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Entre
árvores
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
- Eu era muito pequeno,
não deu para ver direito, mas não me lembro de um dia
tão agitado na cidade.
- Eu ainda nem era
nascido.
- Se fosse eu saberia,
afinal, você é meu vizinho.
- De tantos anos...
Mas me conte como foi.
- Eles vinham num grande
bando até se aproximar da cidade, depois se dividiram.
Não deu para vislumbrar muita coisa além da linha do
trem; os cangaceiros rastejavam e buscavam se proteger
atrás de qualquer arbusto.
- Se arrastando que
nem gato quando tá caçando passarinho?
- É, grosso modo, é
isso mesmo. A turma mais avançada tomou o rumo da igreja
de São Vicente. O resto foi para os lados do cemitério.
Aqui mesmo não passou ninguém, mas um companheiro meu
ajudou a abrigar uns três ou quatro na fuga. Pena que
ele não esteja mais entre nós para contar a história.
No olhar dos homens ele viu uma mistura de medo e de
ódio.
Embora estivessem acostumados
a correr das volantes, ficaram impressionados com a
resistência que encontraram em Mossoró. Na narrativa
dos que corriam assustados "era coisa pra mais
de duzentos fuzis". Se tivessem insistido no assalto
à cidade, teriam sido todos mortos ou capturados.
- Dá pra ver que este
seu amigo gostava de um exagero. Também não é pra tanto.
Os cangaceiros tinham boa pontaria e...
- Você quer ouvir a
história, sua oiticica de beira de rio, ou quer ficar
defendendo aqueles bandidos? Nem sei por que você nasceu
num lugar tão nobre.
- E você velhota; pra
continuar de pé tiveram que fazer um remendo de cal
no seu tronco.
Quando o bate-boca
entre a tamarineira e a oiticica ia esquentar, as duas
foram interrompidas pela caraibeira.
- Pra que essa confusão,
galera? A verdade é que, se fosse um outro tempo nenhuma
de vocês, e nem mesmo eu que sou jovem, teria sobrevivido
a esses caras. Fizeram um teatro bonito, encheram de
plantas ao redor, mas não mexeram com a gente.
- Isso realmente é
novo. Retrucou a tamarineira. O que está nascendo no
povo é a consciência de preservação.
Tagarela que só ela
a oiticica emendou.
- Ô mania de falar
difícil! Essas palmeiras, que já chegaram aqui grandes
e sabe Deus de onde vieram, podem até ser bonitonas,
mas não estão agüentando o tranco. Pior que elas nem
conversam com a gente, metidas a besta que são.
- É cara! Aqui a gente
tem que rebolar pra encarar o calor, o vento e a fumaça
dos carros.
- E o barulho ensurdecedor
que eles fazem? Não tem hora do dia que as ondas sonoras
não agridam meus galhos. E quando passa um com o cano
de escape estourado... Nem mesmo minhas flores se sustentam.
Bons tempos aqueles em que os carros eram poucos e não
nos enchiam de fumaça de óleo diesel.
- Aí vem mais um. Carrão
bonito, frescurinha lá dentro, mais calor aqui fora.
- Vá se acostumando,
você é nova, apesar das adversidades não demora e passa
a gente em tamanho e pujança.
- É, mas não tenho
nenhum ninho em meus galhos, mal sei o que é o canto
dos pássaros, nem as abelhas beijam minhas flores. Sem
a...
- Polinização!
- Sem isso aí como
é que vou bombar? Quer dizer: ficar forte?
- Falando nisso eu
estou preocupada com minhas filhinhas. Tá vendo ali,
do outro lado da rua, cinco lindas oiticiquinhas? Os
morcegos levaram minhas frutas, elas germinaram e uma
alma caridosa plantou no canto da rua. Mas as bichinhas
estão ficando sufocadas pelo asfalto.
- Não entendo os homens.
Precisam de nossa presença para manter as cidades habitáveis
e, mesmo assim, tratam a maioria de nós com pouco zelo.
- Outro dia soube de
uma mulher que derrubou um pau-d'arco de cinqüenta anos
só porque queria entrada para dois carros na garagem.
E a casa ainda nem tinha começado a ser construída.
- Eles esquecem que
nós também somos seres vivos. Extraímos a seiva do solo
e a fazemos correr pelos nossos vasos lenhosos. Assim
acontece a fotossíntese...
- Lá vem ela falando
difícil de novo.
Uma pausa para a passagem
de alguém em busca uma sombra protetora.
- Bom-dia!
- Bom-dia! Só a oiticica
respondeu.
- Quem é esse cara
que sempre que passa aqui fala com vocês?
- Sei lá. Vai ver que
é maluco.
- Quem sofre das faculdades
mentais, obviamente, deve ser você, que fala com gente.
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