Mossoró-RN, domingo 15 de janeiro de 2006

Dr. Honório Dantas

O serviço de hemodinâmica em Mossoró ainda não é credenciado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e isso traz sérios problemas para uma cidade do tamanho de Mossoró. Para falar sobre essa carência, a estrutura que já existe no município e esclarecer alguns pontos da polêmica que se instalou em torno do credenciamento de hospitais locais no convênio público, convidamos o médico cardiologista Honório Ribeiro Dantas, da Associação de Proteção à Infância e à Maternidade de Mossoró (Apamim). Ele escreveu uma série de artigos sobre o tema que foram publicados durante a semana neste jornal e é o entrevistado de hoje.

Por Caio César Muniz

O Mossoroense - Dr., o senhor considera Mossoró preparada para atender pacientes cardíacos de alta complexidade?

Honório Ribeiro - Sim. Desde 2003, quando realizou a primeira cirurgia cardíaca fora da capital, a Apamim se prepara para dar essa comodidade aos pacientes da região. E quem diz isso são auditorias municipais e estaduais, pois o processo de credenciamento, tanto de SUS quanto de convênios, é muito severo.

Saliento ainda o seguinte: no momento, somente a Apamim tem condições de realizar tais procedimentos.

OM - E qual é a estrutura disponível no município para esses atendimentos?

HR - Bem, para capacitação em alta complexidade na área de cardiologia é necessário um tripé constituído por condições físicas, pessoal especializado e credenciamento em determinados setores, como UTI atuante pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros. Vale lembrar que esta é uma condição fundamental, sem a qual uma unidade não pode nem solicitar credenciamento em cardiologia.

OM - E existe acesso gratuito a esse serviço em Mossoró?

HR - Na área de UTI, entre todos os hospitais que não são públicos na cidade de Mossoró, somente a Apamim oferece esse serviço gratuitamente. Nossa UTI já era boa, mas a incrementamos para torná-la tipo II, que é um salto de qualificação. Uma portaria expedida pelo Ministério da Saúde em outubro último credenciou quatro leitos da nossa unidade como tipo II.

OM - Mas a Apamim já atende hemodinâmica gratuitamente?

HR - Como forma de dar vazão a alguns casos graves de pacientes que nos procuraram, fizemos sim, alguns exames gratuitamente. Por enquanto estamos atendendo somente convênios e particulares, mas em breve estaremos abrindo para o SUS, tão logo saia nosso credenciamento. Essa é uma luta que já dura 28 meses. A partir do dia 25 de janeiro esperamos atender pelo SUS em definitivo.

OM - Mas, se a Apamim já atende convênios e particulares, por que a credibilidade do serviço está sendo questionada?

HR - Entendemos isso como manobra desesperada de quem tem um serviço virtual. Somente uma estrutura até hoje realizou cateterismos cardíacos, angioplastias e angiografias em Mossoró. E essa estrutura é a que está instalada na Apamim.Portanto, não se pode nem comparar algo que existe com outra coisa que nunca existiu. 

OM - E quem o senhor acredita que está envolvido nessa 'manobra'?

HR - Todos sabem que o Hospital Wilson Rosado, através de alguns sócios, e estimulado pelo secretário de Cidadania, pleiteia concorrer com a Apamim por esse credenciamento. Ora, ano passado, em meados de junho, foi solicitada uma reunião do Conselho Municipal para tentar cadastrar também o serviço do dr. Bernardo.

Vejam só que delírio, há um ano praticamente que solicitam credenciamento e brigam, e se desesperam, para dar crédito a um serviço que nunca existiu, nunca fez um exame. Um serviço em que a máquina ainda está vindo. É um verdadeiro delírio coletivo de certas pessoas. O problema é quando isso chega aos ouvidos do SUS, em Brasília, as pessoas não acham estranho, não. Elas acham um verdadeiro absurdo.

OM - As pessoas do SUS em Brasília acham um absurdo?

HR - Sim. Em outubro, estivemos na Secretaria de Atenção à Saúde e os técnicos do SUS me perguntaram como estava o outro serviço, que mesmo sendo particular, ao invés de ser filantrópico como a Apamim, não atendendo UTI pelo SUS, mas que também queria se cadastrar.

Expliquei que como não conhecia profundamente o serviço, não podia me estender e também porque acho uma falta de respeito criticar publicamente, a menos que provocado. Mas, disse que pelo que ouvira, ainda não havia máquina instalada. Pelo que ouvira, não havia UTI atendendo pelo SUS, como vimos essa semana.

Não havia equipe morando lá ainda e nunca tinha ouvido falar em nenhum exame realizado lá, exceto uma falha, depois retificada em certo jornal, que trocou a Apamim pelo Wilson Rosado e o nome do dr. Eduardo Hipólito pelo de um médico da equipe do referido hospital.

Mas o jornal foi muito delicado e corrigiu a informação. Logo depois as secretárias do SUS em Brasília me pediram para sentar, perguntaram se estava com febre e se queria descansar um pouco. Não entendi por que, acho que é porque estava um pouco cansado de lutar contra o que não existe.

OM - Em que ocasião perguntaram-lhe isso?

HR - Durante a visita que fiz em outubro ao Ministério da Saúde, em Brasília, para checar quando seria publicada a portaria da nossa UTI como tipo II.

OM - Mas então, por que você acha que o credenciamento da Apamim ainda não saiu?

HR - O credenciamento é um processo feito com muita responsabilidade e critério. A primeira parte - a que cabia ao município deliberar - demorou tanto que somente foi resolvida no Ministério Público, em Mossoró.

Posteriormente, o processo foi enviado a Natal, para avaliação de uma comissão estritamente técnica. A partir daí foi encaminhado à comissão bipartite, que retifica os pareceres técnicos para evitar interpelação política nos pleitos dos interessados.

O último passo é a avaliação da Apamim pelo Ministério da Saúde.

Lembrem-se que a Apamim será avaliada pela funcionalidade e seriedade com que implantou o serviço, e não pelos metros quadrados de granito que existe nos seus corredores. A grande demora foi na prefeitura de Mossoró.

OM - Pode-se ter essa expectativa de que o serviço esteja habilitado no fim deste mês?

HR - A expectativa é de ajudar a população de Mossoró que está desassistida devido a greve que acontece em Natal. Tentaremos fazer os exames da população gratuitamente, se for o caso. O credenciamento em si, quem pode responder é o pessoal da Secretaria de Saúde, mas acredito que seja rápido, talvez 60 dias.

OM - Enquanto isso, como a população está sendo prejudicada? Digo, que riscos a cidade corre sem o serviço gratuito?

HR - No momento, e desde que solicitamos credenciamento por estarmos aptos, quem infartar severamente em Mossoró ou será tratado clinicamente ou morre. Temos um laudo do Hospital Regional Tarcísio Maia mostrando o altíssimo índice de mortes por infarto e o hospital é referência regional.

OM - Então, o atendimento só é garantido para convênios e particulares?

HR - Como posso atender pelo SUS se não sou conveniado?

OM - Você falou de uma 'manobra' utilizada através do uso de ambulâncias, como é isto?

HR - A ambulância é um artifício usado quando os prefeitos não tem determinados recursos diagnósticos ou terapêuticos. No caso de Mossoró, nessa área já existe (a Apamim), mas ainda não é utilizado pelo SUS municipal. Não acredito que a prefeita aguarde o dr. Bernardo montar um serviço, já existindo um na cidade e em funcionamento, para poder dar suporte à população que é atendida pelo SUS.

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