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Paulo Locatelli

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Retalhos de um vivente da guerra

A imagem da catalina voadora espatifando-se em meio às chamas jamais foi apagada da memória daquele jovem soldado recém-efetivado nas tropas do exército nacional dos idos de 1940.

O hoje ex-combatente de guerra Aldenor Nogueira, 80 anos, lembra com detalhes do período em que os brasileiros se juntaram aos americanos para combater o avanço nazista.

Imagens, números, nomes e outras referências da época formam o mosaico de lembranças do bravo guerreiro que viu de perto o momento em que foi pelos ares o velho avião de transportar soldados no período da II Guerra Mundial.

O EIXO – Na época do conflito belicista, ele exerceu a importante função de evitar que as tropas inimigas – formada pelo eixo Itália, Alemanha e Japão – invadissem a costa brasileira na altura do Rio Grande do Norte.

“Parnamirim Field”, como chamavam os gringos, era à época da II Guerra Mundial a base militar mais importante do País, pela estratégica posição de proximidade com a Europa. Por conta disso, virou alvo também de interesse das tropas do eixo.

Para os militares norte-americanos de meados da década de 1940, o Estado potiguar era apenas mais um ponto estratégico para enfrentar o inimigo durante a II Guerra.

Foram momentos de tensão. Mas de grande orgulho também para o soldado Aldenor Nogueira, que defendeu a costa brasileira do ataque inimigo com muito orgulho e como um dever a cumprir.

Resguardando a costa do inimigo

Enquanto os bravos combatentes brasileiros davam sua contribuição em solo europeu para a não proliferação do nazismo, Aldenor Nogueira ficou fazendo manobras na costa brasileira.

Ele foi convocado aos 5 de dezembro de 1942 para o que chama de Glorioso Exército Nacional. Fã número um do exército brasileiro, apresentou-se como voluntário para lutar na guerra com apenas 20 anos, sendo destacado para defender o litoral.

Por dois anos ficou percorrendo o litoral potiguar de cima a baixo para evitar a incursão estrangeira. Com o fim do conflito, Aldenor Nogueira foi destacado para o Tiro de Guerra de Mossoró.

Brasil dividido entre o eixo do bem e do mal

O estopim para a entrada do Brasil na guerra ele lembra: foi quando um submarino do eixo torpedeou um navio de cargas brasileiro, causando a morte de 1.170 homens.

“O Brasil não queria entrar na guerra porque o presidente Getúlio Vargas era simpatizante do eixo”, relembra Aldenor Nogueira. O povo começou a protestar nas ruas contra a posição de neutralidade assumida pelo governo federal.

VOZES – Ecoaram vozes vindas da Igreja, universidade, que, juntas, pressionaram Vargas. Foi daí que o Brasil entrou de cabeça na II Grande Guerra. Os brasileiros se aliaram à 4ª e 5ª tropas de soldados norte-americanos.

Embarcaram para a Europa 25.340 soldados brasileiros no navio norte-americano General Meig. Como o arsenal bélico brasileiro era obsoleto, os soldados receberam fardamento e munição dos americanos.

As Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB) foram organizadas nos moldes americano, sendo divididas em cinco escalões. Aldenor Nogueira ficou fazendo manobras na costa brasileira.

Perdas e vitórias em terras geladas

Paulo Nobre, Francisco Everton, Pedro Câmara, Chico Jacó, sargento Onofre e major Antônio Gutemberg. Aldenor Nogueira nomeia alguns dos bravos colegas que serviram a Nação durante a II Guerra Mundial em terras além-mar.

Do Rio Grande do Norte, foram enviados mais de 300 homens, entre graduados e soldados simples, sob comando do general gaúcho Mascarenhas de Moraes, acompanhado dos auxiliares Zenóbio da Costa e Osvaldo Cordeiro de Farias.

De todas as batalhas travadas com o inimigo, ele lembra que a tomada de Monte Castelo, na Itália, foi a mais espetacular de todas. E das mais difíceis também. Foram três tentativas frustradas.

Durante 239 dias ininterruptos, os homens das Forças Expedicionárias Brasileiras ajudaram as tropas norte-americanas em território italiano, até a tomada de Monte Castelo.

O primeiro tiro de canhão dado pelo exército brasileiro em terras italianas foi dado pelo mineiro da cidade de Viçosa José Torres. No dia 21 de fevereiro de 1945, o major Louseda dava o combate como vencido.

VITÓRIA – “Foi a vitória mais espetacular, porque Monte Castelo era considerada pelo eixo como sendo a fortaleza intransponível. O local era inóspito. As temperaturas chegavam a 20 graus abaixo de zero”, relata Aldenor Nogueira.

Ele conta que no final do conflito foram encontrados soldados mortos, congelados pelo frio. O único Estado brasileiro a não ter baixas em suas tropas foi o Maranhão. Do Rio Grande do Norte, seis combatentes caíram ante o inimigo.

Aldenor Nogueira perdeu no conflito dois amigos: o soldado Rodoval da Trindade, de Ceará-Mirim, e o padioleiro José varela, que morreu em decorrência de ter pisado numa mina.

Do alto de sua experiência, Aldenor Nogueira acha que, pelo que aconteceu no Iraque, está formado o cenário para a 3ª Grande Guerra. Apesar de dizer-se um amante da farda, com vocação militar, não vê razões para o que vem ocorrendo no oriente.

Para ele, os motivos do conflito no Golfo são totalmente diferentes do que ocorreu na Europa da primeira metade do século XX. Na II Grande Guerra, o que estava em jogo era a hegemonia mundial. Essa de agora é por petróleo.

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Mossoró-RN, domingo, 16 de abril de 2003