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A cultura da clandestinidade

Por MARCOS FERREIRA         

Editores do Clandestino: Kalliane Sibelle de Amorim, Mário Gerson e Graciele de LimaA exemplo do que acontece em muitas outras cidades por este Brasil afora, Mossoró também possui a sua arte clandestina, a sua cultura marginal e seus artistas anônimos, seus escritores inéditos e seus poetas enrustidos. São talentos, inteligências e intelectos que, apesar das múltiplas influências negativas que sofrem, não se deixam tragar por essa onda gigantesca de mediocridade e deseducação que varre o mundo todo.

Em nosso plano cultural, onde atualmente contamos com três universidades, várias emissoras de rádio e uma de televisão a cabo, dois parques de diversões, um circo, dois “pastoris”, um cinema, dois teatros, algumas “casas de recurso” e três jornais diários, além de um semanal, não são poucas as pessoas que se queixam da falta de ensejo, de oportunidade e de estímulo para apresentarem e desenvolverem seus valores artísticos. Assim, muitos ainda buscam transpor as complicadíssimas cortinas de seus anonimatos.

Foi a partir desse sentimento de ausência, de exclusão social e clandestinidade literária que três jovens poetas e escritores de Mossoró resolveram apresentar ao município uma alternativa e uma proposta em favor da arte e da cultura. Assim surgiu o informativo Clandestino, um “jornalzinho” mensal de apenas quatro páginas e tamanho ofício assinado pelos jovens literatos Mário Gerson, Kalliane Sibelli de Amorim e Graciele de Lima, ambas alunas do Curso de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Surgido em novembro do ano passado e caminhando para a sua quinta edição, o mensário Clandestino apresenta ao longo de suas páginas produções literárias de vários novos autores da cidade, a exemplo dos próprios responsáveis pelo informativo. São artigos, contos, crônicas, ensaios e poemas que o público leitor do Clandestino vai conferindo a cada edição.

Em seu primeiro número, o informativo trouxe como matéria principal um estudo sobre Alma Patrícia, livro de crítica literária de autoria do historiador e folclorista natalense Câmara Cascudo. O texto foi assinado pela poetisa Kalliane Sibelle, que, a exemplo dos outros dois editores do Clandestino, é sócia da Poema — Poetas e Prosadores de Mossoró. Ano passado, Kalliane foi agraciada com Menção Honrosa no II° Prêmio de Poesia Luís Carlos Guimarães, promovido pela Fundação José Augusto, em Natal.

Na edição de dezembro, o Clandestino destacou o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, saudando a passagem dos cem anos de seu nascimento, transcorridos aos 31 de outubro passado. Em janeiro último, a primeira página do informativo foi reservada ao também poeta Mário de Andrade, com destaque para a sua relação literária com o Rio Grande do Norte. Por fim, o Clandestino homenageou este mês o jornalista e escritor mossoroense Dorian Jorge Freire, falando sobre a fundação do primeiro jornal alternativo do País com circulação nacional, o semanário Brasil, Urgente, fundado por Dorian no início dos anos sessenta, em São Paulo. O jornal também comentou as duas obras publicadas por Dorian, Veredas do Meu Caminho e Os Dias de Domingo, ambos editados pela Coleção Mossoroense.

A EDIÇÃO DE MARÇO — Para o mês que entra, o Clandestino trará matéria especial sobre a vida e o trabalho do escritor e pesquisador mossoroense Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, editor da Coleção Mossoroense, a maior casa publicadora do País, já caminhando para os quatro mil títulos lançados.

“O Clandestino surgiu numa tarde de setembro, um domingo. A gente tinha se reunido na minha casa para discutir a idéia. Éramos eu, Graciele de Lima, Kalliane Sibelle de Amorim e mais três pessoas do grupo musical mossoroense Apogeu: o Renato Mota Arraes, Railson Alexandrino dos Santos e Lindomar Narciso. Desse encontro surgiu a primeira edição, publicada em novembro. A segunda saiu em dezembro”, relembra Mário Gerson, que no ano passado, sob o título O Catador de Espumas, lançou seu primeiro livro de poemas, com selo da Coleção Mossoroense.  

O informativo contou com a participação do pessoal do grupo Apogeu até somente a edição de dezembro. Logo após, o jornal passou por uma reformulação e os três editores atuais assumiram o comando do informativo. “Estava sendo complicado trabalhar com esse pessoal (do grupo Apogeu) porque, devido aos seus compromissos, acontecia do material atrasar. Além disso, os contatos não eram muito fáceis entre nós, visto que eles viajam bastante devido às suas ocupações profissionais fora da cidade”, explica Mário Gerson.

AMPLIAÇÃO — A primeira e a segunda edições do Clandestino foram de apenas cem exemplares, em processo de xerox. Ultimamente, através de uma parceria com a gráfica e editora Queima-Bucha, de propriedade do editor e poeta Gustavo Luz, as edições estão sendo tiradas em duzentas cópias, mas já está sendo trabalhada a hipótese para brevemente firmar-se uma tiragem de trezentos exemplares e aumentar o número de páginas de quatro para oito.      

Distribuição estratégica favorece
popularidade do mensário

Desde seu aparecimento, em novembro do ano passado, nenhuma edição do Clandestino deixou de ir às ruas. A partir do dia primeiro de cada mês, os editores do informativo começam o trabalho de distribuição junto à imprensa de Mossoró. Exemplares do informativo são enviados a todos os colunistas e editores de três jornais diários e um semanal. Os números do Clandestino também são remetidos a instituições culturais da cidade.  

Para o futuro, o projeto é o de estar sempre buscando, estimulando e fomentando o surgimento de novos nomes, novos talentos na literatura local e do Estado. Quanto às homenagens que o mensário vem oferecendo a importantes nomes da cultura local e nacional, os editores afirmam modestamente que se trata de gestos informais, embora de profunda admiração e respeito àqueles que vêm sendo destacados na primeira página do informativo.

“Trata-se mais de uma lembrança, uma contribuição mínima para que o público leitor tenha um pouco mais de conhecimento sobre essas pessoas que contribuem ou que assinaram positivamente seus nomes na história de nossa cultura”, simplifica Kalliane Sibelle, que também responde pelo crivo editorial do informativo. Kalliane acaba de receber da gráfica da Fundação Vingt-un Rosado seu primeiro livro de poemas, intitulado Outonos. O prefácio é assinado por Mário Gerson.

Informativo busca intercâmbio cultural
entre outros países

Além do trabalho de divulgação em nosso meio e junto a intelectuais da cidade e de outros lugares, o informativo Clandestino busca ainda difundir-se além-fronteiras estaduais e até nacionais. Não se dando por satisfeitos com a presença do mensário na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, os editores do Clandestino também enviam o jornal às bibliotecas nacionais da França, Cuba e de Portugal, além de já estarem abrindo relações com as bibliotecas nacionais de Peru e Argentina.

Outro ponto de alcance do Clandestino é na cidade de Bom Sucesso, na Paraíba. Segundo Graciele de Lima, que é responsável pela distribuição e divulgação interestadual do Clandestino, a cada mês são enviados setenta exemplares a Bom Sucesso. Lá, o informativo cultural conta com um representante que distribui o mensário para outras cidades vizinhas, como Alexandria, Catolé do Rocha e Brejo dos Santos. Por meio desse distribuidor, o jornal circula também pelos cursos da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, campi de Pau dos Ferros.

SUPORTE — Essa espécie de corrente de divulgação funciona ainda em outros Estados do Brasil, como Sergipe, Ceará e Pernambuco. “Além disso, temos amigos na Universidade Federal da Paraíba-UFPB, que compram o nosso jornal, lêem e distribuem esse trabalho entre os meios intelectuais de João Pessoa”, acrescenta Graciele de Lima, que também se destaca no meio artístico local como intérprete e compositora. Ela agora se prepara para lançar Cálice, livro de contos que também terá o selo da Coleção Mossoroense.

SERVIÇO

Pontos de revenda em Mossoró

Livraria A.S Livros

Casa da Revista

Banquinha do Cordel

(Esquina da Câmara Municipal)

Preço do exemplar: Um real

Contatos: Av. Rio Branco, 523, Sto. Antônio

E-mail: mario.gerson@bol.com.br 

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Mossoró-RN, domingo, 16 de fevereiro de 2003