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UMA
HOMENAGEM ÂNTUMA A ANTONIO ROSADO MAIA
É comum se homenagear as
pessoas somente quando morrem. A essas homenagens
chamamos de “póstuma”, do latim postumu,
que quer dizer último, derradeiro. Usando
do radical em latim, quero fazer uma homenagem
“ântuma”, do latim “antumu”, primeira, a
Antonio Rosado Maia. Sei que muitos escreverão
sobre ele após a sua morte, mas poucos tiveram
coragem de homenageá-lo enquanto vivo. Que
eu saiba Cid Augusto foi um dos poucos.
Eu, com menor brilhantismo do que Cid, já
escrevi anteriormente sobre Toinho Rosado.
Torno a fazê-lo agora, pela última vez,
por saber de Dadazinha, sua filha, que Toinho
encontra-se na UTI, vivendo os seus últimos
momentos de vida e que só um milagre poderá
salvá-lo, o que rezo fervorosamente para
que aconteça.
Devo repetir que Toinho
Rosado foi o advogado mais brilhante que
já atuou em Mossoró. Altivo, culto, bem
articulado, os seus arrazoados escritos
ou verbais eram demolidores, indestrutíveis.
De uma personalidade forte, Toinho tinha
a temperança de um Evandro Lins e Silva,
a sensibilidade de um Sobral Pinto e a inflexão
corporal de Afonso Arinos. Escrevia com
arguteza e tal era o seu poder de síntese
que mais parecia ter sido copydesk de algum
jornal. Refiro-me sempre no pretérito, pois
o Toinho advogado, das lides do período
eleitoral, das defesas criminais, não era
o mesmo Toinho derrotado pelas enfermidades.
Padecendo de uma doença irritantemente devastadora,
vi com tristeza a sua fortaleza corporal
e psicológica ir aos poucos se desmoronando.
Enxerguei-o trêmulo e vacilativo nas respostas.
No nosso último contato, o seu olhar introspectivo
e sem brilho já era um prelúdio da derrota
do seu espírito ao padecimento da carne.
Quem o conheceu como notívago,
o bon vivant, o excepcional anfitrião, quase
não o reconhecia nesses tempos de intransponível
reclusão espiritual. A doença roubou-lhe
o gosto da poesia, de madrugada, de pássaro,
de sol, da lua, do canto dos ventos e das
canções da brisa. Quase fustigou o amor,
um grande amor por Anabela e Dadazinha,
fiéis e dedicadas companheiras. De certa
feita, quis ele acompanhar-me numa viagem
a Catolé do Rocha, simulando um compromisso
profissional, e no caminho surpreendeu-me:
- “inventei de vim com você só pelo prazer
da sua companhia. Eu nada tenho para fazer
em Catolé”. A Morena de Tibau não terá mais
o valor poético e nostálgico de outrora.
A história do coito geográfico entre o Rio
Grande do Norte e a Paraíba nem mais serão
repetidos como um bordão, como ele gostava
de dizer. Amigo de muita gente, poucos ainda
o visitavam. Eu mesmo fiquei em dívida para
com ele. Justamente a ele, a quem eu queria
tanto bem... Talvez não tenha ido para respeitar
a dor que os passantes levam consigo. Ou
talvez por covardia mesmo. Como a sua morte
é prevista, vaticinada pelos seus médicos
para as próximas horas, faço aqui um réquiem
em vida. Já havia sugerido uma homenagem
a ele no mês de agosto, na Semana do Advogado.
Esperava entregar a comenda pessoalmente.
Pelo visto, terei que entregá-la quando
nos encontrarmos no além, no infinito. Fico
aqui a lastimar pelas gerações de acadêmicos
que não o conheceram, e por aqueles que
nunca conseguirão chegar aonde ele chegou.
Nesses últimos momentos de sua vida, quero
pedir a Deus que o acolha em seu seio misericordioso.
E digo ao amigo e aos seus familiares: agradeço
ao mesmo Deus de um dia ter conhecido Antonio
Rosado Maia. Por causa dele e pelo seu exemplo,
eu me fiz mais advogado, mais vocacionado.
A ele o meu respeito, a minha admiração
e a minha gratidão imorredoura, aqui na
terra e por toda a eternidade, enquanto
o meu espírito sobreviver.
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