Mossoró-RN, domingo 15 de janeiro de 2006

Apontamentos para a história de Tibau

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

A primeira referência que temos sobre a praia de Tibau é de um documento de posse de terra onde está escrito que: "A 5 de julho de 1708, o Capitão mor do Rio Grande do Norte, Sebastião Nunes Colares, concedeu uma sesmaria de três por uma légua, a começar do Morro do Tibau, a Gonçalo da Costa Faleiro."  Sesmarias eram terras despovoadas que os reis de Portugal ou os governantes das capitanias  concediam às pessoas que delas se interessassem. Os interessados alegavam sempre que tinham descoberto aquelas terras com risco de sua própria vida, sendo as mesmas devolutas e que ali pretendiam acomodar os seus gados. Já sobre a figura de Gonçalo da Costa Falero, o primeiro proprietário de terra de Tibau, conhecemos apenas um relato de Câmara Cascudo, que diz: "Em junho de 1689, o Senado da Câmara de Natal credenciou Gonçalo da Costa Falero para ir a Lisboa fazer a El-Rei um relato de viva-voz da situação difícil da capitania devorada pela "Guerra dos Bárbaros" - (1687-1700)".  Nada mais encontramos nos relatos históricos sobre o referido senhor.

O topônimo Tibau vem de ty-pau, que significa baixa-mar (Dicionário da Língua Tupi). Para Teodoro Sampaio a palavra significa "entre águas, entre rios" (O Tupi na Geografia Nacional, Bahia, 1928, p. 324). Em uma Acta Diurna, de maio de 1942, sobre "Praias do Rio Grande do Norte" o Mestre Cascudo sugere que Tibau viria do TI-PAUM, "entre duas águas, entre dois rios". Seria a localização do Tibau entre os rios Mossoró e Jaguaribe.

Henry Koster conheceu Tibau em dezembro de 1810. Deixou registro sobre o fato: "A volta do meio-dia passamos perto de uma choupana onde residia o vaqueiro de uma fazenda e imediatamente depois deparamos o morro de areia, chamado Tibau, junto ao qual se vê o mar."

Através de relatos ficamos sabendo que já em 1908 mantinham casas em Tibau os seguintes cidadãos: Major Migas, que tinha uma pequena bodega para fornecimento de gêneros de primeira necessidade; Dr. Almeida Castro, que era médico em Mossoró; o Major Zeta Cavalcanti e o farmacêutico Jerônimo Rosado.

Por volta de 1918 e 1919 foram construídas várias casas na chapada do morro dentre as quais achava-se a de Antônio Florêncio de Almeida e o afamado chalé de Delfino Freire, todo construído em madeira, pregada a pregos de cobre, plantada em cima da pedra do chapéu, na divisa natural  do Rio Grande do Norte com o Ceará. "Seu" Delfino era grande comerciante em Mossoró.

Em 1926/1927 foi construída a Capela de Santa Teresinha, onde foi celebrada a primeira missa pelo padre Manoel Barreto.

A estrada de rodagem Mossoró-Tibau foi construída em 1932 pela Associação Comercial de Mossoró, que tinha como superintendente o Sr. Alfredo Fernandes. Os recursos haviam sido adquiridos pela Associação nas diversas praças do país, como auxílio aos flagelados da seca, conforme noticia o jornal "Correio do Povo" em sua edição de 29/05/1932. "As antigas viagens para Tibau eram feitas por dois caminhos e algumas variantes: um pela Gangorra-Canto dos Bois-Tibau e o outro pelo caminho que ia para a Barra ganhando-se a praia 18 km, que distavam até Tibau, os quais somados aos 36 km da Barra até Mossoró totalizavam 54 km." Dix-sept Rosado Maia, quando governador, mandou piçarrar a estrada em toda a sua extensão. O governador Dinarte Mariz, atendendo reivindicação do seu secretário de Educação, Dr. Tarcísio Maia, construiu a atual estrada que liga Mossoró a Tibau.

A primeira linha de transporte coletivo para Tibau surgiu por volta de 1942 com uma "sopa" de propriedade do Sr. Cícero Gadê.

Em 1° de maio de 1949 dava-se a inauguração da linha telefônica para a vila do Tibau, em solenidade  que teve a participação dos prefeitos de Mossoró e Areia Branca, respectivamente Jerônimo Dix-sept Rosado e José Justiniano Sólon.

Esses são, pois, fragmentos da história de Tibau. São anotações avulsas que carecem de mais aprofundamento, mas que testemunham o amanhecer daquele belo lugar.
 

 

Maurício de Oliveira: Um sonhador

Gláucia Russo & João Liberalino
Homenagem do Grupo Vivência n'Arte - VINA

Dizem que ninguém é insubstituível. Quem faz tal afirmação não tem a dimensão do poder e força que emana do ser humano. Na realidade ninguém pode ser substituído, porque cada um de nós é único. Não se pode substituir a palavra, os gestos, o olhar, o agir do outro, porque todo ser humano tem algo de excepcional, um pedacinho de Deus em si. A vida, dentre as muitas formas que temos para significá-la, é o encontro com esse Deus que vive em nós e é sempre um privilégio dividir momentos com as pessoas que gostamos, admiramos e respeitamos.

Nós tivemos o privilégio de dividir com Maurício muitos momentos da nossa vida. É gratificante poder lembrar que ele, assim como John Lennon, foi e continuará sendo um sonhador, porque sonhos não morrem, assim como os homens que tiveram a coragem de sonhá-los são imortais. Maurício é um desses imortais, pai, esposo, amigo, professor, roteirista, cantor; um ser humano que brigava por tudo que queria e, através da música e dos roteiros que criava para o Grupo Vina, exigia e sonhava com um mundo melhor. Aqueles que tiveram a oportunidade de transformar seus sonhos em cantos que ainda hoje ecoam na nossa cidade e, principalmente, em nossos corações, ou mesmo de ouvi-los e vê-los transformados em luz, música, poesia, são capazes de entender a semente que ele plantou nas pessoas que tiveram a oportunidade de conhecê-lo e com ele conviver.

Maurício de Oliveira deixa uma ausência enorme no peito de todos os que compartilharam da sua presença, mas também na cidade de Mossoró, que sem ele se tornou um território mais árido para os amantes da cultura, da amizade e da vida. Mas, acima de tudo, deixa gravado em nossas mentes memórias de um homem nascido no seio de uma família pobre que, mesmo tendo enfrentado situações adversas, não desistiu e foi capaz de com seus próprios esforços se tornar um vencedor. Um exemplo a ser seguido em um Brasil de homens e mulheres sofredores, que brigam por um lugar ao sol.

Com seus pensamentos e atos ajudou a construir um mundo melhor. Plantou esperança, viveu Mossoró, sua terra, seu solo, sua cultura e colheu flores e espinhos, amores e dores e, acima de tudo, a admiração eterna de todos que o conheciam. Seu sorriso é uma marca permanente em nossa lembrança; um sorriso criança, brincalhão; o sorriso de quem sabia que sempre havia algo a aprender, alegrias a buscar e novos lugares a conquistar. Um sorriso que nunca se apagará, pois vive na memória de todos que um dia foram contagiados por ele.

A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Em uma noite estamos juntos, brincamos, rezamos, cantamos, somos felizes... Em um segundo tudo muda e, ao invés de alegrias, encontros e canções, nos vemos diante de um vazio, uma lacuna que jamais poderá ser preenchida. Foi assim com Maurício; em um momento estávamos comemorando a vida, a amizade, o amor e no momento seguinte já não podíamos contar com sua alegria contagiante, seu sorriso, suas brincadeiras e seu olhar forte e zombeteiro.

Foi um sonhador. Nele havia muitos Maurícios: o profissional sério, competente e comprometido; o pai preocupado, responsável e brincalhão; o esposo divertido e companheiro; um amigo fiel e alegre; o cidadão preocupado com os caminhos da cidade, que não cruzou os braços, mas ajudou a construi-los; um artista talentoso que acreditava na arte e nas pessoas. Um homem que corria entre as ruas do sertão, as plantações e os arquivos do computador. Ao mesmo tempo um sertanejo com os pés fincados no solo e um cidadão do mundo, preocupado com as injustiças, com o homem, com a terra e com a difícil tarefa de sobreviver no país das desigualdades.

Maurício era um militante. Sempre lutou por um mundo melhor. Suas armas foram a música e a poesia. Os roteiros que produzia mostravam bem quem ele era. Erguia sua voz em um canto ou declamava poemas anônimos ou famosos. Acreditava que o caminho era a arte e a transformou em seu fuzil. Em qualquer lugar que chegasse era respeitado por suas idéias, bandeiras, posturas e atos.

Como homem cometeu seus erros, teve momentos tristes, sofreu injustiças, lutou contra seus próprios defeitos, mas foi capaz de recomeçar sempre e de, nas muitas quedas, limpar as feridas, sacudir a poeira e, com a cabeça erguida, seguir em frente. E por tudo isso Maurício não foi apenas mais um homem que se foi, mas um sonhador lutando com músicas e poemas emocionados, que nunca será esquecido por nenhum daqueles que tiveram o privilégio de caminhar alguns passos ao seu lado.

Com ele ficam nossas saudades, mas seu exemplo nos ajuda a renovar a esperança ou, como nos diz o poeta, a "fé na vida, fé no homem, fé no que virá..."

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