da moral. Em todos os setores da vida, em todos os campos da atividade humana, ou respeitamos o outro, com o dever do respeito à decência, à honradez e à probidade, ou o nosso comportamento importará no fim do mundo. Se somos inteligentes, porque parecemos dementes, com essa visão megalomaníaca de dominação? Temos que ser homo sapiens, nunca homo demens.

 

 

  

 

MARCOS ARAÚJO
EMAIL: marcos@juxtalegem.com.br

35, é advogado, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
 

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Mossoró-RN, terça-feira, 15 de abril de 2002