Mossoró-RN, domingo 12 de março de 2006

Criação do município de Mossoró

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Em 15 de março de 1852 era criado, através do Decreto Provincial de nº 246, sancionado pelo Dr. José Joaquim da Cunha, Presidente da Província do Rio Grande do Norte, o município de Mossoró, em terras desmembradas do município do Assu. O referido decreto elevava também a sede do município à categoria de vila, com o nome de Vila de Mossoró, determinando ainda a criação da Câmara, para a qual deveria o novo município providenciar imediatamente eleição para a escolha dos seus membros.

A idéia da criação do município de Mossoró partiu dos habitantes da ribeira do rio Mossoró. Entre os principais incentivadores, destacam-se o vigário Antônio Joaquim e o padre Antônio Freire de Carvalho, que organizaram em Mossoró o núcleo Saquarema que era o Partido Conservador. Foram eles os responsáveis pela organização de um abaixo-assinado que seria dirigido à Assembléia Provincial, pleiteando a criação da vila e município de Mossoró e do Tribunal de Jurados. Esse abaixo-assinado chegou à Assembléia Municipal na sessão do dia 13 de janeiro de 1852, com 350 assinaturas. Como justificativa para a pretensão, alegavam: "1 - existência de mais de dois mil fogos; 2 - população estimada em mais de seis mil almas; 3 - arruamentos bem organizados, de boa perspectiva e não pequeno; 4 - um comércio bastante opulento; 5 - terras ótimas para criação; 6 - praias que enviavam peixe seco para lugares em derredor; e 7 - salinas assazmente abundantes que constituem um grande ramo de comércio".

Foi o bacharel Jerônimo Cabral Raposo da Câmara, secretário da Assembléia, quem leu o abaixo-assinado.

O projeto foi ao plenário na sessão de 8 de março de 1852, para a primeira discussão. Aprovado sem emendas. Na segunda sessão, com a mesma aprovação. E na terceira, realizado no dia 11, aprovado, seguindo para a Comissão de Redação Final. O presidente da Assembléia, o bacharel Otalino Cabral Raposo da Câmara, o vice-presidente e o 1º e 2º secretários assinaram o projeto em sua redação final.

O presidente da Província fez a sanção da lei que recebeu o nº 246, em  15 de março de 1852. Nascia assim o município de Mossoró, sendo o décimo nono município da Província.

Criado o município, procedeu-se em Mossoró a eleição para vereadores e Juiz de Paz. Nelas figurava o vigário Antônio Joaquim como representante do Partido Conservador e o capitão João Batista de Souza como representante do Partido Liberal.

Os Conservadores procederam à votação no interior da Igreja de Santa Luzia, enquanto os Liberais permaneceram numa casa da rua Domingos da Costa. Houve uma tentativa por parte dos Liberais de tomar o Livro da Atas. Por não conseguirem, passaram a disparar armas de fogo para o lado da Capela, onde permaneciam os Conservadores.

A eleição foi vencida pelos Conservadores, que era comandada pelo vigário Antônio Joaquim e encabeçada pelo padre Antônio Freire de Carvalho. Este, como presidente eleito, juramentou-se perante a Câmara do Assu, tomando posse no dia 24 de janeiro de 1853, na vila de Mossoró, tomando juramento aos demais vereadores e declarando em seguida instalada a nova Câmara que ficou assim composta: Padre Antônio Freire de Carvalho, Presidente; Tenente-Coronel Miguel Archanjo Guilherme de Melo, Vereador; Capitão Francisco de Medeiros Costa, Vereador;  Capitão João Batista de Souza, Vereador; Francisco Besoldo das Virgens, Vereador; Sebastião de Freitas Costa, Vereador.

Apesar da lamentável ocorrência quando da eleição, os Conservadores assumiram o poder e num período de tranqüilidade fizeram um governo de paz, sem ódio e sem vingança.

Muito pouco pôde ser feito pelo primeiro governante de Mossoró. Na opinião do historiador Raimundo Soares de Brito, "arrumou a casa. O resto deixou a cargo dos seus sucessores".
 

 

Entre árvores

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

- Eu era muito pequeno, não deu para ver direito, mas não me lembro de um dia tão agitado na cidade.

- Eu ainda nem era nascido.

- Se fosse eu saberia, afinal, você é meu vizinho.

- De tantos anos... Mas me conte como foi.

- Eles vinham num grande bando até se aproximar da cidade, depois se dividiram. Não deu para vislumbrar muita coisa além da linha do trem; os cangaceiros rastejavam e buscavam se proteger atrás de qualquer arbusto.

- Se arrastando que nem gato quando tá caçando passarinho?

- É, grosso modo, é isso mesmo. A turma mais avançada tomou o rumo da igreja de São Vicente. O resto foi para os lados do cemitério. Aqui mesmo não passou ninguém, mas um companheiro meu ajudou a abrigar uns três ou quatro na fuga. Pena que ele não esteja mais entre nós para contar a história. No olhar dos homens ele viu uma mistura de medo e de ódio.

Embora estivessem acostumados a correr das volantes, ficaram impressionados com a resistência que encontraram em Mossoró. Na narrativa dos que corriam assustados "era coisa pra mais de duzentos fuzis". Se tivessem insistido no assalto à cidade, teriam sido todos mortos ou  capturados.

- Dá pra ver que este seu amigo gostava de um exagero. Também não é pra tanto. Os cangaceiros tinham boa pontaria e...

- Você quer ouvir a história, sua oiticica de beira de rio, ou quer ficar defendendo aqueles bandidos? Nem sei por que você nasceu num lugar tão nobre.

- E você velhota; pra continuar de pé tiveram que fazer um remendo de cal no seu tronco.

Quando o bate-boca entre a tamarineira e a oiticica ia esquentar, as duas foram interrompidas pela caraibeira.

- Pra que essa confusão, galera? A verdade é que, se fosse um outro tempo nenhuma de vocês, e nem mesmo eu que sou jovem, teria sobrevivido a esses caras. Fizeram um teatro bonito, encheram de plantas ao redor, mas não mexeram com a gente.

- Isso realmente é novo. Retrucou a tamarineira. O que está nascendo no povo é a consciência de preservação.

Tagarela que só ela a oiticica emendou.

- Ô mania de falar difícil! Essas palmeiras, que já chegaram aqui grandes e sabe Deus de onde vieram, podem até ser bonitonas, mas não estão agüentando o tranco. Pior que elas nem conversam com a gente, metidas a besta que são.

- É cara! Aqui a gente tem que rebolar pra encarar o calor, o vento e a fumaça dos carros.

- E o barulho ensurdecedor que eles fazem? Não tem hora do dia que as ondas sonoras não agridam meus galhos. E quando passa um com o cano de escape estourado... Nem mesmo minhas flores se sustentam. Bons tempos aqueles em que os carros eram poucos e não nos enchiam de fumaça de óleo diesel.

- Aí vem mais um. Carrão bonito, frescurinha lá dentro, mais calor aqui fora.

- Vá se acostumando, você é nova, apesar das adversidades não demora e passa a gente em tamanho e pujança.

- É, mas não tenho nenhum ninho em meus galhos, mal sei o que é o canto dos pássaros, nem as abelhas beijam minhas flores. Sem a...

- Polinização!

- Sem isso aí como é que vou bombar? Quer dizer: ficar forte?

- Falando nisso eu estou preocupada com minhas filhinhas. Tá vendo ali, do outro lado da rua, cinco lindas oiticiquinhas? Os morcegos levaram minhas frutas, elas germinaram e uma alma caridosa plantou no canto da rua. Mas as bichinhas estão ficando sufocadas pelo asfalto.

- Não entendo os homens. Precisam de nossa presença para manter as cidades habitáveis e, mesmo assim, tratam a maioria de nós com pouco zelo.

- Outro dia soube de uma mulher que derrubou um pau-d'arco de cinqüenta anos só porque queria entrada para dois carros na garagem. E a casa ainda nem tinha começado a ser construída.

- Eles esquecem que nós também somos seres vivos. Extraímos a seiva do solo e a fazemos correr pelos nossos vasos lenhosos. Assim acontece a fotossíntese...

- Lá vem ela falando difícil de novo.

Uma pausa para a passagem de alguém em busca uma sombra protetora.

- Bom-dia!

- Bom-dia! Só a oiticica respondeu.

- Quem é esse cara que sempre que passa aqui fala com vocês?

- Sei lá. Vai ver que é maluco.

- Quem sofre das faculdades mentais, obviamente, deve ser você, que fala com gente.

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